Mais do que a alienação pelo trabalho, pelo desporto, pelo jogo, pelo sexo, pelas drogas... a indiferença social alastra com grande velocidade.
Quando eu era criança, havia indiferença social, com certeza. Mas, as pessoas «bem-pensantes» escandalizavam-se quando viam ou liam num jornal, que uma criança foi maltratada, que um pobre foi assassinado em plena rua, etc... Hoje em dia, a quantidade de factos deste género é de tal maneira avassaladora, que é impossível uma pessoa guardar um sentimento genuíno de aversão pelas cenas revoltantes, de se indignar e exigir justiça, ou que vá em socorro da vítima. Sobretudo, é impossível pelo facto de se estar banhado numa sociedade indiferente, cínica, que olha para o outro lado, como se tal cena não tivesse nada que ver connosco.
A sociedade massificada, implica um comportamento massificado. As pessoas são «ensinadas» ou condicionadas a apenas reagir quando certos «sinais desencadeadores» surgem: Por exemplo uma celebridade do espectáculo ou do desporto (ou outra...) a participar ativamente numa marcha, ou num «clip» transmitido na tv ou no telemóvel...
Poucas pessoas se apercebem da extensão do medo social que impera nas nossas sociedades. Mas, um caso paradigmático é da monstruosa campanha do COVID, a maneira como os poderes se auto-designaram como «salvadores», à custa de um generalizado estado de sítio, uma repressão arbitrária, uma violenta e totalitária exclusão das vozes dissidentes, mesmo quando (ou sobretudo quando) estas vozes pertenciam aos mais credenciados especialistas da biologia e medicina. Foi tão violenta esta campanha de «psyop» (psychological operation), que um número considerável dos que se ergueram e denunciaram as sucessivas fraudes, foram arredados sumariamente dos empregos, foram ostracizados, excluídos de qualquer meio de defesa. Os meios da «justiça» apareceram claramente como inadequados, incapazes de pôr um travão (mesmo que o quisessem) à catadupa de ilegalidades do poder. O poder de Estado não estava só: Era serventuário de poderes corporativos, as grandes farmacêuticas, mas também sectores das profissões médicas, que rasgaram o juramento de Hipócrates, que supostamente deveriam reger sua ética, para alcançarem o beneplácito do poder político, via sua vedetização mediática.
O ato seguinte foi a campanha de provocações dos países da OTAN contra a Rússia, que começou durante o golpe do chamado EuroMaidan (em Kiev) e culminou com o derrube violento de um governo legítimo, democraticamente eleito, colocando no poder revanchistas, gente com ódio por tudo o que fosse russo; estes puseram Stepan Bandera num altar e fabricaram um «santo», dum indivíduo que participou pessoalmente, durante a IIª Guerra Mundial, nos massacres organizados durante a invasão alemã da Polónia e da Ucrânia soviética, de muitos milhares de polacos, de judeus e de russos.
Neste contexto, a aprovação da burguesia dominante nas instituições europeias, fez discretamente sinais de apoio. O regime que violou os princípios da própria UE e da ONU, foi insensado em todas as capitais europeias, como se fosse o «regresso da democracia à Ucrânia». Nesse mesmo momento - e refiro-me ao antes de 2022 e da invasão russa - era perfeitamente evidente que os políticos e cidadãos comuns que não se conformavam com a «Ordem Nova» instaurada na Ucrânia, eram perseguidos, agredidos, presos, forçados ao exílio. Tudo o que a imprensa ocidental - nessa altura - relatava sobre Batalhões AZOV e outras milícias da extrema-direita era pouco, mas esse pouco era suficiente para que as pessoas vissem a realidade.
Mas, a propaganda, nos nossos dias tem a particularidade de conseguir que a imensa maioria das pessoas se contente com a «selecção» e «gestão» dos factos que os media corporativos lhes forneçam. Os que não cedem à propaganda, são uma minoria e nessa minoria, poucos levam a cabo o trabalho de investigação pessoal, passando as opiniões ao crivo do seu espírito crítico e confrontando fontes diversas sobre as notícias. Por isso, a principal força do lado da OTAN é a massiva colaboração da media corporativa. Só ela conseguiria manter, ano após ano, o mito «do corajoso Zelensky e seu governo», o lado dos «bons», dos patriotas ucranianos, contra os maus dos russos, que «invadiram sem provocação prévia» uma parte do território da Ucrânia. Mas não dizem (não ignoravam...) que a população russa dos Oblasts do Leste da Ucrânia (Lugansk e Donetsk) tinha sido sujeita a uma guerra de desgaste pelo exército ucraniano, enviando quotidianamente bombas e mísseis para os centros urbanos populosos, durante os anos 2014-2021. Além disso tinha-se o exército ucraniano concentrado em Janeiro de 2022 com as melhores divisões, para efetuar uma incursão massiça destinada a aniquilar qualquer resistência. Foram pelo menos 14 mil civis, os mortos pelas bombas ucranianas, nesses territórios maioritariamente russófonos. A OSCE deu conta das atividades bélicas nos anos anteriores a 2022 e, portanto, os meios criminosos e genocidas usados pelo governo de Kiev, eram do conhecimento tanto os governantes da UE, como as redações dos media.
A política tem sido transformada num desesperante combate desigual, em que os senhores do momento podem fazer a lei, não através de um consenso resultante de debate franco, com os eleitores e com participação aberta de forças políticas rivais. O processo político está viciado à partida, pois os órgãos de comunicação principais (os canais de televisão, sobretudo) estão transformados em câmara de eco dos interesses corporativos. Estes, por sua vez, decidem quem são os que vão ganhar as eleições: Graças às suas doações, às diretivas para os media que eles controlam, graças a um sem fim de conivências no tecido governamental e empresarial... Assim, «anulam» ou «encolhem» na perceção do público, as soluções que apresentam outras forças políticas. O público é muito condicionado, embora não se aperceba, pela chamada «dinâmica de vitória», se lhes parece que existe (pode ser verdade, ou não) uma maioria que vai votar num partido X, há uma percentagem dos eleitores que antes se teria abstido ou que votaria noutros partidos, que acaba por dar seu voto à força «vencedora».
De qualquer maneira, aquilo que é o discurso corrente dos partidos nos períodos pré-eleitorais e eleitorais não tem nada que ver, no essencial, com o verdadeiro programa de governo, se um desses partidos ganhar as eleições. As campanhas eleitorais foram sempre muito pouco propícias para o esclarecimento da cidadania sobre as diversas opções em jogo. Porém, agora, o discurso político é propositamente confuso, ocultando as reais intenções dos candidatos.
A partir do momento em que se instaurou o sufrágio universal, nos países da Europa Ocidental e da América do Norte, principalmente, punha-se a questão para a classe dirigente, de exercer continuamente o seu domínio, sem ter que - periodicamente - instaurar ditaduras, o que acabaria por dessacralizar a «vaca sagrada» da «democracia liberal». Assim, com a peritagem de homens como Edward Bernays e muitos outros, instaurou-se uma ordem onde o público era mantido numa ficção permanente. Ficção de que o «soberano» era o povo, que ditava com a sua vontade as leis e orientações do governo. Ingénuo e vaidoso, desde que elogiado nos discursos que gostava de ouvir, o público caíria na esparrela facilmente, votando no partido designado pela elite do dinheiro, que decidiria qual o próximo governo. Portanto, o poder continuava nas mãos duma pequena minoria, da oligarquia, mas com a aparência do governo e decisões serem a expressão da vontade dos votantes. Nada melhor, para os verdadeiros detentores do poder, desde que eles conseguissem fazer este jogo suficientemente bem para que o povo não duvidasse.
Além disso, a existência de eleições «livres» fazem com que o governo, a sua ação e as leis emanadas do parlamento, te implicam a ti, cidadão eleitor: As decisões importantes seriam - no fundo - resultantes do «jogo democrático»: «Ou tu estiveste de acordo, porque votaste no partido agora no poder, ou , caso tenhas votado contra, deves ter a honestidade e o «fair-play» de deixar os outros governar, visto que as eleições foram «limpas». É esta a sofística da chamada democracia, não da democracia dos gregos da antiguidade, nem a dos «sans-culottes» da revolução francesa.
Aquilo que é mais nojento e que todos os políticos do sistema sabem bem é que - de facto - os eleitores não têm absolutamente nenhuma ideia sobre a personalidade dos que eles são convidados a eleger; não sabem também qual o real programa de governo, aquele que entrará em vigor se o partido que eles «escolheram» ganhar as eleições. Também não existe, de modo legal, procedimento de retirar dos seus lugares aqueles governantes ou deputados, que tiverem um comportamento muito diferente do que prometeram, ou por incompetência, ou por venalidade, ou por perfídia...
Infelizmente, a imensa maioria das pessoas está convencida que «isto» que têm à sua frente é «democracia» e que não existe nada mais... Ou então, que será uma variante de um regime totalitário. É muito difícil exercer uma pedagogia no sentido de esclarecer o povo. Seria necessário instaurar-se (ou restaurar-se) associações de várias finalidades - associações sindicais; cooperativas; culturais; desportivas - que fossem locais onde se pudesse exercer uma forma diferente da democracia, a democracia direta. Depois, esta prática continuada poderia desembocar no exercício de formas de democracia direta em municípios e regiões. Não creio que este progressivo alastrar da democracia direta ou de base, fosse logo capaz de destronar a falsa democracia, baseada na fraude e na corrupção a todos os níveis. Mas, por outro lado, também não é com «tomadas do poder» do tipo bolchevique, ou outras, que uma sociedade pode encetar o caminho para mais democracia.
Penso que um sistema onde os eleitores tiverem efetivos mecanismos para destituir ou fazer caducar o mandato de algum eleito, se ele não estiver a agir e votar de acordo com o mandato pelo qual concorreu, seria um bom princípio, porque iria introduzir a responsabilidade política efetiva nos eleitos perante os seus eleitores.
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