segunda-feira, 31 de agosto de 2026

TROVADORES IBÉRICOS na COLECTÂNEA DE AFONSO X [Segundas-f. musicais nº73]

 


As cantigas em louvor de Sta Maria são um dos grandes monumentos da música trovadoresca ocidental. Para esta recolha contribuiram muitos autores, dos quais poucos deixaram um nome e muito menos elementos biográficos. Mas isto é algo que não deve cegar o amador de música do século XXI. Contrariamente à convenção bastante recente, datando do período romântico, a composição musical e poética não se destinava a valorizar o seu autor, mas - pelo contrário - o objeto do poema/cantiga. A dama formal, estilizada, é apenas uma forma de encobrir a verdadeira inspiradora dos poemas e canções trovadorescas? A Igreja estava presente em todos os domínios da vida social e pessoal, pelo que lendas como a de Tristão e Isolda, tinham pouquíssima hipótese de ocorrer na realidade. 

Por outro lado, esta época sucede à heresia do Catarismo, em que numerosos nobres, tiveram uma participação - aberta ou oculta - sendo esta heresia brutalmente reprimida pela Igreja de Roma. Foi nessa altura que foi instituída a 1ª Inquisição, com as torturas e  as fogueiras, «para salvar as almas dos penitentes». Sendo tão perigoso confessar a sua fidelidade àquela que era considerada pelos adeptos do Catarismo a verdadeira religião, os sobreviventes da 1ª Inquisição só podiam difundir sua ligação ao Catarismo metaforicamente*, escrevendo poesia e cantando: O resultado seriam cânticos codificados, com duplo sentido: Os cânticos seriam proclamações de fidelidade à Igreja Cátara, ou em louvor de Sta Maria, Mãe de Deus? 

Esta hipótese está de acordo com um florescer de hinos e cânticos em louvor da Virgem, desde aqueles inscritos do Códice de Afonso X, ditos «Cantigas de Santa Maria», até peças para-litúrgicas, que tiveram muita difusão na Ibéria, como «Ave Maris Stella», em que Sta Maria é assimilada à «estrela» do Dia. Estariam fazendo culto a Vénus, mas fingindo ver na «estrela» da Manhã o sinal redentor da fé cristã? 

De qualquer maneira, a lírica medieval foi abundantemente enriquecida pela contribuição dos trovadores em todas as regiões da península Hispânica (incluindo galaico-portugueses). Em paralelo, também aumentou a devoção a Sta Maria, tão intensa e favorecida pelas autoridades eclesiásticas. Esta devoção mariana acabou, mais tarde, por influenciar as doutrinas teológicas cristãs na Ibéria e no Ocidente, Católico e ligado a Roma, ao trono de S. Pedro. Note-se que muitos cátaros, fugindo às perseguições nos países de «Oc» (Occitânia, uma boa parte da França atual, a sul do rio Loire), se terão refugiado em terras de Espanha. Algumas zonas tinham laços com a Occitânia e simpatia pelo catarismo. Eram os casos dos reinos de  Aragão e Catalunha. É bem possível ter existido uma  difusão subterrânea de tradições do Catarismo nos Caminhos de Santiago, nas várias rotas da peregrinação a Santiago de Compostela, convergindo na Galiza.

Note-se a existência de documentos como os dos Goliardos, difundidos em várias regiões europeias e que atestam duma visão heterodoxa da religião, na mesma época medieval.

As anotações musicais são escassas em toda a produção trovadoresca. Muitos poemas de trovadores chegaram até  nós  sem notação musical. Mas sabemos que os versos eram cantados. Os poucos exemplos de anotação musical que se possui, são a matéria-prima a partir da qual têm de trabalhar musicólogos e artistas dedicados a fazer reviver a arte musical trovadoresca.


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* Leia abaixo uma análise sobre a poesia trovadoresca, sua ligação ao catarismo e seu caráter esotérico.

Par dessus tout, on peut reconnaître dans la poésie des troubadours presque tous les grands thèmes du Catharisme : hostilité au mariage et tolérance envers l’union libre, mais aussi idéal de chasteté qui reflète exactement l’idéal des Parfaits ; affirmation que le monde est foncièrement mauvais, si souvent répétée par le troubadour Peire Cardinal ; haine contre l’Église de Rome qui éclate chez le troubadour Guilhem Figueira. Quand on sait tout cela, on découvre que la clef de la poésie des troubadours est une clef cathare. La Dame, c’est l’Église Cathare ; l’Amant, c’est son adepte ; le Mari jaloux, c’est l’Église romaine ; les lauzengiers, ce sont les dénonciateurs.

In https://dangersetmerveilles.com/troubadours-et-esoterisme/


Abaixo, um disco de Hespérion XX  e de Jordi Savall com Cantigas de Santa Maria



 

Quais os factores no desencadear da próxima crise mundial?


 O economista Steve Keen mostra-nos como a próxima crise se vai desencadear. É do lado das matérias-primas, mais exatamente, daquelas matérias-primas que passavam pelo Estreito de Ormuz. NÃO APENAS O PETRÓLEO, como os lubrificantes, o hélio, o ácido sulfúrico... Todos eles, materiais essenciais para levar a cabo processos de fabrico nos países do Norte, como seja o cobre (ácido sulfúrico), os semicondutores  (hélio), os lubrificantes numa infinidade de máquinas e o petróleo e seus derivados, que continuam a ser a fonte de energia mais importante nos principais domínios da atividade humana. 
Ele atribui a Donald Trump(*) a responsabilidade por esta crise, visto que a estúpida guerra contra o Irão não está próxima de uma resolução e as acima citadas matérias-primas (incluindo o petróleo) vão ter as suas reservas esgotadas num intervalo entre um mês e três meses.
A explicação de Steve Keen estende-se às crises económicas ocorridas no século XX e XXI, mostrando que sua origem estava na dívida privada, nos excessivos empréstimos contraídos pelo capital privado e não público, como muitos «economistas» querem convencer-nos. 
A visualisar com atenção! 

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(*) Eu diria que, embora Donald Trump seja muito responsável, também é importante o papel de Bibi Netanyahu e todo o lobby pró-Israel, nos EUA.

sábado, 29 de agosto de 2026

INTELECTUALISMO E CAPITALISMO NA ERA DIGITAL


 O intelectualismo pode descrever-se como comportamento que previlegia o intelecto, a parte racional do cérebro, como sendo o factor principal da nossa vida, da nossa atividade social. As pessoas são classificadas segundo parâmetros, escalas, que pretendem medir o grau de «inteligência» como sinónimo de «bom» intelecto. 

Esta característica está tão difundida na sociedade, que a maior parte das pessoas nem se apercebe da sua existência. Mas, não se trata de algo natural, nem pouco mais ou menos. Trata-se de um fenómeno social e psicológico induzido, que atribui uma valoração aos indivíduos, em função de seus desempenhos teóricos, abstactos; confunde - aliás - a memória, a capacidade de reproduzir um determinado padrão, com a inteligência. Esta última, só faz sentido enquanto propriedade sistémica: por exemplo, a capacidade de adaptação a novas situações. Mas, em vez disto, a capacidade de regorgitar o que se decorou é - segundo certos «pedagogos» - sinal de inteligência quando, afinal, apenas se trata de capacidade de memorização. 

Insiste-se na vertente quantitativa - na quandidade de dados armazenados- ou na velocidade de processamento dos mesmos, como se estas propriedades definissem um intelecto «superiormente inteligente». Apesar dos computadores terem, hoje, um desempenho muito melhor que os humanos nestas funções, no armazenar e reproduzir informação. Recentemente, os algorítmos da IA (Inteligência Artificial) têm-se mostrado muito mais eficazes, em comparação com nossos cérebros, para relacionar dados e apresentá-los de modo coerente. 

- Mas,  será que a inteligência se reduz a isso? Reduz-se a ter um desempenho mais rápido, um maior volume de armazenagem, etc? 

As pessoas mais convencionais - são a maioria - creem que sim, mas se examinarmos a questão com um pouco de aprofundamento, vemos que se trata de uma falácia: Na realidade, a construção de máquinas complexas, a descoberta das leis da Natureza, a criação de obras literárias, musicais, ou doutras artes, com características únicas, mostram-nos que nossos cérebros e as sociedades humanas são obviamente os  inventores e inovadores destes produtos. 

Os Teoremas Incompletude de Gödel, implicam que, qualquer subsistema de  um Todo, não consegue descrever esse mesmo Todo, nem sequer consegue ter uma visão de conjunto dele.

A máquina inventada, o teorema, a criação literária, etc., são produtos humanos; não apenas do indivíduo a quem se atribui a autoria da criação, como de toda a Humanidade, com todo o contexto civilizacional, que lhe confere as bases materiais... 

O «pesadelo de ficção científica» de uns robots virem a alcançar um desenvolvimento tal, que ultrapassem as capacidades dos seus criadores e acabem por dominar a sociedade humana, pondo os humanos ao serviço duma «civilização de robots», é um guião muito banal nas obras de ficção científica. 

Porém, não tem a mínima verosimilhança. Desde já, porque a criatura (robot, algorítmo, etc.) não poderá estar acima do seu criador, segundo os teoremas de Gödel. 

Estas ficções podem ser consideradas meras visões pessimistas da sociedade futura. No entanto, é muito mais interessante do que isso, o que elas nos indicam, sobre a psicologia e sociologia das massas contemporâneas:

 Com efeito, a supressão sistemática dos impulsos criativos, a repressão das actividades artísticas não orientadas para a subsistência imediata, a criminalização ou a repressão de todas as ideias que entram em choque com as convenções, tem sido o modo concreto como o capitalismo tardio tem mantido os súbditos sob controlo

O medo difuso duma sociedade controladora de todos os impulsos, sentimentos e pensamentos, tem plena razão de existir. E não se trata de um medo irracional, mas do reflexo, não de uma «atávica» natureza humana, mas antes da vaga consciência de como, perante o rápido desenvolvimento material e  tecnológico, os humanos são confrontados e oprimidos pela oligarquia detentora das máquinas e recursos. 

O estado de coisas é apresentado como a invasão dos domínios de decisão por máquinas, super-computadores, robots, algorítmos de IA, como se eles tivessem «vontade». Na realidade, é evidente, trata-se dos donos das mesmas máquinas, que as programam de forma a que as pessoas sejam submetidas à sua vontade. 

Todas as obras de antecipação que apontam para um inevitável controlo da sociedade por máquinas, como o fatal desenvolvimento da sociedade tecnológica, estão a propiciar a aceitação da manutenção desta sociedade, onde um pequeno número, servindo-se de máquinas sofisticadas, detém o poder. 

Prof. Jiang Xueqin: REALIDADE POLÍTICA E SOCIAL NA CHINA


Um diálogo muito denso e rico sobre a realidade política e sociológica do poder, na China contemporânea.

Também é muito interessante o seguinte:

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

IIº Jogos de Robots Humanóides, em Pequim: Robot corre cem metros em menos de 9 sec.

 CORRIDA DE ROBOTS EM PEQUIM [*] parece ficção, mas não é. 



                                               


Os robots humanóides estão a atingir e ultrapassar as possibilidades humanas em termos físicos e acrobáticos. 

A capacidade de desempenho autómono dos humanóides  é avaliada nestes «Jogos Olímpicos de Robótica» em Pequim. Aqui, são postos em «feroz» competição os diversos robots .

Este tipo de concurso é um campo de testes em situações reais, que mostram o grau de avanço em tecnologia robótica das equipas concorrentes. 



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[*] https://www.reuters.com/world/asia-pacific/chinese-robot-tiangong-clocks-sub-9-second-100-

Reportagem sobre robots humanóides: https://www.youtube.com/watch?v=kZ2HZkEdRxM

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

The Animals, uma espécie «em extinção» [Segundas-f. musicais nº72]

 

O que aconteceu a estes Animals meus preferidos (nos anos 60) ?







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                                            1º canção da lista de 40 [ Animals anos 60 e 70]

Passados tantos anos, continuo a apreciar o seu estilo vocal e instrumental, perfeitamente adaptado às canções. Têm um certo número de canções originais, mas outras, são interpretações de composições de outros.  Estas, são de tão elevada qualidade na inteerpretação dos Animals, que muita gente está convencida (erroneamente) que eles são os autores, quando apenas são os intérpretes das músicas compostas por outros. 
Exemplos: «The House Of The Rising Sun», tema de folklore adaptado por Bob Dylan;  «Bring It On Home To Me» de Sam Cooke, um dos primeiros cantores/compositores «soul».