Manuel Banet, ele próprio
Reflexão pessoal, com ênfase na criação e crítica
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Estratégica Vitória da China
O EFÉMERO do PODERIO IMPERIAL; EXEMPLO PORTUGUÊS
No ensino português, é dada com grande pormenor, mas com muito pouco senso crítico, a «gesta dos portugueses», nos séculos XV-XVI, na conquista de terras do ultramar.
Mas, na verdade, se esta história tem alguma coisa de edificante, não será o «heroísmo» de soldados e marinheiros e ainda menos dos chefes que os comandavam.
Muita coisa seria necessária dizer, para se ter uma ideia do que foi a tal «conquista» de terras em vastas zonas geográficas, que se estenderam rapidamente por três continentes, além do continente europeu.
Deveria ser motivo de reflexão, não pelos tais actos de heroísmo, reais ou forjados, mas antes, uma lição de sabedoria, a observação do destino do império colonial português.
Com efeito, o colonialismo marítimo, pelo controlo das rotas e portos estratégicos na Índia, Ásia do Sul e Extremo-Oriente, foi seguido por um colonialismo territorial (África e Brasil, sobretudo). Este, teve como corolário a reação, quer dos povos colonizados, quer de potências em rápida ascensão (Inglaterra, Holanda...).
Assim, o Império Português, que iniciou suas conquistas no século XV e se consolidou no século XVI, logo sucumbiu em 1580, perante as forças militares invasoras de Espanha e da subsequente perda da independência de Portugal. Durante 60 anos, os Filipes de Espanha foram os soberanos do reino de Portugal, sem que houvesse, no entanto, unificação dos dois reinos ibéricos.
Foi o golpe de Estado de 1° de Dezembro de 1640 em Portugal e subsequentes anos de guerras (mais de meio século), que restauraram e consolidaram a independência de Portugal. Mas, com perda de possessões coloniais, sobretudo, asiáticas. Havia de novo um reino independente, com territórios em vastas áreas da América e de África, mas sem capacidade de os desenvolver e explorar. Não somente no período de domínio da coroa Espanhola como mesmo antes, já muitas potências europeias cobiçavam e não perdiam a oportunidade de conquistar praças-fortes portuguesas e respectivos territórios adjacentes, em três continentes: Na América do Sul, na África e na Ásia.
A Inglaterra dominava no final do século XVI, as vias marítimas. Apesar dela ter sido aliada de Portugal nos dois séculos anteriores, agora estava em guerra com os portugueses: Estes pertenciam - desde a perda da independência - ao império dos Habsburgos, no qual Portugal tinha sido incorporado, tendo de fornecer, entre outras coisas, navios de guerra para a "Invencível Armada". Esta - como é sabido - sofreu uma derrota tremenda no Canal da Mancha, ao largo das costas Inglesas, em 1588.
As potências europeias faziam guerra entre si, na Europa e também se guerreavam nos domínios coloniais respectivos. Por exemplo, os Holandeses tomaram aos portugueses pedaços substanciais de territórios no Brasil e na Ásia do Suleste, pontos nevrálgicos para o império marítimo português.
Os piratas e corsários interceptavam navios nas rotas comerciais, atacando navios mercantes carregados de bens valiosos, desde ouro e prata, até às especiarias. Os sobreviventes destes ataques eram vendidos como escravos, no Norte de África, principalmente. Este era, geralmente, um comércio muito lucrativo. Os piratas libertavam os cativos, mediante o pagamento de avultado resgate. Mesmo países com poderosas armadas e soldados embarcados, para proteger os navios de comércio, sofriam grandes perdas.
O comércio trans-oceânico, por mais lucrativo que parecesse, à primeira vista, não o era, por causa de numerosos fatores de risco: Além da pirataria, havia quantidade de naufrágios. Os países europeus gastavam somas colossais para manter o seu império: Tinham de construir e manter a frota de guerra, construir fortalezas e as guarnecer com forças militares, em pontos estratégicos costeiros. Tinham frequentes perdas de mercadorias.
Sobretudo, tinham grandes perdas humanas, na altura em que a população era um décimo da de hoje: Portugal continental hoje, tem cerca de 10 milhões de habitantes; nos finais do século XV e durante todo o século XVI, teria cerca de 1 milhão, apenas.
Por todos estes motivos, a colonização, não apenas portuguesa, como de todos os poderes marítimos, nos séculos XV, XVI e XVII, não foi a operação lucrativa tão grande que se imagina. Embora as metrópoles beneficiassem do afluxo do ouro, da prata, ou de produtos de luxo (pedras preciosas, sedas e tecidos caros, marfim, especiarias), as suas despesas cresceram exponencialmente. Em Espanha e Portugal, por outro lado, deu-se o abandono dos campos e a consequente falta de braços para trabalhar a terra, originando a incapacidade duma auto-suficiência agrícola, além de inflação severa e persistente. Terão sido estes, os principais factores que levaram à decadência as estruturas económicas e sociais dos reinos ibéricos.
Pelo contrário, os países do Norte da Europa viveram a sua época de ouro, ao receberem e transformarem o que vinha dos reinos de Portugal e Espanha. O nascimento e desenvolvimento das indústrias do Norte da Europa, aconteceu em paralelo com a contração das economias portuguesa e espanhola.
O resultado foi que os países ibéricos gastavam o maná proveniente das suas possessões do ultramar para pagar a importação de muitos produtos, incluindo alimentares. Foram ficando cada vez mais endividados, porque tinham deixado de produzir o essencial. Nem tinham já o dinamismo económico necessário para tirar partido das matérias-primas que lhes chegavam das suas colonias. Tinham de fazer despesas avultadas para manter sua frota militar e seu exército, para o controlo de terras distantes. O declínio demográfico acentuou-se numa espiral descendente.
A importação maciça de escravos africanos para trabalhar nas fazendas das Américas (os dois sub-continentes americanos e as Caraíbas), foi uma consequência do genocídio dos ameríndios, como um contemporâneo destes horrores, Frei Bartolomeu de las Casas, descreveu. Assim, o tráfico de africanos - durante séculos - enriqueceu os donos dos navios negreiros que faziam a travessia do Atlântico e os fazendeiros do Novo Mundo, que exploravam o trabalho escravo, quase gratuito e abundante. A famosa «acumulação primitiva», do capitalismo nascente foi - sobretudo - uma acumulação de riqueza obtida pelo trabalho escravo. O sistema da escravatura só começou a ser desmantelado nas Américas, na segunda metade do século XIX. Depois disso, ela ainda continuou em muitas colónias de África.
Sem dúvida, a história dos impérios coloniais não é algo de que os povos colonizadores se possam orgulhar. Porém, a forma como estes impérios se desmoronaram é (ou devia ser) motivo de aprofundado estudo, político e económico.
Eu não sou competente para fazer a História dos imperialismos. Porém, devo salientar o facto dos cidadãos meus contemporâneos estarem, de novo, a ser alimentados com narrativas falsas, que branqueiam as eras coloniais passadas. Serve tal branqueamento para sustentar ideologias reaccionárias e racistas. A ignorância que está na sua origem, vem ao de cima, quando se manifesta o desprezo pelos povos das ex-colónias.
Nota-se hoje, que estas ideologias são de novo propagadas por sectores de extrema-direita, em países europeus. Assim, os povos são mantidos no medo «do outro» e condicionados para uma nova guerra mundial.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
LOUCURA IMPERIAL DESVENDADA
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Brutal invasão de Trump na Venezuela está a sair-lhe pela culatra
O «INSTANTÂNEO» NAS RELAÇÕES HUMANAS CONTEMPORÂNEAS
Sabemos que - em termos físicos - não existe o instantâneo, pois a luz tem uma determinada velocidade no vácuo e nenhuma partícula, fotónica ou outra, pode ultrapassar esse limite. Sim, mas há uma incapacidade de distinguir o que teoricamente é realmente instantâneo, daquilo que aparenta sê-lo, se confiarmos nos nossos sentidos, apenas. O mundo em que nos movemos é um mundo cheio de ilusões. Temos a ilusão - em particular - do instantâneo e esta está ancorada profundamente no psiquismo. Decorre daí que a nossa percepção, nos dá a sensação de instantâneo, que afinal nós próprios, ao refletirmos, chegamos à conclusão de que é uma sensação ilusória, na esmagadora maioria dos casos.
Não devíamos ficar surpreendidos com esta ilusão sobre o "instante" num mundo em que a mediação eletrónica e digital está omnipresente. Porém, mesmo as pessoas cultas e sofisticadas se deixam iludir ou se auto-iludem. Praticamente todas as pessoas, cultas ou incultas, com formação científica ou sem ela, no dia-a-dia prestam «culto religioso», à instantaneidade, como se isso fosse algo positivo, em si mesmo. Espelhando perfeitamente a mentalidade que prevalece no grande público, a publicidade referente à enorme quantidade de mercadorias e serviços, usa o argumento do «instantâneo», como se fosse o superlativo de muito rápido. Ao fazerem isso, estão a reforçar naturalmente o preconceito do público.
Este culto da extrema rapidez, ao ponto dela ser assimilada ao «intantâneo», tem como corolário que as pessoas cometem muitos mais erros, evitáveis, porque não se dão um tempo mínimo, necessário para avaliar uma situação. Não vejo solução instrumental para corrigir esta ilusão persistente. Apenas a consciência do indivíduo, compreendendo que estar imbuído do preconceito de que algo é «instantâneo», não apenas é falso na imensa maioria concreta das ocorrências da vida diária. Também representa um handicap sério, pois retira ao cérebro aquele tempo mínimo, necessário para avaliar uma situação e decidir o que fazer.
Observando os animais - selvagens ou domésticos - verifico que se costuma projetar «intenções humanas» aos seus comportamentos. A nossa ignorância sobre o comportamento animal faz com que - frequentemente- se atribua tudo «ao instinto», coisa que afinal, não explica nada (creio até que não pode ser definido como conceito científico, por ser demasiado vago).
Ora, é muito frequente, em observação de animais, observar neles um tempo de «avaliação», que pode ir de uma fração de segundo, até vários segundos. Por exemplo, antes de dar um salto para capturar a presa. Pelo contrário, muitas presas têm o comportamento bem definido, de ficar totalmente imóveis e apenas pular ou voar, caso o predador se mova em sua direção.
Não quero reduzir os comportamentos humanos, complexos e muito variáveis, aos comportamentos de animais, quer sejam presas ou predadores. Com esta referência, apenas quero chamar a atenção para o forte valor evolutivo de se avaliar uma situação previamente, para dar a resposta que convém. Se a rapidez ou resposta «instantânea» fosse a mais vantajosa do ponto de vista evolutivo, o padrão comportamental acima mencionado, quer para as presas, quer para os predadores, não seria bem sucedido; haveria unviversalmente, tal resposta «instantânea» no Reino Animal.
O «culto» do instante é vantajoso para uma sociedade que viva do sobreconsumo, do consumo hedónico. Compreende-se que numa sociedade como a nossa, desde há várias dezenas de anos, a publicidade esteja apontada para suscitar os desejos do público e não em enumerar as vantagens da mercadoria. Com efeito, toda a construção do reclamo publicitário está baseada no efeito psicológico exercido na nossa mente, não na «performance» do objeto ou serviço em si, que se pretende vender.
Os serviços de notícias, nas suas formas de rádio, televisão ou Internet... são desenhados para passarem o mais rapidamente possível, pelos órgãos dos sentidos e cérebros dos receptores. São catadupas de notícias, quer «em contínuo» quer em condensados (em geral, a determinadas horas), cuja trivialidade, natureza fragmentária, ou adjetivação, são típicas. O mesmo acontece com as imagens, que vão conduzir, no inconsciente das pessoas, ao efeito de «saber ilusório».
Por exemplo, o encontro entre dois chefes de Estado, é «noticiado» com imagens protocolares, apertos de mãos, passagem em revista da guarda de honra, entrada para os carros oficiais, breves discursos de boas-vindas... Tudo, coisas que aconteceram, mas que não possuem valor informativo. O dispêndio de preciosos minutos com aspectos protocolares, porém, dá-nos a ilusão de termos «presenciado» o acontecimento, de estarmos «informados».
A «instantaneidade» no campo da informação é realmente muito enganadora, pois se podemos apreciar em direto um concerto ou uma competição desportiva, o «instantâneo» que nos colocam à frente, em relação a acontecimentos políticos, sociais, militares, etc., não é geralmente composto por filmagens contínuas: É sempre resultado de imagens seleccionadas e retransmitidas.
A manipulação provoca a nossa ilusão de que estamos a «presenciar» um acontecimento. Esta ilusão decorre ao nível inconsciente, na psique profunda. Não podemos fazer um distanciamento objectivo das imagens que nos são «servidas». O nosso grau de instrução, de inteligência, etc, é de pouco ou nenhum socorro para isso, ou então teríamos que analisar em detalhe cada imagem, fotograma, frase, som... Com certeza que quase ninguém tem tempo para fazer isso. O resultado é que todos somos condicionados, talvez uns mais que outros, porque a nossa mente consciente é «fintada» pela informação subliminar dirigida ao e analizada por nosso cérebro «emocional».
Se nós tivessemos selectividade no que «ingerimos» em termos de informação, num grau parecido com a nossa selectividade em como nos alimentamos, talvez o trabalho fosse mais complicado para os manipuladores profissionais. São pessoas das profissões da PR ou propaganda, o que inclui o sub-sector político. São quem assegura a «nobre» tarefa de nos manter iludidos, fascinados pelo instante, convencidos de «tudo» saber, pelo menos, sobre os assuntos que nos interessam mais. Isto chama-se «lavagem ao cérebro» em portugês corrente, mas o termo está mal atribuído (a não ser que seja por ironia) pois se trata de atafulhar o cérebro com coisas, desde as mais relevantes às mais inúteis. Existem pessoas cuja casa está sempre cheia de objectos, tudo desarrumado, sendo perigoso fazer um passo ou um gesto, sem perigo de colidir com algo. Estas pessoas são doentes mentais; e, para nós, isso é óbvio. Mas se pudessemos passear dentro do psiquismo de alguém contemporâneo, teríamos - estou certo - uma experiência análoga.