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terça-feira, 3 de agosto de 2021

HIPÓTESE SOBRE COEVOLUÇÃO HOMEM / CÃO

                             

                                Foto: alcateia de lobos ou matilha de cães?

Costuma-se dizer que o cão é o melhor amigo do homem; mas, não se está - no entanto - sempre consciente da profundidade da relação cão-homem. É que se trata propriamente de coevolução, de simbiose.
Como somos extremamente vaidosos da nossa «superioridade racional», não nos apercebemos como existem inúmeras instâncias em que o cão não apenas nos ajuda, como inclusive nos induz determinados comportamentos. Ou seja, a domesticação exercida pelos homens sobre os cães, não é unívoca. Existe um conjunto de comportamentos, de atitudes, de posturas, que os cães adotam - isto de forma instintiva e como tal, geneticamente transmitida - cuja finalidade ou o resultado efetivo é desencadear nos humanos um dado comportamento.
Por vezes, esse comportamento animal é tão sedutor, tão apropriado ao dono, que denota um profundo conhecimento do mesmo. Sabemos que o cão sabe ler as expressões faciais do dono, que ele observa sempre atentamente as expressões e os gestos deste.

                   
                                              Ossadas de cães com mais de 6000 anos

As diversas raças de cães existentes no mundo são muito modificadas, em relação às duas subespécies de lobos que se crê estiveram na origem de todos os cães atuais. Trata-se de 2 subespécies de lobos, agora extintas, uma da Ásia central e a outra da Europa Central e Norte.

A domesticação do lobo, transformando-o em cão doméstico, não foi - provavelmente - um processo muito longo. Primeiro, os lobos rondavam os acampamentos humanos. Depois, alguns humanos verificaram que os lobos podiam ajudar a manter à distância outros carnívoros, bem mais perigosos. Os lobos contentavam-se em comer os restos deixados pelos humanos. E assim, a pouco e pouco, os humanos foram domesticando os lobos, lançando-lhes os restos de comida. A adoção, pelo bando humano, de algum bébé lobo, cuja mãe loba tivesse morrido, terá proporcionado os primeiros passos para a domesticação propriamente dita.

Os lobos são animais gregários, organizados em sociedades altamente hierarquizadas. Portanto, não era difícil uma cria de lobo ser adotada, pois ela própria se assumiria como integrando o bando dos humanos, devendo obediência ao «macho alfa» e à «fêmea alfa» do mesmo. A partir deste ponto, iria tornar-se um auxiliar nas diversas atividades do grupo: Desde guarda do local onde o bando semi-nómada pernoitava, até um excelente ajudante para «levantar» a caça, ou para a perseguir e matar.
Lembremos que os humanos não caçavam isoladamente, mas em grupo. Neste grupo, os papéis estavam bastante estruturados. As presas eram perseguidas até atingirem um ponto de exaustão. Nesse momento, estariam muito cansadas e incapazes de se defenderem dos golpes dos caçadores. Em tal perseguição e no cerco final e morte, os cães desempenhavam um papel central. Sem eles, a caça não é impossível, mas será muito mais difícil e aleatória. A aumentada eficácia na caça foi um fator que permitiu, não apenas que o cão se tornasse um valioso auxiliar do homem, como também que a nutrição do bando fosse mais eficiente, sendo mais eficaz a obtenção dos recursos alimentares, em todas as estações.
Tem sido atribuída uma data em torno de 15 mil anos, para a origem da domesticação do cão. Esta época antecede os primórdios da revolução agrícola, do neolítico, em cerca de 3.000 anos. Porém, a presença muito mais antiga (cerca de 30 mil anos) de ossos fossilizados de cães, não de lobos, em conjunto com restos humanos fossilizados, vem mudar a perspetiva. Igualmente, a descoberta recente de uma cria de lobo congelada com cerca de 20 mil anos, na Sibéria, talvez não corresponda a um lobo selvagem, mas a um lobo domesticado.

Se nós pensarmos que o aparecimento do homem «moderno» no continente euro-asiático é contemporâneo deste período, poderemos estar perante um dos fatores realmente decisivos para a espécie H. sapiens se ter expandido tanto, deslocando as populações autóctones neandertais.
O seu uso sistemático do cão pode ter sido muito importante em termos de competição com os seus «primos» neandertais: Estes tinham adaptações anatómicas que lhes conferiam a robustez indispensável à sobrevivência no rude clima da era glaciar, há 60 mil anos.
A última glaciação durou até há cerca de 15 mil anos, pouco antes do início do neolítico. Quanto ao «homem de Cromagnon» ou homem moderno, H. sapiens, a sua migração para fora de África teria começado pelo Levante, há cerca de 60 mil anos. Mas, a sua distribuição - ao longo do Mediterrâneo e na Europa Central - terá demorado, dado que os indícios seguros da sua presença em vários pontos do centro e norte europeu, datam somente de 40 ou 30 mil anos.
Creio que homens vindos de África, estariam muito menos adaptados, inicialmente, para enfrentar os rigores do clima, que os neandertais. Porém, uma capacidade superior na caça, pode-lhes ter permitido sobreviver nas regiões mais frias, obtendo um suprimento de calorias suficiente.
Os neandertais, por muito exímios caçadores que fossem, não tinham amestrado o cão, estando portanto em desvantagem na obtenção de recursos de caça. Teria sido assim? Teria sido o cão um fator importante na competição dos dois grupos humanos (subespécies)?
Naturalmente, esta hipótese já foi emitida, mas as descobertas recentes poderão eventualmente dar-lhe maior consistência.
O que sei é que as teorias sobre a falta de inteligência, de habilidade, etc., dos neandertais, relativamente aos homens «modernos», estão completamente postas de lado. Quanto à constituição anatómica, como disse acima, se houve diferença significativa, ela deve ter favorecido os neandertais.
Nos vastos territórios europeus, essencialmente vazios de humanos, os pequenos grupos estavam dependentes da sua habilidade em obter a alimentação, condição primordial para conseguirem sobreviver. Isto seria ainda mais difícil na estação fria, sabendo-se que, na Europa Central, prevalecia então um clima semelhante aos climas das zonas setentrionais da Escandinávia, da Rússia e da Sibéria, de hoje.

Pode ter sido decisivo para a sobrevivência do homem «moderno», a sua acrescida eficácia na caça, e o sucesso na competição com a espécie autóctone, os neandertais, apesar desta estar bem adaptada em termos anatómicos e de comportamento aos ambientes da era glaciar, porém sem ter o auxílio precioso do cão doméstico.

sábado, 4 de janeiro de 2020

RAPOSAS, LOBOS, CÃES: DOMESTICAÇÃO, GENÉTICA, EVOLUÇÃO



Este vídeo introduz-nos um estudo experimental da evolução. Com efeito, a um nível micro, aquilo que os experimentadores soviéticos fizeram foi realmente acelerar a selecção (artificial, neste caso) de modo a fazer com que prevaleça uma modalidade de comportamento, transportada por um gene ou genes. 
Não podemos reconstruir exactamente as etapas que aconteceram na domesticação das espécies pelo homem há dezenas de milhares de anos, nomeadamente o cão a partir do lobo, mas sabemos hoje como este tipo de processo se pode ter desenrolado, por analogia com a domesticação das raposas. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

EM DEFESA DOS BURROS

                       Voice of a...donkey? Rescue animal with incredible vocal range goes viral (VIDEO)

                  https://www.rt.com/business/450405-pakistan-donkeys-export-china/

Uma notícia muito séria (ver acima), sobre exportação de burros do Paquistão para a China, esteve na origem desta reflexão.
Sabemos que o burro é tido - nas fábulas e nos provérbios - como um animal extremamente estúpido, limitado, teimoso.

Este retrato do burro é absolutamente injusto, pois o asno não tem menos inteligência que qualquer outro equídeo. Simplesmente, as imaginações românticas vêem, no cavalo, o animal «nobre», um animal muito dedicado ao seu dono, etc...
Ora, na verdade, quase ninguém tem contacto quotidiano com cavalos. Praticamente, não se vêem cavalos no dia-a-dia: apenas em filmes ou em concursos hípicos, ou nas guardas de honra aquando das visitas de presidentes estrangeiros... Daí que  lhe seja atribuída uma «nobreza» de carácter e muitas outras virtudes, porque é usado, actualmente, em situações de aparato, de gala, ou de desporto  de alta competição. 
O cavalo - como todo o animal domesticado - foi sujeito a selecção. No tempo em que a força animal era praticamente exclusiva, houve raças dedicadas ao transporte, ao trabalho nos campos, assim como à guerra, etc. 
Os cavalos que conhecemos são fruto de 5 mil anos de selecção pelos humanos. Os poucos cavalos selvagens que restam nas estepes Ásia Central mais se parecem com burros, na verdade, pela sua anatomia. 
Quanto aos burros, eles foram também usados em larga escala, durante sensivelmente o mesmo tempo que os cavalos. Mas, as suas características fizeram do burro um animal ideal para o transporte e os trabalhos agrícolas. É muito mais resistente que o cavalo, capaz de se contentar com uma ração menos nutritiva.
Porém, o burro tem outras características muito interessantes, em si mesmo. 
O preconceito social é que impede as pessoas de compreender que o burro é um animal com uma inteligência bastante maior, da que lhe é atribuída.
Tem uma grande paciência, não se enfurece facilmente, embora o coice de burro possa ser mortífero; colabora com o seu dono e transporta-o sem fazer capricho...
«Mais vale burro que me carregue do que cavalo que me derrube» (um provérbio popular, já existente antes de mestre Gil Vicente o ter para sempre celebrizado na «Farsa de Inês Pereira»).

Nos países do Norte da África, que eu visitei e em muitos outros, que apenas conheço indirectamente, o burro continua a ser um animal essencial como ajudante nos trabalhos agrícolas e no transporte de bens para os mercados. 
Na minha infância (há quase 60 anos), viam-se burros a puxar carroças, que entravam em Lisboa - pela praça de Espanha - de madrugada,  e se dirigiam para os diversos mercados (nessa altura, não havia super e hiper mercados) com os produtos hortícolas e frutícolas da região saloia. 
No interior norte de Portugal, principalmente, é vulgar a presença de burros nos campos e nas estradas, transportando toda a espécie de produtos ou alfaias.

Se faz sentido ou não, do ponto de vista económico, tal como no Paquistão (ver notícia acima), desenvolver a criação de burros em Portugal ... não sei. 
Mas o facto é que existem raças de burros, tal como existem de cavalos. Estas raças podem ter um potencial genético muito apreciado para determinados fins. 
Sabemos que a coudelaria de Alter do Chão é muito célebre pela qualidade dos seus cavalos, de raça Lusitana. É bem possível que faça sentido existir algo equivalente para as raças autóctones de burros. Penso que algumas poderão estar em vias de extinção.  
Mesmo que a conservação das raças autóctones de burros não pareça prioritária para pessoas desprevenidas, parece-me que existe todo o interesse - e não apenas da ciência - em conservar a sua diversidade genética.
Afinal de contas (tal como o cavalo) o burro é um produto de milénios de criação, cruzamentos selectivos, apuramento de raças. 
Como qualquer outro animal doméstico, a espécie burro/asno e todas as suas raças são património da cultura, da história, do saber humanos.