https://www.youtube.com/watch?v=OsNb5_BpGIg&t=165s
COMENTÁRIO POR MANUEL BANET
A China é muito vasta. O território consiste numa orla costeira sobrepovoada e uma imensidão de zonas interiores, umas devotadas à agricultura, outras montanhosas e impróprias para a agricultura. Nestas zonas interiores menos favorecidas, uma parte da população tem migrado para as grandes cidades, para realizar as terefas humildes, que os citadinos agora desprezam: limpeza municipal, operários de construção, operários industriais em atividades penosas e pouco salubres, etc.
O «hinterland» da China é imenso e tem fornecido muita mão-de-obra para as regiões mais desenvolvidas. A média de fertilidade global na China tem algum significado, porém, o que conta também é saber se continua a haver uma elevada fecundidade em zonas pouco desenvolvidas ou essencialmente agrícolas. Se assim acontecer, então o problema demográfico será outro; já não a baixa fertilidade, em absoluto. Mas um baixo índice em zonas urbanas, causando um forte apelo para o emprego de baixo índice remuneratório mas, suficiente para estimular os jóvens a abandonar os seus distritos rurais nativos. Isto provoca um esvaziamento de adultos jovens nas zonas periféricas.
Quanto ao excesso de oferta de andares, também a questão deve ser vista de maneira diferenciada. Nos últimos 20 anos, foi necessário alojar milhões em novas aglomerações industriais. Por exemplo, Shenzen, onde se concentra uma parte da indústria de elecrónica e informática, era uma pequena cidade provincial que, num espaço de tempo curto - cerca de 30 anos - se transformou num grande centro. Logicamente, os operários que foram trabalhar para Shenzen e para outras cidades inteiramente novas, precisavam de alojamento.
É verdade que muitas famílias depositaram as suas poupanças em apartamentos, destinados a ser vendidos com lucro, ou a serem alugados. Na verdade, nem a bolsa, nem as contas bancárias são muito atraentes na China. As bolsas estão sujeitas a altos e baixos muito mais acentuados do que nas bolsas europeias. As contas bancárias são fracamente remuneradas (abaixo do valor real da inflação), tal como acontece nos países ocidentais. O excesso de construção deixou em perigo de falência as empresas gigantes, tais como a Evergrande, que vendiam as habitações quando elas somente estavam projetadas. O lucro que faziam, permitia expandirem-se por muitos outros setores. Tiveram um sério travão pelo governo de Xi Jing Pin, que traçou os princípios pelos quais era lícito construir: Não haverá casas à venda «no papel»; as casas têm como função serem habitadas, não devem servir como veículo de especulação; os créditos à habitação por parte dos bancos devem obedecer a regras claras e controláveis, as pessoas que foram ludibriadas devem ser indemnizadas pelos infractores...
Um aspecto do problema tem a ver com a gestão dos terrenos pelos governos provinciais, que puderam assim levantar somas importantes e desenvolver suas regiões, antes pouco desenvolvidas, graças à cedência de terrenos para o imobiliário.
Outra fragilidade da China é a que se prende com a autossuficência alimentar e energética. O vasto território da China daria para alimentar adequadamente toda a população. Porém, em consequência do êxodo rural, muitas zonas do interior não fornecem ao conjunto da China os géneros agrícolas que potencialmente poderiam produzir.
O desenvolvimento das energias ditas «renováveis», embora tenha feito progressos notáveis, não impede que continue a ser dependente do petróleo numa extensão considerável (como vemos na atualidade). Quanto à energia nuclear e os reactores a tório, parecem ser uma aposta forte do governo.
Um país tão vasto, que conseguiu fazer sair da pobreza absoluta 800 milhões, em menos de 30 anos, terá muitos problemas e contradições, inevitavelmente.
A política agressiva de sanções do Ocidente e dos EUA, em particular, com o objetivo de limitar ou reduzir as capacidades tecnológicas avançadas da China, saldou-se por um fracasso. Estimulou o desenvolvimento endógeno das tecnologias de ponta tornando a China ainda mais competitiva nesse domínio. Porém, terá havido situações de desemprego causado por fábricas que fecharam, sucursais ou concessionárias de grandes empresas ocidentais que decidiram retirar-se da China (algumas, pressionadas pelos governos de origem, com certeza).
No conjunto, o que pode acontecer de menos favorável às indústrias chinesas, terá a ver com a profunda crise que se desenvolve internacionalmente e em particular nos países ocidentais, que eram os principais clientes dos produtos chineses. É previsível que a descida da capacidade económica de muitas pessoas no ocidente, provoque um retraímento das compras de produtos chineses. Mas, apesar do ambiente internacional desfavorável, o certo é que agora o Ocidente e particularmente os países europeus, vêm que a China é indispensável como parceiro para trocas comerciais: Cortar ou restringir os laços comerciais com a China iria originar muito mais dano para as economias destes países, do que para a China.