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quarta-feira, 12 de agosto de 2026

MEDITAÇÕES [12 DE AGOSTO DE 2026]

 A  constante agitação e desatenção em relação ao próprio e aos demais, como se toda essa agitação fosse positiva, é o fenómeno visível do descentramento de certas pessoas.

Mas, a agitação não é a ação.  É a expressão de uma inquietude , de uma instabilidade, dum  desejo insaciável.  Esta sociedade impregna seus membros, desde crianças, com os seus não-valores. Reforça  assim a crença na hierarquia, na meritocracia e na visão dicotómica do mundo.

O sábio não vai contrariar a maré de estupidez, não vai tentar convencer as pessoas de que não estão certas; isso seria inútil e até perigoso. 

Não é errado estar centrado em si mesmo. Não significa que se esteja num postura egoista, pelo contrário: Poderá ser um modo de estar responsável, ciente de que se tem de cuidar de si próprio, dos seus assuntos, da sua vida, não sobrecarregando os membros da família e os amigos com obrigações que são as do indivíduo. Salvo situação de incapacidade por doença, cuidar dos seus próprios assuntos é elementar. Sem o grau de autonomia acima mencionado, como é possível desempenhar um papel lúcido e consciente no seu entorno imediato e na sociedade em geral? 

Estar consciente da efemeridade da vida, não quer dizer desleixar diversos aspectos relacionados com o presente e o futuro. Quem se desinteressa da sua manutenção própria e da sua família, não está a ser altruísta, nem desligado dos interesses materiais. Pelo contrário, está a ser parasita dos outros, da família e da sociedade, visto que ninguém sobrevive sem receber algo dos outros. 

Na época que atravessamos, estar consciente de como a vida é efémera, deveria aumentar o cuidado de si próprio e dos outros.  

Por outro lado, a valorização de cada dia, de cada instante na nossa vida, deveria obrigar à maior consciência do que se faz, ou do que se omite. 

Somos tanto mais realizados e a nossa vida é tanto mais harmoniosa, quanto mais nossas ações se conformarem com ideias que assumimos. As ideias podem ser muito boas, teoricamente, mas sem a sua aplicação no domínio do real, apenas são sonhos. Sonhos por realizar, não substituem as realizações práticas da vida. 

Quando oiço alguém me falar de seus «projectos de vida», sei que ele não viveu e que provavelmente irá passar ao lado das coisas importantes da vida. Mas, não vou corrigi-lo, porque isso seria inútil, talvez causador de antipatia em relação à minha pessoa. Em todo o caso, seria compreendido de um modo equivocado, como se tivesse dito que é 'incapaz', 'incompetente'. 

Não! As pessoas estão sob o efeito hipnótico da cultura da «performance», que as empurra a correr sempre e cada vez mais, a esforçarem-se, custe o que custar, em busca duma ilusória «recompensa» social e monetária.

Não é pelo facto de se saber muito, que se aumenta o seu potencial de realização concreta, prática, real das coisas da vida. As pessoas não são ensinadas levar a cabo uma aprendizagem útil, no momento adequado das suas vidas e recorrendo aos meios pertinentes. 

Não! A totalidade da juventude é encaminnhada para uma corrida ao diploma, que obriga a assimilar um dilúvio de livros e artigos, a atafulhar o cérebro com um amontoado heteróclito de conceitos, treinando a regurgitação do que ingeriram (mas não assimilaram), a serem áses a responder aos testes - completamente imbecis - de resposta múltipla. 

Assim, o establishment da educação, particularmente os ministros da educação e sumidades académicas, garantiram a prevalência social da mediocridade, da falsa noção do mérito, da incompetência prática, mas com «excelentes» classificações... Sei de exemplos concretos disso e estou certo que os leitores também conhecem este novo tipo de imbecil - o «imbecil erudito». 

Dá-se o paradoxo aparente seguinte: Houve um grande aumento da educação e dos graus académicos mais elevados, em praticamente todas as sociedades, em paralelo com maior incompetência em termos de saberes (skills) sociais e - mesmo - de saberes teóricos que -supostamente- os alunos teriam adquirido no curso universitário. 

O paradoxo é aparente, pois a finalidade da extensão de cursos e formações universitárias, tem como objectivo primeiro capturar as pessoas jovens numa rede de dependências, de sujeição perante a autoridade, de aceitação do status quo e da halucinação da meritocracia. De outro modo, a juventude iria revoltar-se com dez vezes mais energia e - sobretudo - mais coerência do que o fez em tantos países, nos finais dos anos 60. 

No conjunto de muitos milhares de jovens, há sempre alguns que são excepcionais, que realmente fazem a diferença: são os inovadores. Mesmo estes, muitas vezes, são desprezados ou reprimidos, pois o génio, o talento, vão de par com irreverência, com o não acatar da autoridade. Se virmos o «output» real do sistema de ensino, verificamos que é dum enorme desperdício.

Mas será isso fruto de incompetência de dirigentes políticos e planificadores? - Com certeza que não; pois estes têm feito sempre com que as tendências acima indicadas se acentuem. Quem deseja uma mudança real ao nível dos efeitos, não irá insistir nas mesmas causas, que estão na origem das disfunções do sistema.



PS1: Hoje, dia de eclipse total do Sol, na Europa Ocidental, fenómeno  que anteriormente ocorreu em 1912, enquanto eclipse solar total nestas regiões.  Sei que se trata dum fenómeno astronómico apenas, mas, simbolicamente, vejo-o como aviso da Mãe-Natureza. 

A Europa e o Ocidente estão em decadência acelerada, em colapso civilizacional. Gostaria que o ponto mais escuro do dia de hoje fosse o ponto de novo arranque  para a luz do conhecimento e da sabedoria.