terça-feira, 14 de abril de 2026
O DECLÍNIO E QUEDA DO IMPÉRIO AMERICANO (PROF. JIANG)
quinta-feira, 12 de março de 2026
HÚBRIS [Crónica da IIIª Guerra Mundial nº57]
Como já tenho explicado noutros artigos deste bloco, a húbris era como na antiguidade os gregos designavam a embriaguês da vitória, fazendo com que o general vencedor se julgasse tudo permitido. Nestas circunstâncias, uma vitória momentânea, podia se transformar na mais profunda e definitiva derrota. Isso ocorreu repetidas vezes no passado; agora verificamos que está a acontecer isso mesmo com Trump e com os que o rodeiam, o seu «Estado-Maior». Muitas vezes verifica-se que os poderosos acabam por cair nas suas propagandas. Acabam por acreditar que a sua avaliação do adversário é correta. Porém, no caso da guerra presente, nada podia ser mais longe da verdade.
A guerra assimétrica que está a ser levada a cabo pelo Irão, agora também pelos seus aliados do Hezbollah, no Líbano, contra Israel e os EUA, conduz matematicamente a que os arsenais de mísseis interceptores dos inimigos do Irão sejam esgotados bem antes que o arsenal iraniano de drones e mísseis esteja perto de se esgotar. Os primeiros ataques iranianos, foram levados a cabo com uma maioria de mísseis desactualizados, logo com pouca probabilidade de atingir o alvo, havendo no meio destes, alguns mísseis de última geração, que tinham a capacidade de furar as defesas do inimigo e não eram praticamente interceptáveis. Esta combinação, saturando as defesas Israelo-Americanas e ao mesmo tempo atingindo alvos significativos, teve um efeito moral e económico, logo nos primeiros dias de combates. A resposta americana e israelita foi de bombardear o território do Irão, sobretudo zonas civis, causando portanto muitas baixas civis e danos materiais. Mas estes crimes de guerra, tal como o ataque com «decapitação» de muitos dirigentes, incluindo o Aiatolá Kamenei, não tiveram o efeito desejado. Uniram a população em torno dos seus governantes, das suas forças armadas; mesmo pessoas que, em Janeiro deste ano, tinham participado em manifestações contra o regime iraniano.
As bombas podem matar, destruir, mas está garantido que numa circunstância onde exista forte motivação de resistência ao invasor, os ataques aéreos não podem conseguir o objetivo de mudança de regime. Como se tem visto, aconteceu exatamente o oposto: Uma consolidação do regime, com uma grande massa da população agrupada em torno do seu governo. Perante esta situação, os estrategas de Israel e de Washington recuaram da invasão terrestre planeada. Nesta invasão terrestre, seriam usadas como «carne para canhão», as forças «proxi» de curdos do Iraque e os do Irão, que se tinham refugiado nos países vizinhos. Estas forças só poderiam ser de voluntários; não havendo nenhum entusiasmo da parte destes curdos em morrerem pelas causas israelita e americana, os estrategas dos dois países agressores tiveram de mudar seus planos. Agora, estão a fazer uma guerra de destruição maciça, com especial incidência sobre os bairros habitacionais de Teherão e doutras grandes cidades, destruíndo também refinarias (com importantes consequências ambientais) e fábricas de dessalinização da água. Estes criminosos de guerra querem vergar a população civil, tornando impossível a sua sobrevivência. Mas, os objetivos propriamente militares como os mísseis e drones armazenados, estão fora do alcance das bombas israelo-americanas. A partir de alguns esconderijos, os iranianos têm conseguido enviar uma média de 3 a 4 mísseis em 24h, para as bases militares americanas situadas nas monarquias do golfo Pérsico. Esta destruição é suficiente para as tropas dos EUA serem obrigadas a abandonar algumas bases. Por outro lado, a população destas monarquias é composta por estrangeiros, entre 60 a 90%, consoante os casos. Ela está a ir-se embora em rítmo acelerado, desertando todos os negócios e os locais de veraneio, sobre os quais se baseava a viabilidade económica destes centros. O Bahrein, o Dubai, a Arábia Saudita, o Quatar, o Koweit e Omã, cometeram um erro estratégico grave, ao acreditarem que os americanos iriam garantir a defesa destes reinos, em troca da sua cedência de terrenos para as bases militares dos EUA. Os americanos, como é seu costume, apenas estão preocupados em defender as suas posições militares; quanto muito, os civis dos EUA apanhados na tormenta. Os referidos reinos do Golfo estão agora a tomar consciência o seu erro e a sofrer as consequências amargas. Mas estão, de qualquer maneira, em vias de mudar de alinhamento, pois sabem que o Irão não se vai deixar vencer e que eles serão um alvo, para mísseis e drones. Tanto mais que, logo no primeiro dia da guerra, o Irão neutralizou os sistemas de radares nos vários reinos do Golfo, que constituíam os meios de vigilância e de monitorização para os ataques americanos contra o solo iraniano.
A distância de Israel em relação ao Irão não impediu que - mais uma vez - as defesas israelitas se mostrassem impotentes para defender Tel-Aviv e Haifa. Do mesmo modo, não conseguiram impedir que fossem atingidas bases no deserto do Negev. O governo de Israel está a censurar todas as informações relacionadas com os ataques iranianos e com a destruição causada, ameaçando de prisão quem filme ou publique imagens relativas a tais destruições. Também as ofensivas militares dirigidas contra o Líbano estão a falhar: Elas não impedem que o Hezbollah lance ataques com mísseis no Norte de Israel e em zonas do Líbano ocupadas por tropas israelitas.
No estado atual e dada a situação no terreno, as destruições causadas pelos bombardeamentos americanos e israelitas não causaram desespero na população e dirigentes do Irão. Pelo contrário. Porém, a situação de guerra já causa, no Ocidente, um prejuízo enorme: Não apenas a dificuldade de abastecimento devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz, impedindo o tráfego de 20% do petróleo consumido ao nível mundial, como o alastramento do pânico nas bolsas mundiais, a ruptura das cadeias de abastecimento, a brusca aceleração da inflação.
Ao nível da opinião pública mundial, esta guerra iniciada quando os iranianos estavam à mesa de negociações com uma delegação dos EUA no Omã, recebe o repúdio não apenas dos povos do Sul Global, como a hostilidade nos países ocidentais: Inquéritos mostram que - nos EUA - uma maioria absoluta condena o desencadear desta guerra. É variável, mas sempre muito elevado, o nível de desaprovação dos restantes países ocidentais. A Coreia do Sul e o Japão estão numa posição particularmente difícil; seus abastecimentos em petróleo provinham muito maioritariamente do Golfo. Se continuar a situação de guerra, inviabilizando a navegação dos petroleiros através do Estreito de Ormuz, eles terão uma situação de catástrofe ainda mais grave.
Não se pode excluir, infelizmente, que os israelitas façam uso de armamento nuclear, para se «vingarem» da derrota humilhante sofrida. Se assim for, haverá guerra nuclear generalizada, com certeza. Mas os sionistas no poder concebem como possível destruir Israel em simultâneo com toda a humanidade: Eles têm publicado em documentos oficiais, que se o Grande Israel não se puder realizar, então é-lhes indiferente que o Mundo inteiro também desapareça.
quinta-feira, 5 de março de 2026
A GLOBALIZAÇÃO NÃO MORREU; ELA APENAS MUDOU DE ROUPAGENS
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
PELA CABEÇA APODRECE O PEIXE
O ditado* aplica-se aos que estiveram no poder, com a confiança triunfante, os que julgam que o seu estado é eterno. Eles tornam-se tão despreocupados, que não se importam que certos indícios venham a público; julgam que podem sempre, de uma maneira ou de outra, desviar a justiça ou vingança.
AS REVOLUÇÕES, SÃO ELES (CLASSES DOMINANTES) QUE AS DESENCADEIAM: São eles que, pela sua soberba, criam inimizades, até entre os que eram do seu campo. De repente, o script é completamente diferente do que estava previsto. Surge uma revelação, um escândalo, uma imbecilidade, que são aproveitadas pelos inimigos. Nunca mais se vêem livres destes pecados e pecadilhos. Ás vezes, uns «pecadilhos» são a causa próxima de algum desses poderosos cair do seu pedestal.
O que é certo é que os «de baixo» não podem continuar a assistir ao carnaval, grotesco e obsceno, sem reagir. Têm, de facto, reagido e bastante; porém, a media corporativa, passa sob silêncio as mobilizações contra o capital, nas suas mais diversas manifestações.
Não devemos ser ingénuos e acreditar que o desmoronar do capitalismo financeirizado, se resume a perdas para os que estavam mais envolvidos na economia «de casino». É essa a ideia que nos querem vender. Mas, as pessoas comuns sentem os efeitos dos desmandos da classe no poder: a inflação, a degradação do Estado Social (Welfare State), a violência contra toda e qualquer dissidência, ao ponto de criminalizar os direitos básicos das «democracias» (direito à manifestação, direito de opinião, direito de organização, etc).
A casta no poder e seus lacaios, pensam que o povo não tem memória, que cai sempre nas mesmas armadilhas. Mas, afinal, não são as pessoas do povo que têm má memória: São os poderosos, pois eles se viram sempre para as mesmas políticas de austeridade, impostas com violência.
Estou à espera, para ver como esta avalanche de revelações e volte-faces se vai repercutir no plano político. O volume da enxurrada de revelações é muito notório nos países do Ocidente, que tiveram um papel proeminente na condução das políticas mundiais: Os EUA, a Alemanha, a França, o Reino Unido, conduziram os seus povos, e os de outras nações, para o abismo.
Pergunto a mim próprio, como é possível tanta estupidez, misturada com tanta arrogância. Que as coisas estivessem complicadas para os detentores do poder, não há dúvida. Mas, o seu desempenho piorou as situações, da diplomacia, à economia, da (falta de) coesão interna, às sanções, que fizeram boomerang...
Parece que a fase do desmoronar do poderio ocidental se está aproximando, não ficando senão um grupo de potências, que já foram grandes, que terão de se conformar a serem apenas nações como as outras. Têm de perder primeiro as suas fixações das épocas coloniais e neocoloniais, o que não será difícil para a população em geral, ao contrário da pequena «elite» da classe dominante.
Eu desejo e anseio pela derrocada deste domínio do Ocidente, que não soube comportar-se, nem aprendeu as lições do passado e do presente.
É preciso varrer o velho, para que o novo tenha espaço para se desenvolver.
COMPLEMENTOS:
Europe's Normalisation of Civil Death with Dr. Alexandra Hofer
sábado, 24 de janeiro de 2026
UM ÍNDICE MAIS SIGNIFICATIVO QUE TODOS OS ÍNDICES BOLSISTAS
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
O EFÉMERO do PODERIO IMPERIAL; EXEMPLO PORTUGUÊS
No ensino português, é dada com grande pormenor, mas com muito pouco senso crítico, a «gesta dos portugueses», nos séculos XV-XVI, na conquista de terras do ultramar.
Mas, na verdade, se esta história tem alguma coisa de edificante, não será o «heroísmo» de soldados e marinheiros e ainda menos dos chefes que os comandavam.
Muita coisa seria necessária dizer, para se ter uma ideia do que foi a tal «conquista» de terras em vastas zonas geográficas, que se estenderam rapidamente por três continentes, além do continente europeu.
Deveria ser motivo de reflexão, não pelos tais actos de heroísmo, reais ou forjados, mas antes, uma lição de sabedoria, a observação do destino do império colonial português.
Com efeito, o colonialismo marítimo, pelo controlo das rotas e portos estratégicos na Índia, Ásia do Sul e Extremo-Oriente, foi seguido por um colonialismo territorial (África e Brasil, sobretudo). Este, teve como corolário a reação, quer dos povos colonizados, quer de potências em rápida ascensão (Inglaterra, Holanda...).
Assim, o Império Português, que iniciou suas conquistas no século XV e se consolidou no século XVI, logo sucumbiu em 1580, perante as forças militares invasoras de Espanha e da subsequente perda da independência de Portugal. Durante 60 anos, os Filipes de Espanha foram os soberanos do reino de Portugal, sem que houvesse, no entanto, unificação dos dois reinos ibéricos.
Foi o golpe de Estado de 1° de Dezembro de 1640 em Portugal e subsequentes anos de guerras (mais de meio século), que restauraram e consolidaram a independência de Portugal. Mas, com perda de possessões coloniais, sobretudo, asiáticas. Havia de novo um reino independente, com territórios em vastas áreas da América e de África, mas sem capacidade de os desenvolver e explorar. Não somente no período de domínio da coroa Espanhola como mesmo antes, já muitas potências europeias cobiçavam e não perdiam a oportunidade de conquistar praças-fortes portuguesas e respectivos territórios adjacentes, em três continentes: Na América do Sul, na África e na Ásia.
A Inglaterra dominava no final do século XVI, as vias marítimas. Apesar dela ter sido aliada de Portugal nos dois séculos anteriores, agora estava em guerra com os portugueses: Estes pertenciam - desde a perda da independência - ao império dos Habsburgos, no qual Portugal tinha sido incorporado, tendo de fornecer, entre outras coisas, navios de guerra para a "Invencível Armada". Esta - como é sabido - sofreu uma derrota tremenda no Canal da Mancha, ao largo das costas Inglesas, em 1588.
As potências europeias faziam guerra entre si, na Europa e também se guerreavam nos domínios coloniais respectivos. Por exemplo, os Holandeses tomaram aos portugueses pedaços substanciais de territórios no Brasil e na Ásia do Suleste, pontos nevrálgicos para o império marítimo português.
Os piratas e corsários interceptavam navios nas rotas comerciais, atacando navios mercantes carregados de bens valiosos, desde ouro e prata, até às especiarias. Os sobreviventes destes ataques eram vendidos como escravos, no Norte de África, principalmente. Este era, geralmente, um comércio muito lucrativo. Os piratas libertavam os cativos, mediante o pagamento de avultado resgate. Mesmo países com poderosas armadas e soldados embarcados, para proteger os navios de comércio, sofriam grandes perdas.
O comércio trans-oceânico, por mais lucrativo que parecesse, à primeira vista, não o era, por causa de numerosos fatores de risco: Além da pirataria, havia quantidade de naufrágios. Os países europeus gastavam somas colossais para manter o seu império: Tinham de construir e manter a frota de guerra, construir fortalezas e as guarnecer com forças militares, em pontos estratégicos costeiros. Tinham frequentes perdas de mercadorias.
Sobretudo, tinham grandes perdas humanas, na altura em que a população era um décimo da de hoje: Portugal continental hoje, tem cerca de 10 milhões de habitantes; nos finais do século XV e durante todo o século XVI, teria cerca de 1 milhão, apenas.
Por todos estes motivos, a colonização, não apenas portuguesa, como de todos os poderes marítimos, nos séculos XV, XVI e XVII, não foi a operação lucrativa tão grande que se imagina. Embora as metrópoles beneficiassem do afluxo do ouro, da prata, ou de produtos de luxo (pedras preciosas, sedas e tecidos caros, marfim, especiarias), as suas despesas cresceram exponencialmente. Em Espanha e Portugal, por outro lado, deu-se o abandono dos campos e a consequente falta de braços para trabalhar a terra, originando a incapacidade duma auto-suficiência agrícola, além de inflação severa e persistente. Terão sido estes, os principais factores que levaram à decadência as estruturas económicas e sociais dos reinos ibéricos.
Pelo contrário, os países do Norte da Europa viveram a sua época de ouro, ao receberem e transformarem o que vinha dos reinos de Portugal e Espanha. O nascimento e desenvolvimento das indústrias do Norte da Europa, aconteceu em paralelo com a contração das economias portuguesa e espanhola.
O resultado foi que os países ibéricos gastavam o maná proveniente das suas possessões do ultramar para pagar a importação de muitos produtos, incluindo alimentares. Foram ficando cada vez mais endividados, porque tinham deixado de produzir o essencial. Nem tinham já o dinamismo económico necessário para tirar partido das matérias-primas que lhes chegavam das suas colonias. Tinham de fazer despesas avultadas para manter sua frota militar e seu exército, para o controlo de terras distantes. O declínio demográfico acentuou-se numa espiral descendente.
A importação maciça de escravos africanos para trabalhar nas fazendas das Américas (os dois sub-continentes americanos e as Caraíbas), foi uma consequência do genocídio dos ameríndios, como um contemporâneo destes horrores, Frei Bartolomeu de las Casas, descreveu. Assim, o tráfico de africanos - durante séculos - enriqueceu os donos dos navios negreiros que faziam a travessia do Atlântico e os fazendeiros do Novo Mundo, que exploravam o trabalho escravo, quase gratuito e abundante. A famosa «acumulação primitiva», do capitalismo nascente foi - sobretudo - uma acumulação de riqueza obtida pelo trabalho escravo. O sistema da escravatura só começou a ser desmantelado nas Américas, na segunda metade do século XIX. Depois disso, ela ainda continuou em muitas colónias de África.
Sem dúvida, a história dos impérios coloniais não é algo de que os povos colonizadores se possam orgulhar. Porém, a forma como estes impérios se desmoronaram é (ou devia ser) motivo de aprofundado estudo, político e económico.
Eu não sou competente para fazer a História dos imperialismos. Porém, devo salientar o facto dos cidadãos meus contemporâneos estarem, de novo, a ser alimentados com narrativas falsas, que branqueiam as eras coloniais passadas. Serve tal branqueamento para sustentar ideologias reaccionárias e racistas. A ignorância que está na sua origem, vem ao de cima, quando se manifesta o desprezo pelos povos das ex-colónias.
Nota-se hoje, que estas ideologias são de novo propagadas por sectores de extrema-direita, em países europeus. Assim, os povos são mantidos no medo «do outro» e condicionados para uma nova guerra mundial.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2025
APOSTILAS / POESIA
Uma apostila é um pequeno texto acrescentado a uma obra. Decidi chamar assim os textos que submeto ao vosso olhar, pois eles se enquadram dentro do espírito de várias produções minhas anteriores sem, no entanto, possuírem unidade autónoma.
São textos em prosa ou em verso, que me apeteceu escrever em vários momentos. São também comentários para mim próprio. Cada um deles sinaliza meu estado de espírito ao longo do ano de 2025.
Esta pequena recolha deve, portanto, ficar como «Apostila» das anteriores OPUS I, II e III que agrupam a minha produção poética no Blog «Manuel Banet, Ele Próprio» de 2016, até final de 2024. Outras recolhas de poesia inéditas anteriores ao ano de 2016 ficam por divulgar, à espera que algum editor se interesse por elas.
PERANTE OS TEMPOS DE ESTUPIDEZ
Em vez de prefácio
Desesperadamente procuro o sentido; não procuro por pensar que o irei encontrar, mas por impulso irracional, no que existe de humano, no âmago do meu ser.
Não sei se isto é defeito ou virtude, sinceramente. Mas, de facto, talvez seja defeito, pois sofro e nada ganho, nem meu sofrimento a outros aproveita.
Gostava de ser como a árvore ou como o rio que se estende sem perguntar para onde corre, sem se importar com as pedras nas margens.
Mas não sou árvore, nem rio, nem pedra. Gostava de ser animal e sentir. E meu saber ser instinto, e minha vida ser instantes sucessivos.
Mas também não sou o animal, simples produto da Natureza, nela imerso e dela participante. Sou homem, por isso sofro, pois vejo a degradação da espécie e o sofrimento de muitos, sob a opressão sádica e violenta de alguns.
Mas como posso fazer face a esta monstruosidade? - Deus não tem plano nenhum para a nossa espécie, nem para todas as outras. Esta é a conclusão a que cheguei, por agora.
Confortável ou não, esta conclusão parece-me o princípio de racionalidade neste tempo de violência, de desprezo pelas leis dos homens e da Natureza, do triunfo da morte, a par da estupidez e da vaidade...
FORTUNA
Poderia pôr a teus pés, Deusa gloriosa,
Cestas de fruta e flores odoríferas
Das mais exóticas espécies
Que seja possível alcançar.
E poderia declamar a teu ouvido
Versos em rimas obscuras, ofegantes
Sem outra lógica que a do sonhar
Mas tudo em vão seria, Fortuna
Tens ouvidos e cabeça de bronze
Teu gesto amplo ficou para sempre
Parado, na suspensa promessa...
Para lá da Tua casa, velejo em mar
Denso e fluido, no ocaso demente
Enfunando as velas em tributo
À sombra que traça o Sol.
Fortuna seja nome de barco
Destino humano sempre igual.
O MUNDO
O mundo está fora de mim, no sentido trivial
Mas também se pode dizer que ele penetra
Em todos os poros da minha pele,
Pelo ar que respiro, pela comida que ingiro
Pela água e pelo vinho,
Pelas letras, os sons e os cheiros
Ele penetra por todos os canais
Dos sentidos.
Eu não recuso este fluxo constante
De sensações.
Porém, ficar cativo,
É outra coisa; estar cativo das coisas materiais
Ou até das ideias, das que se originam
Nas agitações fúteis, sempre procurando
O novo; como se, perante a novidade,
Devêssemos baixar a cabeça, curvar a espinha!
Se quiseres argumentar que eu «estou fora do mundo»
Tens razão, num certo sentido:
No sentido antigo e caído em desuso
da palavra «mundo»...
Como «mundano» ou «mundanidade»...
Se não sou deste mundo, estou contente
Estou mais aconchegado no mundo
Da infância, das recordações
Dos momentos felizes, da pesquisa
Científica e intelectual,
Do prazer de conversar com iguais...
Sim, não é com naturalidade, nem com desembaraço
Que «falo» através de telefones móveis, ou de teclados
Digitando palavras, como agora...
Sou realmente antiquado e não tenho complexos!
Sou capaz de compreender os mais jovens,
Mas duvido que a recíproca seja verdadeira.
Estou fora do mundo e ele está fora de mim.
Sim, do mundo fútil, coisificado e destruidor
Do que há de mais humano na humanidade,
Estou fora!
Por muito que vos custe, pensai de outro modo;
Já será um princípio de emancipação.
Não pretendo que pensem como eu;
Mas pensem!
Com alma, espírito e todo o ser,
Libertos da prisão doirada da tecnologia
Que ambiciona encerrar nossas mentes.
Às Palavras Renunciei
Gostava de construir novas palavras,
Delas fazer um vocabulário
Só meu, para meus leitores
Que pudesse partilhar
Como num dicionário
Mas sem o estafado sentido
Só me acodem palavras gastas
Daquelas que são ecoadas
Em inúmeras canções
De amor ou desesperança
Lançadas ao desbarato
Enfim, palavras chãs
Se ao menos pudesse
Com elas construir
Algo novo, inaudito
Seria o triunfo do som
Sobre a gramática fria
A síntese genial
Então, como bandeira
Envolveria teu corpo
De cores, sons e sentidos
Na imperfeita obra
Que o poema desvela
E toda a nudez revela
Pois renunciei ser
O mago dos versos
A Lua não me aquece
Prefiro o forte abraço
Do vento oceânico
No meu corpo tenso
Colhi todos os perfumes,
Cores e sabores da vida
Como jardim de mistérios
Serei mais qu' uma ave
Improvisando seu canto
Em harmonia perfeita?
Somos frutos tardios
De jardins tranquilos
Nem mais, nem menos
Nenhuma pretensão
Tivemos de profetizar
A luz que se esvai
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Murtal, 05 de Junho 2025
GUERRAS SEM FIM
Gostava de voar para um país distante,
Muito mais distante, que a tecnologia atual
Nos pode transportar. Aí, pisaria o solo
e abraçaria as gentes; mas não teria ilusões:
Este país seria como os outros, apenas
Poupado aos horrores deste século moderno.
Não será algo assim que muitos de nós procuramos
Atingir? - O paraíso terreal ou refúgio
Contra a fealdade, a cobardia e crueldade
Dos nossos contemporâneos?
Estamos à procura do que não existe,
De uma utopia no sentido estricto
Não estamos porém errados, na essência:
É o nosso coração humano que nos diz
Outros procuram aconchego dentro da tribo
Dentro da família, do grupo a que pertencem
Não os critico pelo desejo de auto-preservação
Embora seja irrisório, neste Mundo em guerra
A guerra não poupa as simples gentes
Fustiga todos, todos nós somos sem-abrigo
Só os sanguinários poderosos têm meios;
Eles sabem-no e usam-se disso!
O Barco Encalhado
Navegando ao longo de costa rochosa, avistei um dia os escombros dum barco encalhado.
Perguntei ao piloto do meu navio se tivera notícia dalgum naufrágio, nos tempos mais recentes.
Ao que ele me respondeu: "Não, Senhor. Este deve ter encalhado há bastante tempo."
O casco de madeira apodrecida, negra, era colonizado por lapas e mexilhões; carangejos pequenos corriam à superfície.
A carcaça em decomposição ainda exibia, no centro, um fragmento de mastro; como um braço erguido para o céu .
A vida borbulhava nos seus destroços, como num cadáver de cetáceo morto que dera à costa.
Este, lentamente, é descarnado pelas brigadas de criaturas oceânicas até nada mais restar senão o esqueleto.
A visão daquele esquife imóvel no meio de rochedos bravios, lentamente devorado pelo exército voraz dos mares...
Fez-me pensar...
A cena apareceu-me como perfeita analogia das construções intelectuais que navegam na sociedade, como navios nos oceanos.
As construções defeituosas não vogam até muito longe. As correntes arrastam-nas, metem água e acabam por naufragar!
Depois, seus destroços presos nos rochedos, sob as furiosas vagas, ficam desconjuntados, irreconhecíveis.
Por fim, o que resta do navio, desfaz-se; só alguns pedaços a boiar, ou nem isso. O que sobra, vai para as profundezas.
Ninguém advinha que ali se ergueu um orgulhoso navio. Da praia ao horizonte, o mar permanece tão vazio como no começo do Mundo.
«A GRANDE ILUSÃO» - PARTE II
Há cerca de 12 anos, escrevi um extenso ensaio intitulado «A Grande Ilusão». Este, está inserido neste blog, embora o seu aparecimento seja anterior à existência do blog.
Mas, o que me importa mais agora é escrever uma espécie de apêndice ou postfácio, enfatizando aspectos da Grande Ilusão que não eram visíveis, na altura, pelo menos de forma representativa. Quero referir-me à persistente ilusão dos homens dominarem a Natureza, de serem eles a ditarem as regras, a imporem as leis e julgarem que estão no cerne do funcionamento dessa mesma Natureza.
E digo que isto cabe perfeitamente sob o mesmo título, pois é uma tendência generalizada e os mais inteligentes caem na armadilha com maior facilidade ainda, que os estúpidos e os ignorantes.
Por isso mesmo, se verifica um tipo especial de estupidez, «a estupidez dos inteligentes», em que a sofisticação do raciocínio, a riqueza da argumentação, a erudição medida pelas numerosas referências, tudo isso junto, produz um resultado prático irrisório, ou manifestamente inoperante: Traduz-se numa incapacidade patológica de apreensão do real.
Porém, é essa mesma estupidez dos inteligentes, que tem maiores hipóteses de fazer carreira, de ter sucesso, numa sociedade plena de ilusões, incapaz de distinguir a realidade, da projecção da mente, sem qualquer outro critério de «verdade», que não seja essa filosófica nulidade chamada estatística.
A verdade não é nem pode ser uma questão estatística. Se todos errarem menos um, é este que tem razão, não importa quantos disserem que é esse indivíduo que está enganado. Em filosofia, o número não faz a prova e, sobretudo, não faz a razão. Verdades tão evidentes como esta, temos com frequência de voltar a enunciá-las, a reafirmá-las no nosso espírito, para mantermos a calma e a força da razão no meio do desvario.
A ilusão mais perniciosa - ao fim e ao cabo - talvez seja a de quem se «colocar no lugar de Deus». Este facto mantém-se válido quer acredites em Deus, quer não: É completamente independente da nossa posição em relação à existência da Divindade Cósmica, pois postula a impossibilidade ab initio da posição peculiar dos indivíduos que pensam tudo saber, capazes de tudo equacionar, de terem solução para tudo e - se lhes for fornecido o que exigem - serem capazes de tudo fazer. Estamos aqui perante um delírio agudo ou crónico de inflação do ego, uma extrema confusão entre o limitado e falível, efémero e fraco, ser humano e aquilo que ele consegue se aperceber do Universo, na sua limitadíssima visão do mesmo.
Mas, são esses indivíduos, inflados no seu narcisismo, que têm a maior probabilidade de arrastar as massas, as quais estão sempre em adoração do que elas consideram ser um «génio». As massas idólatras de super-homens e super-mulheres de pacotilha, são capazes de fazer as maiores loucuras, acreditar nos maiores absurdos, sendo estas crenças tanto mais fanaticamente defendidas, quanto mais absurdas forem.
Num mundo assim, é muito difícil ser-se racional, um pouco céptico e comedido. Num mundo assim, o sábio é frequentemente assimilado ao louco, ou ainda pior, ao dissidente. O seu destino não é invejável, pois vai do «gulag» para uns, até à fogueira, para outros. E porquê tanto ódio contra pessoas que pensam diferentemente da maioria? - Será que a grande maioria pensa, ou apenas repete slogans, lugares-comuns erigidos em grandes visões e todas as parafrenálias das ideologias? Se a maioria fosse composta por pessoas que pensam, elas não teriam problemas com os que têm um pensamento outro, dissidente. As suas capacidades cognitivas até ficariam estimuladas perante um pensamento dissidente e nunca lhes passaria pela cabeça «contrariar» uma teoria com uma sentença de morte ou de prisão, ou um linchamento.
Os ditadores e demagogos de todas as espécies e variedades, sabem perfeitamente que uma maioria da espécie humana não pensa. Sabem que não é difícil enfiar-lhes na cabeça uma série de automatismos mentais, como aliás a «educação» se esmera a fazer, em todas as nações, de todos os continentes.
Com as técnicas de condicionamento da psique, podem ver a massa das gentes, (no sentido próprio, por vezes...) executar os que se atrevem a não acatar, os que não se submetem à «verdade» da multidão furiosa.
Estes comportamentos surgem, não espontaneamente, mas por condicionamento, aberto ou disfarçado, em muitas sociedades. Muitos fanatismos são completamente «reversíveis», no sentido em que se pode mudar-lhe etiquetas, sinais, protagonistas, mas continuam a ser reflexos pavlovianos. Trata-se, porém, de um ser humano na aparência, mas que o medo, o desejo de pertença, a imaturidade, fez submeter-se ao que lhe aponta um chefe.
O engodo da «IA», tem servido para fazer passar as mais extremadas posições e manipulação dos factos e isto, ao bel prazer dos multimilionários que possuem as empresas de «IA». Nada deste extremismo induzido surge ao olhar do público como insano, como totalmente repelente, etc. porque foi emitido (supostamente) por um algorítmo «IA» o qual teria a virtude de «pensar mais e melhor» que a mente humana.
Junta-se a ignorância do que sejam estas máquinas informáticas e os algorítmos, com o complexo de inferioridade frente àquilo que não se compreende, que se julga demasiado complexo.
O resultado é uma regressão, não apenas à infância, como ao «estado larvar»: Os indivíduos estão dentro de casulos, são alimentados e mantidos, consumindo o que os mantém em vida, mas uma vida do tipo zombie...
Assim, a redução do número de efetivos nas diversas populações pode prosseguir (com vários métodos), até ao limite que os Senhores desejarem. O limite para a redução dos efetivos, é que deverá haver um número suficiente de escravos para manutenção do mundo de conforto dos Senhores.
Quanto aos escravos, em breve, nem terão a capacidade de reprodução. Esta deixará de estar dependente de um «ato animal»; será um complexo de operações de tecnologia biológica. Logicamente, as pessoas «vulgares» (a plebe, os escravos), serão produzidas em série, por clonagem. Assim, por uma técnica muito simples, produzem-se «seres sem defeitos». Estes terão sua recompensa num pouco de comida, um mísero abrigo e serão «processados» e substituídos quando sua produtividade baixar.
Se olharmos retrospectivamente, compreendemos que muitos fenómenos sociais, muitas situações «aberrantes» até, já se podiam delinear, pois despontavam nas sociedades onde ocorreram, mas as pessoas contemporâneas desses fenómenos não deram por nada, aparentemente. Embora, de facto, haja sempre algumas pessoas que não se deixam iludir e tentam dar o alerta, este nunca é tomado a sério ou pior, é considerado subversivo, vindo dos inimigos da sociedade.
É falso pensarmos que não existe mais religião, baseados na premissa errada de que as pessoas abandonaram os respectivos templos. Há uma religião e está mais viva do que nunca, embora as pessoas não consigam identificá-la como tal. Por um lado, é transversal às diversas religiões, tradicionalmente prevalecentes. Por outro, ela flui pelos interstícios da sociedade, confundindo-se com as atividades mais triviais e indispensáveis no dia-a-dia. Não é religião que erga templos explícitos para culto dos fiéis. No entanto, o seu culto é muito divulgado e tem um número de fiéis certamente maioritário, em relação a todas as outras. Falo da religião do dinheiro.
No passado, ela existia também, diga-se: mas era temperada por outras coisas, como seja uma moral (religiosa, ou com raízes religiosas), que prescrevia o que se devia fazer ou não fazer, além de toda uma moldura de valores, de virtudes, às quais os devotos deveriam se conformar. Ou, pelo menos, na aparência.
Agora, o fator mais importante de ascenção social é o dinheiro. Não importa como foi obtido, nem como é gasto... É a sua acumulação que provoca «respeito religioso», da parte da multidão. Assim, ser rico - muito rico, na verdade - tornou-se virtude. Claro que as pessoas sempre admiraram e cobiçaram os ricos, no passado. Porém, a passagem do dinheiro a culto religioso, fez dos detentores do capital, simultâneamente, sacerdotes, magos, semi-deuses...
Bem podemos dizer e demonstrar que por este andar, a Terra fica esgotada, que os equilíbrios estão rompidos, que a diversidade biológica se vai reduzindo perigosamente, que ecossistemas estão a entrar em ruptura, que o esgotamento dos recursos ou sua contaminação vão tornar muito difícil a vida das gerações vindouras. Não, as pessoas estão viradas exclusivamente para «ganharem mais», para consumir agora, aquilo que antes estava acima de suas posses, e só conseguem equacionar a felicidade ou o sucesso dentro de sua comunidade, com seu enriquecimento.
Não procurei ser futurólogo no texto inicial de «A Grande Ilusão». Aqui, nesta segunda parte, atrevi-me a descrever tendências, que já se podem ver despontar no presente e têm já uma repercussão, mas que não se tornaram ainda, lugares-comuns.
MAIS UM DEVANEIO
Como vivem as pessoas
São iguais a ti e a mim
Mas elas parecem movidas
Por estranhos impulsos
Movia-me num sonho
Daqueles em que a pessoa
Vive como na realidade
Onde tudo acontece
Eu falava com as pessoas
E elas respondiam-me
Naturalmente, sem mistério
O sonho, denso, parecia real
Tudo se movia no quotidiano
Nem estranho, nem encantado,
Somente a banalíssima
Vida que todos nós tecemos
Porém, algo, não sei bem o quê,
Apoderou-se do meu espírito,
Quis rasgar o véu ilusório
Daquela realidade fictícia
Ao abrir uma porta, recebi
O fôlego poderoso do espaço
E do tempo, das cores e dos sons
Dos movimentos das ondas
... Das falas entrecruzadas
Num mercado ao ar livre
Do brouhaha indistinto num café,
Do caminhar da sombra...
Senti então um imenso desgosto
Como se tivesse abandonado
O verdadeiro mundo
Como se ele não fosse sonhado
Durante algum tempo senti
Nostalgia dos meus devaneios
Mas, por fim fiquei em paz
Com o mundo e o meu ser:
Tudo o que existe é sonho
Sonhado. Podemos dele sair
Para logo entrar noutro.
A realidade é um efeito
Ela tem o poder da ilusão
Tudo o que se vê acordado
É uma representação
Nada mais, um teatro
Se nos conformamos
Com o nosso papel,
Seremos bons atores
Na peça chamada Universo
UM HOMEM
Nem alto, nem baixo
Nem Adonis, nem Herói
Mediano em tudo, vulgar
Esse homem que desprezais
Foi quem arriscou a vida
Para salvar muitas outras
Num ato sem dramatismo
Fez o que era preciso
Não se vangloriou,
Nem tentou aproveitar-se.
- Quantos, homens e mulheres
Cumpriram seu destino
Sabendo o que os esperava?
SE EU PUDESSE VOAR
O REMANESCENTE SÃO PALAVRAS
Deixa a ridícula miragem
De sermos perpétuos, eternos
Não desprezes um suspiro
Um olhar, ou gesto inacabado
Sermos aquilo que somos
Parece o mais difícil, afinal:
Neste mundo, enganados somos
Pelos espelhos da nossa vaidade
Afinal, a felicidade está no instante,
No efémero, no real ao nosso alcance;
Nesta curvatura do espaço-tempo
Onde cegos e surdos caminhamos
Mas ouvir os sons naturais,
Apreciar uma paisagem intacta
Sem «monumentos» que plantaram
Os humanos na sua ébria vaidade
Colher tais impressões não cansa:
Levo-as para casa, nelas renovo
A misteriosa e potente força
Que a Vida nos oferece
Fecho os olhos e vejo a realidade
Transmutada em sonho único
Que nenhum artifício captaria
Porque o sonho é meu guia
UM ROMANCE INÉDITO
Espectros distantes assomam às janelas da mente..
Não com intenção de vindicta, mas de guias silenciosos. Será uma criação, fantasia da minha mente perturbada?
Serão outra realidade, que nós conseguimos apenas de quando em quando, aflorar?
Por vezes sinto-me tão possuido de memórias do tempo em que tais espectros tinham "carne e osso", fossem eles parentes, mestres, amigos ...
Convivendo com estas memórias espectrais não tenho nada a recear, não caio num desequilibrio ou num alheamento da realidade.
Antes pelo contrário, a minha vida pessoal e social , aparecem ambas com uma espessura, que permite avaliar os bons e maus momentos que agora atravesso.
Seria abusivo pretender que todo o meu saber-viver, de experiência acumulada e transmutada, o devo à frequentação daqueles meus espectros habituais.
Mas, o que é certo, é que me proporcionam um diálogo interior. Pouco importa que o interlocutor seja imaginário. De facto, este diálogo interior é o ancoradouro para eu não resvalar num estado patológico, que faço tudo para evitar.
Não vivo no passado. Elaboro as experiências do presente e as reflexões que daí extraio, em confronto e em diálogo com as experiências passadas.
É como se recorresse a escritos passados, desde meus rascunhos, a obras lidas de vários autores, para compor uma nova obra. A diferença com um escritor verdadeiro existe porém e não é pequena, pois eu não me dou ao trabalho de redigir e burilar a escrita deste romance: Ele permanece inédito; antes o quero viver, que escrevê-lo!
SABEREI...?
Saberei eu... sorrir?
Quando, vestidos de branco
Partilharmos instantes
Poucos, dum último olhar
Saberemos nós guardar
Intimidade num hospital
Indústria de morte asseptizada
Que nos vê como corpos?
Saberei eu ... no momento
Da separação, que seja
Realmente a nova etapa
De nosso amor?
Amor, que seja eu
O primeiro a partir.
Deixa-me adormecer
Sob teu carinhoso olhar
Não consigo viver sem ti
Não por ter necessidades
De qualquer espécie
No vazio da tua ausência
Mas, não saberei
Viver sem ti
Tão simples como isso;
Sem ti, nada faz sentido
Eu não temo a morte,
Mas tua ausência
Porque, agora sei,
És meu fluído vital
Deixa-me crer que a morte
Seja, afinal, a transição.
Pois, Amor, se assim for
Não terei queixumes
Não precisarei de nada
Sabendo que nos veremos
De novo noutra dimensão
As almas emparelhadas
PROSA POÉTICA
NOVE SENTENÇAS
ENQUANTO...
Enquanto a música fluir no ar
e para os meus ouvidos
e nos circuitos neuronais
o meu cérebro poderá nutrir-se
de surpresa, fantasia e liberdade;
Enquanto intérpretes fizerem reviver
as ideias de compositores
nos seus instrumentos
e vibrar as cordas
das sensíveis almas;
Enquanto houver
aves selvagens
e cantos de pastores
que os cães reconhecem;
Enquanto a vida florescer
a cada manhã de sol
erguendo os rostos
para o calor suave ...
haverá razões para estar
aqui , ser testemunho
das coisas belas
e efémeras que vejo
e recolho no meu ser.
APOSTA
Sempre tive grande relutância
Em apostar nalguma coisa
Ou acontecimento. Pensava:
Se podes calcular a probabilidade
Dessa coisa, apostar é fútil,
E se não podes, é suicidário.
Mas hoje declaro que aposto.
Aposto pela vida, face ao caos
Face à extinção, ao domínio
Absoluto, incontroverso;
Face à capitulação, também
À fraqueza dupla do querer.
Aqueles que hesitam, calculam
Mas calculam mal; o cálculo
É simples: Escolhes lutar
Ou sofrer a humilhação
Antes de morreres esmagado.
Só os fracos hesitariam
Porque quem luta, quem se ergue
Usando seus meios e inteligência
Está a ganhar a partida;
Se ganhou, salvou-se e salvou-nos
De uma secular servidão.
Se perdeu, não perdeu... pois
A sua semente vingará.
Se não luta, é certo:
Perderá de certeza.
Por isso, aposto que o tempo
Trará uma nova geração
Bastante mais comprometida
Perante a urgência
De salvar a humanidade
De quem pretende dominá-la.
Se eles fizerem esta aposta
Terão meu apoio e participação
Na medida em que puder ser útil
A esperança reside no humano
Que subsiste em cada um.
Que este ascenda à consciência,
É A MINHA APOSTA
Murtal, Parede
A 5 de Dezembro de 2025
Nas neves sujas de dezembro
Nas neves sujas de Dezembro
Corpos caídos, manchas escuras
Ao cair da noite, o uivar de lobos
Eram jovens ou menos jovens
Tinham esperança de viver
Corpos imóveis, apodrecendo
Os estrondos do canhão
Os clarões dos impactos
Os céus riscados de fogo
Nada os impressiona.
Suas faces azuladas
Serenas, os olhares vazios
As estrelas já não vêem
A rígidez dos músculos
Induziu posturas insólitas
Aos corpos gélidos
Serão enterrados
Mais tarde, com missa
Cemitério e choro de Mães
Esposas ou noivas,
Discursos solenes,
Placas em memória,
Condecorações póstumas...
Mas nada pode curar
A dor da ausência
Nem os corpos e almas
Torturados, humilhados
Para este inglório fim.