Mostrar mensagens com a etiqueta Nathan Bear. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nathan Bear. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Claro que o sionismo é um racismo (excerto de artigo de Nate Bear)

Original em:

https://open.substack.com/pub/donotpanic/p/of-course-zionism-is-racism-jesus?utm_source=share&utm_medium=android&r=9hbco


 Em primeiro lugar, acreditar no sionismo, que defende o direito dos judeus a um Estado judaico, não é uma crença "pragmática" que exista fora de alguma ideologia supremacista racial, como sugerem alguns. É uma ideologia supremacista racial. Não se trata simplesmente da crença de que os judeus podem mudar-se para um lugar seguro e integrar-se nele, respeitando os seus costumes, práticas e instituições governativas. É a crença no estabelecimento de um Estado judaico com costumes, práticas e instituições próprias. Fundamentalmente, porém, é a crença de que os judeus deveriam poder criar um novo etno-estado com novas instituições onde JÁ EXISTEM pessoas. E, obviamente, isto não pode ser feito sem acreditar que as pessoas existentes são inferiores e, portanto, que os judeus têm o direito divino de as substituir, às suas culturas, práticas e instituições. O racismo está intrínseco à própria lógica disto! Não se pode deslocar e promover a limpeza étnica de um povo já existente numa área  geográfica, de forma não racista! Isto seria verdade tanto se fosse criado um Estado judaico na Palestina, como na Mongólia Exterior. Não se pode, como O. parece acreditar, ter um sionismo que não seja à custa de outro povo. A não ser que se pretenda estabelecer um Estado judaico na Lua, o sionismo, por necessidade e definição, exige limpeza étnica. Portanto, é patentemente racista. Os líderes do Partido Verde (no Reino Unido) deveriam estar a defender estes pontos e a exigir que os opositores expliquem como a limpeza étnica não é racismo, em vez de se submeterem pateticamente a uma indignação fabricada, criada para proteger um projecto colonial genocida.

J. aplica também uma teoria de "autodeterminação" ao sionismo, ligando-o mais directamente às lutas gerais pela independência empreendidas por outros grupos étnicos ou religiosos. Outros sionistas, nos últimos dias, usaram exactamente esta palavra para defender e justificar o sionismo e Israel, tal como o deputado do Partido Verde, Adrian Ramsey, que disse opor-se à moção por esta contrariar a sua crença na autodeterminação judaica.

Consciente ou inconscientemente, o conceito de “autodeterminação” no contexto de um Estado judaico está a ser totalmente mal utilizado. Historicamente, o conceito de autodeterminação tem sido aplicado a grupos minoritários que vivem sob o domínio violento e opressor de uma maioria e que insistem na sua independência em relação a esse domínio. Fundamenta-se e é delimitado por imperativos morais claros relativos ao sofrimento dos oprimidos sob o jugo dos seus opressores. Os judeus nunca viveram sob o domínio opressor da maioria palestiniana! Viveram, em diferentes épocas, sob regimes opressivos e discriminatórios a milhares de quilómetros de distância, na Europa Ocidental e Oriental. E, obviamente, foram os europeus que cometeram assassinatos em massa contra judeus, e não palestinianos. Não existe o direito à “autodeterminação” em território alheio e contra pessoas que não lhes fizeram qualquer mal. Não é apenas ilógica, é uma noção obscena que justificaria qualquer grupo oprimido a deslocar-se para qualquer parte do mundo e a promover a limpeza étnica de quem quisesse, sob a justificação de que, algures, em algum momento, sofreram discriminação. A autodeterminação em terras alheias é uma perversão moral de uma ideia fundamentalmente justa e digna.

O povo a quem a ideia de autodeterminação se aplica de forma mais óbvia e lógica são os palestinianos. São discriminados, abusados ​​e assassinados em massa com base na sua etnia, nas suas próprias terras, pelo domínio injusto da maioria de um grupo étnico diferente. As suas terras foram roubadas e as suas instituições destruídas e substituídas por invasores coloniais. Estes invasores coloniais cometeram genocídio contra eles.

É difícil saber se o debate em torno do sionismo é conduzido como uma farsa deliberada ou se é reproduzido como resultado de ignorância aprendida. Grande parte dele é certamente oportunista. Ou seja, as pessoas que conhecem as origens supremacistas (racistas) do sionismo fingem que se trata de um projecto nobre de autodeterminação porque são sionistas que procuram manter o status quo. E as pessoas que desconhecem as origens supremacistas (racistas) do sionismo não querem saber, porque não desejam destruir a sua mundividência supremacista judaico-cêntrica. De qualquer modo, seja por ignorância deliberada ou aprendida, existem fortes motivações para sustentar ficções sobre o que o sionismo realmente é e representa.

Outra complicação significativa é que muitas pessoas acreditam, inocentemente, como resultado de uma lavagem cerebral cultural e educacional, que o sionismo surgiu completamente formado a partir do Holocausto. Que os judeus, procurando segurança após a Segunda Guerra Mundial, exigiram um Estado, e a ONU prontamente os concedeu em 1948. Poucos sabem que o sionismo emergiu como uma ideologia etnonacionalista quase cem anos antes disso, e foi concebido como uma ideologia explicitamente colonialista de povoamento.


Sionismo Primitivo


Um dos primeiros pensadores nacionalistas judeus, Moses Hess, publicou "Roma e Jerusalém" em 1862, obra na qual defendeu o colonato judaico na Palestina. Em 1896, o organizador e teórico sionista Theodor Herzl escreveu "O Estado Judeu", cuja secção inteira se intitulava "A Ocupação da Terra". Herzl declarou que "os judeus conquistarão a Palestina", prevendo que "a infiltração judaica acabará certamente mal" devido à resistência palestiniana. Outro proeminente sionista judeu do século XIX, Ben-Yehuda, escreveu que "existem agora apenas quinhentos mil árabes, que não são muito fortes, e dos quais tomaremos facilmente o país". O sionista do início do século XX, Vladimir Jabotinsky, é frequentemente considerado um dos pais do sionismo. Chamou repetidamente ao colonato judaico na Palestina “colonização”, enquanto o primeiro-ministro de Israel, David Ben-Gurion, em 1937, descreveu a Palestina como “contendo um vasto potencial de colonização que os árabes não precisam nem estão qualificados para explorar”. Disse que os judeus se estabeleceriam na Palestina “através do acordo e entendimento com os árabes, ou por outros meios”. O outro meio a que se referia era a violenta limpeza étnica que ele próprio acabou por dirigir. O sionismo surgiu muito antes de 1945 e foi explicitamente descrito pelos judeus sionistas como um projecto de colonização. Não é preciso grande esforço para conhecer estes factos, pelo que é preciso concluir que são simplesmente ignorados, tanto por supostos aliados como por inimigos da Palestina, por conveniência dos interesses e sensibilidades sionistas.

E agora, 150 anos depois de o sionismo ter surgido como uma ideologia explicitamente colonizadora, o Estado judaico cometeu um genocídio e devemos acreditar que o genocídio pode de alguma forma surgir materialmente de um Estado não racista. Outro absurdo. Só o racismo produz genocídio. Só o racismo produz uma sociedade de apartheid que deseja realizar uma limpeza étnica de dois milhões de pessoas. As ruínas de Gaza são a descrição visual perfeita do que o sionismo, enquanto ideologia, sempre representou.

Imagem: Como tudo está mais claro do que nunca, o que começamos a ver é um esforço para reabilitar o sionismo. Começamos a assistir a um esforço para separar Israel da sua ideologia subjacente, de modo a reintegrá-lo discretamente na sociedade imperial polida. Os liberais detestam que os direitos palestinianos, o genocídio, o apartheid e o sionismo se tenham tornado temas eleitorais. Daí esta indignação com a moção dos Verdes, que será utilizada para tentar destruir o partido, tal como Corbyn e o seu movimento foram destruídos por uma falsa histeria anti-semita. Daí Mamdani e as suas traições, e as reacções de raiva, mesmo entre os chamados esquerdistas, às pessoas que denunciam esta reabilitação. No outro dia, estava no centro disto quando Hasan Piker, uma personalidade multimilionária das redes sociais com a capacidade intelectual de uma esponja marinha, me atacou e tomou o partido de um sionista israelita por causa das minhas críticas a Mamdani. Na sua transmissão em direto, Piker, que há poucos meses era um crítico acérrimo dos sionistas, disse estar feliz por ter fãs nas Forças de Defesa de Israel (IDF). Piker tem mais de 5 milhões de seguidores nas suas plataformas de redes sociais, e agora estão a ouvir que os soldados que cometeram genocídio não só podem ser reabilitados, como também podem ser incluídos num movimento de esquerda.

Piker está a promover um liberalismo intransigente sem princípios e falhado.

Está a promover o liberalismo social-democrata falhado que, em primeiro lugar, produziu um genocídio.

Ele está a promover um liberalismo genocida.

Intelectualmente, tanto Piker como os dirigentes do Partido Verde estão a demonstrar, na prática, o que significa ter a mente aberta como uma ferida aberta. A confusão e o sangramento de posições contraditórias na vã busca de legitimidade num sistema democrático liberal.

Mais uma vez, vemos porque é que o progresso genuíno e a justiça são impossíveis dentro dos limites da democracia liberal.

Isto não significa que a moção dos Verdes tenha sido má. Longe disso. Ajuda a aguçar as contradições, expõe as fraudes performativas e cria uma tensão útil, ou mesmo destrutiva, que abre novos caminhos para a mudança.

Mas, enquanto sistema para a mudança material, a democracia liberal, se não esmaga as melhores intenções e as vozes mais íntegras, subjuga-as e redirecciona-as para os seus próprios fins.

Na maioria das vezes, porém, como sistema concebido para sustentar o imperialismo capitalista, simplesmente promove sionistas, capitalistas e neofascistas ou fascistas de facto.

É por isso que só os futuros revolucionários permitirão que uma verdade evidente seja orgulhosamente declarada por todos: o sionismo é racismo.

E só em futuros revolucionários a Palestina será livre.