Mostrar mensagens com a etiqueta neodarwinismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta neodarwinismo. Mostrar todas as mensagens

domingo, 12 de abril de 2026

O MENINO DE LAPEDO, UM ACHADO DA MAIOR IMPORTÂNCIA

 Datado do paleolítico superior





O que eu acho notável, neste caso do «Menino de Lapedo», é o facto dos arqueólogos e paleoantropólogos que fizeram a descoberta e a descreveram em 1998, estavam perante um consenso da comunidade científica contrário à possibilidade de hibridação das duas espécies (H. sapiens e H. neandertalensis). Este consenso só foi subvertido com a descoberta da técnica do ADN antigo, que permitiu (em 2010), aos cientistas do laboratório de Biologia da Evolução de Leipzig sequenciar e restituir o genoma integral dum neandertal. Isto permitiu que fossem identificadas as regiões cromossómicas dos humanos contemporâneos provenientes dos neandertais (1 - 4% do total do genoma).
A questão mais geral que se coloca perante fósseis que indicam resultar dum cruzamento algures no passado com outra/s espécie/s, é a de que temos de pôr em causa uma certa ideia, enquanto biólogos e paleoantropólogos. Quase todos os que estudaram dentro do paradigma do neodarwinismo, ficaram com uma noção demasiado rígida quanto ao isolamento genético das populações de espécies diferentes. 
Podemos ter que pôr de lado o conceito de evolução segundo o modelo neodarwiniano «clássico», de mutação/selecção. Sem dúvida que há mutações, numa qualquer população e que estas são conservadas, nalguns casos, mas na imensa maioria elas são rejeitadas. O ambiente funciona como «filtro», que permite ou impede que essas mutações se fixem (ou não) na população. Porém, no modelo de evolução humana que está emergindo, aparece a questão cada vez mais frequente do cruzamento inter-específico: Dois grupos evoluem em separado durante muitas centenas de milhares de anos, acumulando diferenças, mas não impedindo a formação de híbridos. Quando estas duas populações se encontram de novo (devido a migrações, a mudanças climáticas, etc) as duas espécies próximas, mas distintas, cruzam-se e produzem híbridos, por sua vez interférteis. 
No caso da hibridação sapiens-neandertalensis, constata-se certo grau de incompatibilidade genética entre eles. Embora certos conjuntos de genes neandertais tenham sido conservados nos genomas sapiens, outros genes desapareceram por incompatibilidade com o genoma de Homo sapiens. Provavelmente, havia maior fragilidade nos portadores de certos pares de genes sapiens/neandertais, ou sua presença implicava uma mais baixa fecundidade, ou uma maior susceptibilidade a certas doenças...
Descobrimos agora que muitas populações /espécies contribuíram no passado, para o genoma da espécie humana contemporânea. Esta descoberta só foi possível pelo estudo em larga escala do ADN humano contemporâneo. Ao mesmo tempo, foram-se acumulando sequências genéticas de fósseis ancestrais. A espécie humana resultaria então de uma «manta de retalhos» genética, ou de um «puzzle». 
Se esta tese se confirma, é uma mudança epistemológica de primeira importância, no estudo da evolução.

sábado, 17 de agosto de 2024

DENIS NOBLE: PALESTRA «A MÚSICA DA VIDA» + ENTREVISTA SOBRE EVOLUÇÃO

Denis Noble é um fisiologista britânico que se tem interessado pela evolução. Há cerca de 18 anos, publicou o livro «The Music of Life»  [A Música da Vida](ver 1º vídeo), onde propõe uma abordagem organísmica e integrada da expressão genética e do desenvolvimento do indivíduo. O organismo, o ser na sua totalidade, é que estará ao comando, em relação à expressão dos genes, segundo Denis Noble. Hoje em dia, esta sua abordagem é consensual. Porém, ainda existem resistências nas hostes «neodarwinianas», porque estão envolvidas, principalmente nos EUA, numa longa polémica com os criacionistas, situação que não ocorre no continente europeu. 

A entrevista que deu (ver vídeo nº2), intitulada «A Terceira Via do Evolucionismo», esclarece o seu pensamento sobre evolução. Ele próprio considera que sua visão se confronta apenas com as formulações erradas dos fenómenos, ou seja, com barreiras artificiais, resultantes da forma simplista, redutora, como os livros de texto continuam a tratar os assuntos da Evolução.





                                            https://www.youtube.com/watch?v=IAKE1SI9LJc


 

domingo, 30 de janeiro de 2022

HUMILDE PLANTA PÕE EM CAUSA A VALIDADE DA GENÉTICA MENDELIANA?

Sim, é realmente uma planta muito comum, pode encontrar-se em vários habitats. Coloniza os bordos dos caminhos e das estradas. Chama-se Arabidopsis thaliana e tornou-se célebre há umas décadas atrás, quando foi escolhida pelo projeto de sequenciação completa de genomas, para representar as plantas superiores. É a «Drosophila» do Reino Vegetal. Foi o terceiro organismo eucariota a ter seu genoma totalmente sequenciado.




A publicação do estudo na revista científica Nature (*) é de molde a revolucionar o nosso entendimento dos mecanismos de seleção natural e portanto da própria evolução das espécies, pelo menos ao nível mais «baixo», da transmissão dos genes (e suas mutações) à descendência. 
Os investigadores do estudo em causa começaram por obter em laboratório uma série de mutantes em várias regiões cromossómicas. Esses mutantes não apresentavam qualquer desvio em relação ao que seria de esperar, para um modelo de mutação ao acaso. Estas mutações ao acaso, são um dos pilares da teoria da seleção/mutação, neodarwiniana. Mas, para sua surpresa, investigando bases de dados genéticas contendo milhares de mutações e suas localizações precisas, descobriram que certos genes e ADN na sua proximidade, possuíam como que uma proteção às mutações, pois que a frequência de mutações nestes locais  era bastante menor que noutras zonas cromossómicas, aparentemente, com as mesmas caraterísticas estruturais. Verificaram que as zonas protegidas de mutações eram aquelas que, em caso de mutação, tinham alta probabilidade de ter graves efeitos para a planta afetada, ou mesmo de serem letais. 
Esta proteção era obtida com a presença de determinadas proteínas nucleares, situadas sobre ou perto dos genes que era necessário proteger. Claro que este mecanismo não significa que as proteínas em causa tenham «vontade» de proteger as sequências genéticas referidas. A proteção é essencialmente resultante da afinidade preferencial de certos domínios das proteínas por determinadas sequências do ADN. 


A descoberta coloca, entretanto, um patamar suplementar na complexidade dos genomas. 
A investigação da expressão dos genes e a epigenética, têm-se desenvolvido muito nos últimos trinta anos, dando conta da subtileza e complexidade da regulação do genoma. A epigenética tem revelado, em várias espécies (incluindo a espécie humana), novos mecanismos hereditários, mas que não passam pelo ADN, que transmitem determinadas caraterísticas de uma geração para outra. 
A presente descoberta, quase de certeza, poderá vir a ser observada noutros eucariotas**. Ao nível do genoma, os animais, incluindo os mamíferos e a nossa espécie, diferem pouco nos mecanismos de transmissão e regulação dos genes. Há poucas diferenças até na regulação fina dos genes, por mais diversas que sejam a fisiologia e anatomia.   
Se as observações deste estudo vierem a confirmar-se, não só noutras espécies de Plantas, como no Reino Animal, a Genética Mendeliana, tal como a aprendemos na escola, tem de ser posta de lado, como aproximação demasiado grosseira dos subtis mecanismos da transmissão hereditária. Mas, este abandono implicará também a «machadada final» na teoria neodarwinista, que já estava seriamente abalada por descobertas anteriores. As mutações não seriam inteiramente ao acaso, havendo várias possibilidades de regulação interna, as quais «não são visíveis» perante a seleção natural.

------


(*) Mutation bias reflects natural selection in Arabidopsis thaliana https://www.nature.com/articles/s41586-021-04269-6

(**) Os eucariotas são todos os organismos possuindo células com núcleo, contendo os cromossomas, separado por uma membrana: são os Protistas, os Fungos, as Plantas e os Animais.