A característica principal das guerras que têm afligido o Planeta, desde o século XXI, é que estão relacionadas estreitamente com crenças religiosas.
- Note-se a associação da retórica belicista dos dirigentes dos EUA com a ideologia de «Manifest Destiny», ou seja, da missão divina de que o povo dos EUA está incumbido, de ser o líder das nações e guiá-las para a Pax Americana, uma forma laicizada de «paraíso terreal».
- Note-se também a escatologia associada à Jihad de povos islâmicos, sejam sunitas ou xiitas, de combater o «Grande Satã», que identificam com o Ocidente em geral (e os EUA, em particular), com a degradação moral, a arrogância de ricos, etc.
- O combate entre o Ocidente cristão (ou que se auto-intitula assim) e o ateísmo «diabólico» do comunismo foi outro dos grandes lemas das cruzadas anti-comunistas, durante a 2ª metade do século XX.
O próprio comunismo (ou marxismo- leninismo) foi transformado em «religião sem Deus», uma ideologia pseudo-científica, como todas as ideologias.
Podíamos continuar a descrever extensivamente os acontecimentos (nem todos com caráter bélico, aliás) que ocorreram neste último quarto de século. Quer para dar uma justificação falsa, ou devido à convicção verdadeira dum povo, o facto é que os Estados se têm apropriado de argumentos (pseudo-)teológicos.
No plano estrictamente material, direi que a concorrência entre Estados supõe e é insuflada por concorrência entre grupos de interesses, principalmente económicos. Esta concorrência, perante a limitação drástica dos recursos disponíveis no planeta, assim como a extensão dos mercados a todas as regiões, faz com que se intensifique a concorrência entre grupos capitalistas oriundos de várias nações, «obrigando» a que se confrontem em guerras: pelo controlo das matérias-primas, pelo exclusivo ou privilegiado acesso aos mercados, pelo domínio sobre outras nações, ou mesmo, pela hegemonia mundial. Todos estas instâncias se verificaram, senão em simultâneo, pelo menos, numa combinação de várias motivações, nestes breves 26 anos do século presente.
Mas, se nos debruçarmos um pouco mais atentamente, verificamos que as guerras - sejam elas de confronto total, sejam elas de âmbito confinado - têm um grau de destruição humano e ambiental muito superior às guerras que existiram, desde a antiguidade até à 1ª Guerra Mundial, em 1914-18. Poderíamos argumentar que, a partir do século XIX, as potências e as oligarquias que as financiavam estavam em concorrência direta pelos recursos (tanto de matérias-primas, como humanos) que estavam capturados pelos países tendo maior número e extensão de colónias.
- O continente africano era repartido sobretudo entre britânicos e franceses, com importantes extensões nas mãos de portugueses, belgas, alemães e espanhóis. O Oriente-Médio também estava talhado de modo semelhante, sobretudo entre britânicos e franceses.
O império russo estendia-se, sobretudo, intra-fronteiras, não era um império baseado em conquistas ultramarinas. As suas ambições no início do século XX, já eram semelhantes às que tem agora, ou seja, poder desenvolver o seu enorme potencial na Sibéria, no Ártico e noutras partes, que ainda têm imenso potencial por explorar.
A China estava subjugada, sobretudo por britânicos e depois por uma série de potências europeias e também pelos EUA e o Japão. O jugo neo-colonial era agravado pela guerra e invasão japonesa em 1931, pela rivalidade entre facções na sociedade chinesa. Por fim, pela derrota das tropas nacionalistas (apoiadas pelos EUA), deu-se proclamação da República Popular da China, sob direção do Partido comunista. A China era, em 1949, um país pauperizado, com uma situação de pobreza semelhante aos mais pobres do «Terceiro Mundo». O seu reerguer só teve início a partir da década de 80. Também a RPC, como a Rússia, tem internamente uma grande variedade de etnias, umas mais integradas, outras com maior resiliência à assimilação cultural. As comunidades que aceitam de bom grado a liderança do Partido Comunista, não vivem a situação de opressão que se verifica no Tibete e no Xinjiang.
A confrontação através de «proxi» - ou seja - de aliados dum ou doutro bloco económico/ideológico, caracterizou a segunda metade do século XX, assim como a libertação de muitos países sob tutela colonial, muitas vezes pela luta armada.
As guerrilhas também foram amplamente utilizadas pelos países ocidentais, em particular pelos EUA, que armavam, treinavam e alimentavam a contra-revolução em países da América central (ex. Nicarágua, São Salvador...) e muitos outros pontos, correspondentes a países ex-coloniais (África e Ásia). Também exerceram uma constante sabotagem no interior dos países do Bloco Soviético, em particular, infiltrando agentes e alimentando grupos de dissidentes internos, ou no exílio. Pode dizer-se que este confronto resultou num enfraquecimento do controlo sobre vários países do Pacto de Varsóvia: Houve revoltas com repercussão importante na Hungria, na Checoslováquia, na Polónia e na Roménia. Por fim, a situação na Alemanha de Leste tornou-se insustentável para o governo e resultou na «Queda do Muro de Berlim».
No entanto, as forças que eram apoiadas por americanos e seus aliados, sofreram muitos revezes em lutas pós-coloniais em África, na Ásia e na América Latina. Por exemplo, a derrota do exército do regime de Apartheid (junto com forças angolanas de Savimbi) que foram paradas e destroçadas, por volta da declaração de independência desta ex-colónia portuguesa. Outro exemplo: os Sandinistas na Nicarágua derrotaram os Contras, ativamente apoiados e enquadrados por militares dos EUA. Ou ainda, a derrota do exército iraquiano nos anos 80, no tempo de Saddam Hussein, apoiado pelos EUA e por países europeus, contra o Irão recém triunfante da revolução que depôs o Xá e instaurou o regime xiita.
No século XXI, a guerra por meio de aliados e apoios das grandes potências, continuou («proxi wars») mas houve - a partir do 11 de Setembro de 2001 - o envolvimento direto do exército dos EUA e de contingentes da OTAN.
Os países oprimidos que são esmagados por força militar muito superior de uma grande potência, têm de construir uma narrativa que os justifique a não depor as armas e continuar a combater. Estas narrativas sintetizam traços de identidade nacional e crenças religiosas. Por isso, é comum haver nelas elementos apocalípticos o que confere maior tenacidade à sua resistência armada.
Igualmente, os países opressores, na guerra desumana que levam a cabo contra a população civil inimiga, vão produzir narrativas para «inocentar» as tropas perante seus cidadãos, de atrocidades - supostamente - cometidas «somente» pelos inimigos. Não é raro haver uma componente racista e a utilização da religião para fins de propaganda, sobretudo, junto das suas tropas e da população civil. A dessensibilização da cidadania nestes países agressores, vai amplificar o perigo ressentido e o medo imaginado, sobretudo.
Segundo o Prof. Jiang este confronto atual assume contornos escatológicos. Por outras palavras, trata-se de justificação pelos fins. Os combatentes e as populações civis são endoutrinadas de que esta guerra será a última, que os horrores presentes «abrirão os Céus», seja para a vinda do Messias, seja para um Reinado Divino, seja para outras visões sobrenaturais.
Assim, constrangimentos que a guerra «somente militar» tinha explícitos (poupar as populações civis adversárias, não destruir recursos vitais para a subsistência da população, respeitar os prisioneiros de guerra, etc) vão ser «esquecidos», pelo fanatismo e os instintos de morte dos combatentes de ambos os lados. Se ambos se julgam «o Braço de Deus», concedem a si próprios o papel de «justiceiros»: Qualquer atrocidade que cometam é vista pelos superiores hierárquicos, com indiferença, senão mesmo, como digna de elogio.
A religião de qualquer povo, de qualquer etnia, não está aqui em causa. O que está em causa é o que chamo o «maior sacrilégio» de utilizar a mensagem fundamental de cada religião de sábios e válidos ensinamentos, para produzir uma distorsão monstruosa. Assim, estão cometendo um sacrilégio, uma monstruosidade e uma farsa, contra os seus livros sagrados e contra a prática multi- milenar das religiões de que se dizem adeptos.
Todos os povos envolvidos em guerras tendem a cair nisso, mas quem os incita são os dirigentes, os políticos, os religiosos e os chamados «líderes de opinião»: todos eles têm culpas agravadas, embora cada pessoa deva ter «freio moral» para não se deixar embarcar em ódios vesgos contra o «inimigo». Tanto mais que a informação que nós recebemos, é um apanhado de propaganda, do lado em que nos encontremos, seja ele qual for. Não podemos senão nos basear sobre os ensinamentos de elevado valor espiritual, que estão presentes em todas as religiões, só assim cumprimos o nosso dever; só assim mostramos respeito verdadeiro por Deus e pelas Escrituras Sagradas.
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