Não quero fazer sensacionalismo, nem despertar a curiosidade dos meus leitores, para depois os decepcionar.
Estou a falar do índice OURO/PRATA. Esta relação, que parece muito pouco interessante para quem não tem acompanhado a evolução dos mercados dos metais preciosos (Ouro, Prata, Platina e Paládio) , é de facto, chave para todos os investidores e estudiosos da economia.
Todos nós sabemos que numa «economia de casino» e como a «banca do casino», os bancos (desde os comerciais, aos bancos centrais) podem ficar na bancarrota.
A questão que se põe à pessoa não «iniciada» é a seguinte: «Como é possível que numa economia em crise, as falências do sector bancário não sejam mais frequentes e até mesmo, falências de países representados pelos respectivos Bancos Centrais?
Não se pode simplificar a questão; ela é demasiado grave para que nos contentemos em receber uma resposta simplista. Em geral, tais respostas são falsas, não porque sejam simples, mas porque eludem a natureza do sector monetário e financeiro. Não dando a imagem real do seu funcionamento.
O sistema monetário não é neutro. Ele funciona «muito bem», mas a favor dos detentores do capital e do poder que lhe está associado. Certamente, as pessoas comuns ignoram que os sistemas monetários à partida, foram desenhados para possuírem uma «deficiência». Somente, esta não é uma falha ou um erro; é algo deliberado.
Todo o dinheiro em notas /papel , ou númerário, ou noutras formas (digital, em contas bancáris, etc.) é crédito. Porque o crédito se caracteriza por duas propriedades seguintes:
- Corresponde a um pagamento diferido. Não é pelo facto de ser «abstracto», um «símbolo», que possui esta propriedade: É que o símbolo só realiza o seu valor, quando o possuídor de dinheiro o troca por um bem tangível ou um serviço concreto. Note-se que o crédito pode ser entesourado, sem se converter logo num objeto ou serviço.
- A substituição de algo: O «papel dinheiro» possuía, nos sistemas passados, algo que funcionava como garantia. Era o ouro, a contrapartida. Os bilhetes de notas de banco tinham convertibilidade automática em ouro ou prata (metais monetários) . Assim, menos de cem anos atrás, havia possibilidade de troca duma determinada quantia de dinheiro-papel, numa quantidade correspondente de ouro ou prata, ao balcão de qualquer banco.
Com Bretton Woods, em 1944 os Aliados e outros países não beligerantes decidiram as grandes linhas do sistema monetário internacional. A ligação do dinheiro-papel ao ouro foi fixada em 35 dólares (US) por cada onça de ouro. Esta relação era fixa e a convertibilidade mantinha-se possível de banco central a banco central, ou de Estado a Estado, mas já não entre outras instituições, nem de entidades individuais. Os EUA, neste sistema, eram os garantes perante os outros bancos centrais e Estados, de que poderiam trocar os dólares por ouro, ao valor fixado.
Este sistema ruíu em 1971, quando Nixon, declarou retirar-se «provisoriamente» da cláusula de convertibilidade fixa e garantida, dos dólares em ouro. Este ato unilateral foi um golpe mortal ao sistema Bretton Woods. É um acontecimento indispensável conhecer-se, para compreender a História económica dos séculos XX e XXI. Mas, não irei aqui desenvolver explicações de pormenor.
A partir do momento em que uma divisa, seja ela qual for, já não pode mais ser convertida em ouro, desaparece a garantia, o elemento tangível, fixo e que conferia estabilidade às moedas, aos câmbios e às trocas comerciais.
Desde então, o mundo vive em instabilidade monetária e financeira, pois a «garantia sólida» de pagamento em última instância, desapareceu. Com efeito, a divisa de dado país, pode estar sujeita a especulação e aquilo que antes correspondia a um determinado valor-ouro, deixava de conservar o seu valor. A partir deste momento, a garantida de valor de uma divisa é apenas a promessa do goveno respectivo. Ora, não vale grande coisa, essa promessa, porque nenhum governo será capaz de manter a estabilidade da sua moeda, face às variações do mercado internacional das divisas. É algo que ultrapassa todos os governos, incluindo os mais poderosos.
A quem detém o controlo dos mecanismos económicos e financeiros (muito poucos, em cada país), é fácil desvalorizar, revalorizar, inflacionar, enfim, manipular a moeda, como convenha mais ao respectivo governo e à classe que é favorecida.
Enquanto papel-moeda pode sofrer todas as alterações de valor imagináveis e - no limite - se extinguir como forma de dinheiro (uma enorme quantidade de divisas desapareceram ao longo da História). Porém, o valor real não é o valor nominal: No fundo, todos nós sabemos isso e constatamos isso de várias maneiras, sabemos quanto custavam, antes e agora, determinados itens.
Num sistema assim, instável por natureza, quem tiver ouro, prata ou outro valor real, tangível e transacionável, pode ter perdas, mas não vai perder tudo. Os bens com valor real e duradouro são geralmente valorizáveis com o tempo. A razão deste «fenómeno» é simples: Há uma ilusão persistante em medir tudo em dinheiro-fiat. Ora, uma quilo de ouro, ou prata, é uma realidade física imutável na prática; pode ser preciso maior ou menor quantidade de «dinheiro-fiat» para o adquirir. Mas, não se «evapora» e tem valor intrínseco, pela sua raridade e pela dificultade em arrancá-lo do subsolo, refiná-lo, e efetuar todas as operações, até que seja colocado no mercado. A propriedade agrícola, ou imobilária, pode também guardar um certo valor intríseco, pelas mesmas razões fundamentais que os menerais preciosos, ou seja: O processo de edificação e conservação (caso do imobiliário) ou o trabalho da terra para que seja produtiva (terrenos agrícolas) e, afinal de contas, para todos os objetos que tenham algum valor, este deriva do trabalho investido.
Finalmente, por que motivo a razão ouro: prata é tão importante como índice?
- Se houver uma corrida ao ouro, a possibilidade de adquirir ouro por um valor abordável, para a maior parte das pessoas, torna-se menor ou desaparece. Então, para a maioria, a aquisição de prata ainda é abordável. A velocidade do crescimento do preço da prata começa a ser mais alta, que a velocidade do aumento de preço do ouro.
Isto deve-se a um conjunto de fenómenos: Se houver muitos compradores de ouro, a sua cotação continuará a subir, porém a um rítmo mais lento. Quanto à prata, a sua subida vai se acelerar (até um certo ponto), porque haverá ainda mais compradores potenciais, que de ouro. Muitos desistem de adquirir ouro, perante a subida vertiginosa da sua cotação, mas terão ainda poder de compra para adquirir prata.
No gráfico da razão ouro:prata ao longo dum ano, visualiza-se o que acima descrevi por palavras.
A quantidade no numerador (ouro) aumenta, mas menos rapidamente que o aumento do denominador (prata): Por isso, o quociente ou razão vai sendo progressivamente menor, neste período em que a desvalorização das divisas-papel é claramente rápida e percebida como tal. Pois, afinal, a inflação, por mais que tentem no iludir, é um fenómeno monetário: Ela é devida ao aumento significativo de «dinheiro fictício» (ou «fiat»), não correspondente a um qualquer aumento de produção, nem à maior abundância de bens disponíveis no mercado.
É este o «segredo» que os doutores da treta nos tentam ocultar.