Manuel Banet, ele próprio
Reflexão pessoal, com ênfase na criação e crítica
sexta-feira, 13 de março de 2026
quinta-feira, 12 de março de 2026
HÚBRIS [Crónica da IIIª Guerra Mundial nº57]
Como já tenho explicado noutros artigos deste bloco, a húbris era como na antiguidade os gregos designavam a embriaguês da vitória, fazendo com que o general vencedor se julgasse tudo permitido. Nestas circunstâncias, uma vitória momentânea, podia se transformar na mais profunda e definitiva derrota. Isso ocorreu repetidas vezes no passado; agora verificamos que está a acontecer isso mesmo com Trump e com os que o rodeiam, o seu «Estado-Maior». Muitas vezes verifica-se que os poderosos acabam por cair nas suas propagandas. Acabam por acreditar que a sua avaliação do adversário é correta. Porém, no caso da guerra presente, nada podia ser mais longe da verdade.
A guerra assimétrica que está a ser levada a cabo pelo Irão, agora também pelos seus aliados do Hezbollah, no Líbano, contra Israel e os EUA, conduz matematicamente a que os arsenais de mísseis interceptores dos inimigos do Irão sejam esgotados bem antes que o arsenal iraniano de drones e mísseis esteja perto de se esgotar. Os primeiros ataques iranianos, foram levados a cabo com uma maioria de mísseis desactualizados, logo com pouca probabilidade de atingir o alvo, havendo no meio destes, alguns mísseis de última geração, que tinham a capacidade de furar as defesas do inimigo e não eram praticamente interceptáveis. Esta combinação, saturando as defesas Israelo-Americanas e ao mesmo tempo atingindo alvos significativos, teve um efeito moral e económico, logo nos primeiros dias de combates. A resposta americana e israelita foi de bombardear o território do Irão, sobretudo zonas civis, causando portanto muitas baixas civis e danos materiais. Mas estes crimes de guerra, tal como o ataque com «decapitação» de muitos dirigentes, incluindo o Aiatolá Kamenei, não tiveram o efeito desejado. Uniram a população em torno dos seus governantes, das suas forças armadas; mesmo pessoas que, em Janeiro deste ano, tinham participado em manifestações contra o regime iraniano.
As bombas podem matar, destruir, mas está garantido que numa circunstância onnde exista uma forte motivação de resistência ao invasor, os ataques aéreos não podem conseguir o objetivo de mudança de regime. Como se tem visto, aconteceu exatamente o oposto: Uma consolidação do regime, com uma grande massa da população agrupada em torno do seu governo. Perante esta situação, os estrategas de Israel e de Washington recuaram da invasão terrestre planeada. Nesta invasão terrestre, seriam usadas como «carne para canhão», as forças «proxi» de curdos do Iraque e os do Irão, que se tinham refugiado nos países vizinhos. Estas forças só poderiam ser de voluntários; não havendo nenhum entusiasmo da parte destes curdos em morrerem pelas causas israelita e americana, os estrategas dos dois países agressores tiveram de mudar seus planos. Agora, estão a fazer uma guerra de destruição maciça, com especial incidência sobre os bairros habitacionais de Teherão e doutras grandes cidades, destruíndo também refinarias (com importantes consequências ambientais) e fábricas de dessalinização da água. Estes criminosos de guerra querem vergar a população civil, tornando impossível a sua sobrevivência. Mas, os objetivos propriamente militares como os mísseis e drones armazenados, estão fora do alcance das bombas israelo-americanas. A partir de alguns esconderijos, os iranianos têm conseguido enviar uma média de 3 a 4 mísseis em 24h, para as bases militares americanas situadas nas monarquias do golfo Pérsico. Esta destruição é suficiente para as tropas dos EUA serem obrigadas a abandonar algumas bases. Por outro lado, a população destas monarquias é composta por estrangeiros, entre 60 a 90%, consoante os casos. Ela está a ir-se embora em rítmo acelerado, desertando todos os negócios e os locais de veraneio, sobre os quais se baseava a viabilidade económica destes centros. O Bahrein, o Dubai, a Arábia Saudita, o Quatar, o Koweit e Omã, cometeram um erro estratégico grave, ao acreditarem que os americanos iriam garantir a defesa destes reinos, em troca da sua cedência de terrenos para as bases militares dos EUA. Os americanos, como é seu costume, apenas estão preocupados em defender as suas posições militares; quanto muito, os civis dos EUA apanhados na tormenta. Os referidos reinos do Golfo estão agora a tomar consciência o seu erro e a sofrer as consequências amargas. Mas estão, de qualquer maneira, em vias de mudar de alinhamento, pois sabem que o Irão não se vai deixar vencer e que eles serão um alvo, para mísseis e drones. Tanto mais que, logo no primeiro dia da guerra, o Irão neutralizou os sistemas de radares nos vários reinos do Golfo, que constituíam os meios de vigilância e de monitorização para os ataques americanos contra o solo iraniano.
A distância de Israel em relação ao Irão não impediu que - mais uma vez - as defesas israelitas se mostrassem impotentes para defender Tel-Aviv e Haifa. Do mesmo modo, não conseguiram impedir que fossem atingidas bases no deserto do Negev. O governo de Israel está a censurar todas as informações relacionadas com os ataques iranianos e com a destruição causada, ameaçando de prisão quem filme ou publique imagens relativas a tais destruições. Também as ofensivas militares dirigidas contra o Líbano estão a falhar: Elas não impedem que o Hezbollah lance ataques com mísseis no Norte de Israel e em zonas do Líbano ocupadas por tropas israelitas.
No estado atual e dada a situação no terreno, as destruições causadas pelos bombardeamentos americanos e israelitas não causaram desespero na população e dirigentes do Irão. Pelo contrário. Porém, a situação de guerra já causa, no Ocidente, um prejuízo enorme: Não apenas a dificuldade de abastecimento devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz, impedindo o tráfego de 20% do petróleo consumido ao nível mundial, como o alastramento do pânico nas bolsas mundiais, a ruptura das cadeias de abastecimento, a brusca aceleração da inflação.
Ao nível da opinião pública mundial, esta guerra iniciada quando os iranianos estavam à mesa de negociações com uma delegação dos EUA no Omã, recebe o repúdio não apenas dos povos do Sul Global, como a hostilidade nos países ocidentais: Inquéritos mostram que - nos EUA - uma maioria absoluta condena o desencadear desta guerra. É variável, mas sempre muito elevado, o nível de desaprovação dos restantes países ocidentais. A Coreia do Sul e o Japão estão numa posição particularmente difícil; seus abastecimentos em petróleo provinham muito maioritariamente do Golfo. Se continuar a situação de guerra, inviabilizando a navegação dos petroleiros através do Estreito de Ormuz, eles terão uma situação de catástrofe ainda mais grave.
Não se pode excluir, infelizmente, que os israelitas façam uso de armamento nuclear, para se «vingarem» da derrota humilhante sofrida. Se assim for, haverá guerra nuclear generalizada, com certeza. Mas os sionistas no poder concebem como possível destruir Israel em simultâneo com toda a humanidade: Eles têm publicado em documentos oficiais, que se o Grande Israel não se puder realizar, então é-lhes indiferente que o Mundo inteiro também desapareça.
quarta-feira, 11 de março de 2026
Os princípios da guerra assimétrica
O prof. Jiang dá-nos uma lição magistral da guerra assimétrica que está a ser combatida pelos iranianos contra as forças militares conjugadas de EUA e Israel.