COMENTÁRIO:
Eu não estou dentro do segredo dos deuses. Não posso portanto confirmar ( nem por grosso, nem ao detalhe), as trocas tidas à margem de cimeiras da Organização dos Países de Língua Portugesa, ou de outros eventos, em que ministros dos estrangeiros participaram.
O que me parece é que determinadas correntes, nos «principais partidos de poder» em Portugal (PSD e PS), têm uma visceral ligação com a U.E. e com a OTAN, muito em desfavor dos seus respectivos eleitorados e do próprio povo português.
A «punição» da Troica em relação a Portugal, que Pepe Escobar refere, aconteceu e foi reamente muito dura, como ele diz. Porém, a consciência política do facto ficou confinada às franjas mais radicalizadas do eleitorado, que votaram PCP ou "Bloco de Esquerda".
Nisso, como noutros assuntos de importância magna, a não independência da média tem desempenhado um papel de ocultação, ou de desinformação com fidelidade canina aos «Senhores Donos».
Portugal durante gerações, foi sujeito a um fascismo salazarento, mais obscurantista ainda que o franquismo. A curta «festa revolucionária» pós 25 de Abril de 74, não inverteu fundamentalmente a ignorância do povo, mormente devido à contrarevolução em 25 de Nov. de 1975 e nos anos que se seguiram, de involução dos projetos baseados nas ideias generosas de democracia «a caminho do socialismo».
A educação cívica e política, que se pretendeu introduzir ao nível do ensino secundário, muito depressa fracassou, por sabotagem das próprias lideranças do Ministério da Educação.
A demagogia dos partidos, quase todos, serviu-se da ignorância do povo, apresentando-lhe a cada eleição a imagem que lhes daria mais votos, sem nenhuma tentativa séria de apresentação das questões políticas que se colocavam no momento, ou a longo prazo.
Infelizmente, este estilo de «democracia» eleiçoeira, foi descendo de nível, de eleição em eleição. Nas últimas eleições para a Assembleia da República, cada partido encontrou slogans que não queriam dizer nada de concreto, para colocar nos seus cartazes. Ou não significavam nada ou o mais inócuo que se possa imaginar. As frases eram tão destituídas de significado político, ou programático, que eram intercambiáveis. Sem as caras dos candidatos ou de emblemas partidários, os cartazes não eram sequer identificáveis, em termos políticos ou ideológicos. O resultado disso, foi um terramoto eleitoral da extrema-direita, que soube explorar as facetas mais mesquinhas presentes numa parte do povo, nomeadamente o seu ódio pelos estrangeiros, erroneamente vistos como roubando o ganha-pão dos portugueses, quando na verdade, os empregos que os emigrantes tomavam, eram os de menor prestígio social, aos quais 99% dos portugueses -mesmo no desemprego - não se queriam candidatar. Mas, a incapacidade de fazer frente à vaga de xenofobia e de racismo, foi tanto mais devastadora,quanto o principal partido (dito) de esquerda, o PS, estava incapaz de contra-atacar perante a ofensiva da extrema-direita. Nos anos de governo PS (do governo António Costa, agora «promovido» à Comissão de Bruxelas) foi ele o promotor da vaga de emigração para o nosso país, permitindo colmatar a grave deficiência de trabalhadores na agricultura, na construção, na restauração... Tudo sectores onde o PS decidiu investir a fundo, para superar o marasmo (induzido pela Troica) dos anos 2011-2014.
Entretanto, a subserviência ao grande capital e à finança especulativa, não podiam ser compatíveis com iniciativas de desenvolvimento industrial. Foram então os domínios do turismo e do imobiliário de luxo a canalizar os capitais, quer de origem portuguesa, quer estrangeira.
A grande incapacidade da oligarquia portuguesa que esteve no poder nestes cinquenta anos, com excepção da curta fase revolucionária (1974-75), deveria ser patente aos olhos dos meus concidadãos. Porém, muitas pessoas deixam-se enganar por «polémicas» políticas ou por uma «fulanização da política», não vendo realmente o que estava em jogo. Outros, por contraste, percebem bem o jogo, mas estão interessados em tirar daí o melhor partido pessoal.
Eu nunca vi, na História geral ou contemporânea, uma burguesia de tipo «comprador» se erguer, exprimindo os interesses vitais de um povo. Pode haver momentos em que, por demagogia, os lobos vistam a pele dos cordeiros (.. para os devorar); ou que fazem poses de «leão», mas os seus donos sabem perfeitamente que eles são «gatinhos».
Gostava de acreditar numa mudança para um pragmatismo desenvolvimentista, como Pepe Escobar parece conceber, para os alinhamentos de Portugal. Porém, tenho como muito mais provável, por observação do «terreno» e dos actores mais significativos, que a classe do tipo «burguesia comprador» jamais irá dar um golpe de rins e fazer as escolhas necessárias para o país.
Não; o país só poderá renascer pela vontade dos «de baixo» (como dizem os zapatistas) e quando estes tiverem percebido como foram manipulados, para perpetuação do poder neo-feudal dos oligarcas .