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sábado, 19 de setembro de 2026

NA REALIDADE, NÃO EXISTE ESCASSEZ DE DINHEIRO

 


Na realidade, não existe escassez de dinheiro*. Mesmo que se queira reservar o termo «dinheiro» para o ouro e a prata, os metais monetários. É preciso as pessoas perderem a visão «fétiche» sobre o que é o dinheiro. Essencialmente, um meio pelo o qual podem trocar mercadorias e serviços; é também um meio de acumulação de capital. 

No caso da função de intermediário nas trocas, ele desempenha o seu papel, desde que haja acordo de compradores e vendedores em relação ao valor efetivo desse dinheiro. As unidades podem ser arbitrárias, o seu valor unitário (o seu valor efetivo) pode variar muitíssimo. 

Quanto à função de acumulação de capital, como «dinheiro- papel», o seu desempenho é realmente insatisfatório. O dinheiro depositado numa conta a prazo  vai perdendo o seu valor real, apesar de aumentar nominalmente. Os banqueiros organizaram seu negócio para que o depositante nunca (ou muito raramente) obtenha um lucro real pelo seu depósito em dinheiro, na instituição bancária. O dinheiro-papel pode também ser aplicado em ativos financeiros, ações, obrigações, derivados... mas, o risco de perder tudo ou parte do capital acumulado é, muitas vezes, maior que o lucro que tais investimentos possam trazer. Em todo o caso, o cálculo de rentabilidade destas aplicações financeiras do dinheiro é particularmente difícil, pois ninguém tem «uma bola de cristal» para saber, daqui a um ano ou mais, de quanto esse ativo financeiro entretanto se valorizou, ou desvalorizou. Além de que existe a incógnita da taxa de inflação futura, no país ou países, onde tais investimentos foram efetuados. 

Uma taxa de lucro «bruto» de 10%, será um resultado excelente numa economia com valores de inflação próximos de zero; porém, numa economia com inflação de 20%, o lucro  nominal de 10% transforma-se em perda real de -10%!

Não existe solução simples e matemática para o sistema monetário. Tem sido proposto que uma unidade internacional tenha apoio em matérias-primas, ou metais preciosos, ou rendimentos industriais, etc. Esta nova divisa internacional poderia substituir o deplorável sistema «fiat» que reina há mais de 60 anos. No ano de 1971, o Presidente Nixon declarou o não cumprimento dos Acordos de Bretton Woods, fazendo do dólar uma divisa destinada a ser inflacionada (visto não haver nada de concreto para sustentar o seu valor) e, por arrastamento, a enorme quantidade de divisas que estavam indexadas ao dólar. 

Tenho pleno conhecimento do debate sobre «desdolarização» e substituição por novo sistema monetário internacional, de forma a que a unidade de troca seja «ancorada» ao ouro (ou a um cabaz de matérias-primas). Eu próprio me deixei entusiasmar por tal «solução», numa primeira fase. Porém, a capacidade humana em distorcer, ocultar e enganar, não estaria - com certeza - abolida: Logicamente, haveria dirigentes com habilidade e poucos escrúpulos, para conseguir obter o controlo e as vantagens inerentes desse tal novo sistema monetário.

Eu tenho advogado, desde há algum tempo, que as unidades monetárias se confundissem com as unidades de energia: Sendo assim, um montante desse dinheiro (um preço), seria a promessa de receber uma dada quantidade de energia. Todos os países e pessoas precisam de energia nas diversas atividades: Seria claro, transparente e universal, aquilo que estávamos a dar ou receber, aquando de troca envolvendo dinheiro/unidade de energia. 

Tal esquema acima talvez não seja viável por razões políticas; porém, é muito viável em termos práticos. Se houvesse vontade, podia-se organizar a contabilidade em termos de equivalentes energéticos. Por exemplo, nas trocas internacionais, seria muito fácil converter as unidades monetárias, em quantidades de energia (nas unidades do sistema internacional, S. I., por exemplo),  que poderiam corresponder a petróleo, gás, ou eletricidade (gerada de diversas maneiras...). O balanço energético teria muito maior significado que a balança de pagamentos numa divisa (em dólares ou noutra qualquer). 

Hoje em dia, no momento em que todo o comércio internacional, toda a economia, estão informatizados, a necessidade de uma determinada divisa internacional se destinar a pagamentos e trocas, deixa de existir. O cálculo das trocas comerciais e doutros valores, numa certa moeda perdeu muito do seu interesse prático; basta uma calculadora de bolso com função conversora para - instantaneamente - calcular a equivalência de uma soma numa moeda A, noutra B.  

O problema que coloca  a existência de certa moeda de reserva para as trocas internacionais é outro: Há potencialidade do país (ou conjunto de países) que emite(m) essa moeda, abusar(em) do seu privilégio. Nós temos  verificado esse comportamento, ao longo de vários decénios, pelos EUA e não há qualquer garantia de que outra entidade, nacional ou supranacional, que venha a substituir o US dollar , se comporte de modo impecável! Daí que a emissão de dinheiro correspondente a um «vale-energia» faça todo o sentido e seja quase impossível haver fraude, se tal emissão não estiver em mãos de um país, mas for universalmente supervisionada. 

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  *) Não existe escassez de dinheiro porque este é colocado em circulação, de acordo com os interesses das grandes corporações e dos magnates bilionários.

A "escassez" (artificial) manifesta-se nos 90% da população, que dependem do trabalho para sobreviver. A abundância de recursos dos muito ricos, se fosse distribuída,  daria para todos terem uma vida decente. Mas, isso é o que a oligarquia não quer, pois iria retirar-lhe poder, mesmo que ela continuasse com a sua vida de luxo. 

O sistema monetário,  tal como existe, não é de modo nenhum neutro; está concebido para perpetuar e proteger a riqueza dos muito ricos .

sábado, 24 de janeiro de 2026

UM ÍNDICE MAIS SIGNIFICATIVO QUE TODOS OS ÍNDICES BOLSISTAS




Não quero fazer sensacionalismo, nem despertar a curiosidade dos meus leitores, para depois os decepcionar.

Estou a falar do índice OURO/PRATA. Esta relação, que parece muito pouco interessante para quem não tem acompanhado a evolução dos mercados dos metais preciosos (Ouro, Prata, Platina e Paládio) , é de facto, chave para todos os investidores e estudiosos da economia.

Todos nós sabemos que numa «economia de casino» e como a «banca do casino», os bancos (desde os comerciais, aos bancos centrais) podem ficar na bancarrota.

A questão que se põe à pessoa não «iniciada» é a seguinte: «Como é possível que numa economia em crise, as falências do sector bancário não sejam mais frequentes e até mesmo, falências de países representados pelos respectivos Bancos Centrais?

Não se pode simplificar a questão; ela é demasiado grave para que nos contentemos em receber uma resposta simplista. Em geral, tais respostas são falsas, não porque sejam simples, mas porque eludem a natureza do sector monetário e financeiro: Não estão dando a imagem real do seu funcionamento.

O sistema monetário não é neutro. Ele funciona muito bem mas a favor dos detentores do capital e do poder que lhe está associado. Certamente, as pessoas comuns ignoram que os sistemas monetários foram desenhados com uma «deficiência». Somente, esta não é uma simples falha ou um erro; é algo deliberado.

Todo o dinheiro em notas/papel (númerário) e outras formas (digital, em contas bancárias, etc.), é crédito. Ele se caracteriza pelas duas propriedades seguintes:

- Corresponde a um pagamento diferido. Não é pelo facto de ser «abstracto», um «símbolo», que possui esta propriedade: É que o símbolo só realiza o seu valor, quando o possuídor de dinheiro o trocar por um bem tangível, ou um serviço concreto. Note-se que este crédito pode ser entesourado (incluíndo depósitos bancários...), sem se converter logo em objeto ou serviço.

- É substituição de algo: O «papel dinheiro» possuía, nos sistemas passados, algo que funcionava como garantia. Era o ouro, a contrapartida. Os bilhetes de notas de banco tinham convertibilidade automática em ouro ou prata (metais monetários) . Assim, há menos de cem anos atrás, havia possibilidade de trocar  dinheiro-papel, numa quantidade correspondente de ouro ou prata, ao balcão de qualquer banco.

Em 1944 - Bretton Woods - os Aliados e outros países não beligerantes decidiram sobre as grandes linhas do sistema monetário internacional. A ligação do dinheiro-papel ao ouro foi fixada em 35 dólares (US) por onça de ouro. Esta relação era fixa. Mas, ao contrário da época do padrão-ouro (que entrou em crise antes da guerra de 1939- 1945) a convertibilidade só se  mantinha de banco central para banco central, ou de Estado para Estado; já não entre outras instituições. Aliás, era dificultada ou mesmo proíbida, a posse de ouro aos individuos. Os EUA, neste sistema, eram os garantes de que os outros bancos centrais e Estados poderiam trocar os seus dólares por ouro.

Este sistema ruíu em 1971, quando Nixon, declarou retirar os EUA, «provisoriamente» da cláusula de convertibilidade fixa e garantida dos dólares em ouro. Este ato unilateral foi um golpe mortal ao sistema Bretton Woods. É um acontecimento indispensável conhecer-se, para compreender a História económica dos séculos XX e XXI. Mas, não irei aqui desenvolver explicações de pormenor.

A partir do momento em que uma divisa, seja ela qual for, já não pode mais ser convertida em ouro, desaparece a garantia, o elemento tangível e fixo, que conferia estabilidade às moedas, aos câmbios e às trocas comerciais.

Desde então o mundo tem vivido em instabilidade monetária e financeira, pois a «garantia sólida» de pagamento em última instância, desapareceu. Com efeito, a divisa de um dado país pode estar sujeita a especulação. O que antes correspondia a um determinado valor-ouro, deixou de conservar o seu valor. A partir deste momento, a garantida de valor de uma divisa é apenas a promessa do governo respectivo. Ora, não vale grande coisa, essa promessa, porque nenhum governo será capaz de manter a sua moeda estável, face a grandes variações no mercado internacional das divisas. É algo que ultrapassa os governos, incluindo os mais poderosos.

Quem detém o controlo dos mecanismos económicos e financeiros  pode facilmente desvalorizar, revalorizar, inflacionar, manipular a moeda, como convenha mais ao respectivo governo e à classe mais favorecida.

Uma divisa pode sofrer todas as alterações de valor imagináveis e até a extinguir-se; a desaparecer enquanto dinheiro em circulação. Aconteceu isso com uma enorme quantidade de divisas: Desapareceram, em dado momento da História. É preciso ter em conta que o valor real não é o nominal. Todos nós sabemos isso: Constatamos o antes e agora, no custo de determinados itens e despesas correntes, na divisa do nosso  próprio país.

Num sistema assim, instável por natureza, quem tiver ouro, prata ou outro objeto com valor real, tangível e transacionável, pode ter perdas, mas não vai perder tudo. Estes bens, com valor real e duradouro, tendem a aumentar de valor na divisa respectiva, com o tempo. A razão deste «fenómeno» é simples: Há uma ilusão persistante em medir tudo em dinheiro-fiat. Ora, o quilo de ouro ou prata, é uma realidade física imutável, na prática; pode ser preciso maior ou menor quantidade de «dinheiro-fiat» para adquirir determinada quantidade de metal precioso. Mas, ele não se «evapora» e tem valor intrínseco, pela sua raridade e pela dificultade em arrancá-lo do subsolo, refiná-lo, e efetuar todas as operações, até que seja colocado no mercado. A propriedade agrícola, ou imobilária, pode também guardar um certo valor intríseco, pelas mesmas razões fundamentais que os metais preciosos. O processo de edificação e conservação (no caso do imobiliário) ou o trabalho da terra, para que seja produtiva (os terrenos agrícolas) e, afinal de contas, para todos os objetos com algum valor, este deriva do trabalho investido.

Finalmente, por que motivo a razão ouro:prata é tão importante como índice?
- Se houver uma corrida ao ouro, a possibilidade de  o adquirir por valor abordável pela maioria das pessoas, desaparece. Mas em tais circunstâncias, para a maioria, a aquisição de prata ainda é abordável. A velocidade do crescimento do preço da prata é mais alta que a velocidade do aumento de preço do ouro.

Isto deve-se a um conjunto de fenómenos, por exemplo: Se houver muitos compradores de ouro, a cotação deste continuará a subir, embora a um rítmo mais lento. Quanto à prata, a subida do seu preço vai se acelerar porque haverá um aumento significativo dos compradores. Muitos desistem de adquirir ouro (em barra, amoedado, ou jóias), perante a subida vertiginosa da sua cotação, mas terão ainda algum poder de compra, para adquirir prata.

No gráfico da razão ouro:prata durante o último ano, visualiza-se o que acima descrevi por palavras.




Em ordenadas, no gráfico, está a razão Ouro/Prata; em absissas, o tempo (no espaço de um ano)
O numerador (preço do ouro) aumenta, mas menos rápido que o aumento do denominador (preço da prata). O quociente ou razão vai diminuir acentuadamente ao longo deste período, em que a desvalorização das divisas-papel é rápida e percebida como tal.
 Afinal, a inflação, por mais que tentem  iludir, é um fenómeno monetário: Ela é devida ao aumento significativo* de «dinheiro fiat» em circulação e não correspondente a um aumento de produção, nem à maior abundância de bens no mercado. 
É este o «segredo» que os doutores da treta nos tentam ocultar.

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*O aumento é consequência da deliberada impressão de divisa, sob forma física e digital, pelos governos: Não é um fenómeno decorrente dos mercados e independente da vontade dos governos.

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