Nem a Ucrânia, nem a Rússia podem gastar o seu seu capital humano indefinidamente. Não haverá vitória que valha a pena, se uma geração inteira foi enterrada, ficou inválida, foi deslocada ou refugiada no estrangeiro e se o país não tiver jovens em número suficiente para se reconstruir. As armas podem ser substituídas. Os edifícios podem ser reconstruídos. A dívida pode ser «atirada para diante», paga por futuras gerações. Os jovens que desaparecem nesta guerra não podem ser impressos, emprestados ou substituídos.

domingo, 28 de maio de 2017

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS - 7

[*poema extraído do livro Exercícios Espirituais, 1985, Ed. MIC (Estoril)]


ESCREVENDO SOBRE O RIO

Vou escrevendo sobre o rio
Estas palavras
Entre murmúrios indolentes
Logo apagadas
Pela força da corrente…

Dizei-me: Que resta
De tudo isso, afinal?
- Resta a memória difusa
De eras varridas pelo sopro
Descido das montanhas…
Eco de cavalgadas viris…

- Calem-se vozes arrotando retórica
Sobre os cadáveres dos pássaros
Regelados na neve!
- Calem-se vozes gemendo ladainhas
Sobre os espaços estelares
Chovendo pérolas entre nuvens!

Calem-se! E deixem-me ouvir
A vibrante epopeia
Que as vagas atiram às rochas
Rolando, rompendo num rugido

Rouco, raivoso de espuma!



sábado, 27 de maio de 2017

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS - 6

[*poema extraído do livro «Exercícios Espirituais», 1985, Ed. MIC (Estoril)]


ADVERTÊNCIA A UM DESCONHECIDO





As harpas da noite
Estão inscritas
No sangue
Dos vampiros.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS - 5

[*Poema do livro «Exercícios Espirituais», 1985, Ed. MIC (Estoril)]


A MENINA SONHA



Moscardos felizes dormem
Sob a axila da menina
De olhos de azeviche


Enquanto sonha com a aranha
Esta vai tecendo um véu
De pérolas de orvalho
Entre as circun-
                     voluções  do cérebro


A sua respiração soergue-lhe
O peito como fole
Atiça a chama na lareira



Seus dedos, livres, acariciam panteras.


quinta-feira, 25 de maio de 2017

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS - 4

[* poesia extraída do livro «Exercícios Espirituais», 1985, Ed. MIC (Estoril)]

PIERROT EM  NOVA-IORQUE

  



Fulgores de néon jogam à cabra-cega
Em versão electrónica nas janelas de Time Square
Orgia de 50 000 KWH
Na tua íris noctívaga deslumbrada…

Nos para-raios dos arranha-céus
Poderás colher poeira lunar
E com nove letras FL(u)ORESCENTES
Sobre ardósia reticulada

Escrever o nome de COLOMBINA…


quarta-feira, 24 de maio de 2017

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS - 3

[* poema extraído do livro Exercícios Espirituais, 1985, Edições MIC (Estoril)]



A SOMBRA DE POLICHINELO

  


Fora de todas as paisagens
Resta a paisagem do olhar
Enquanto vagueias pelo quarto
Dilacerado
E a sombra te acompanha
Rindo do teu ar louco
Indiferente a sentimentos
Cínica e titubeante
Analogia do seu dono.




terça-feira, 23 de maio de 2017

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS - 2

[* poema extraído do livro Exercícios Espirituais, 1985, Edições MIC (Estoril)]


AS HORAS DE ARLEQUIM


Desenlacei o olhar
Da página branca
Da aurora multicolor…
Debrucei-me sobre o raio
De luz que sai de uma telha
Partida, colocada neste lugar
Não se sabe por quem, nem para quê…
Afaguei o pelo quente do meu gato
Dizendo segredos em voz alta
Mas que ninguém pode perceber
Pois partilham a sua nudez
Com os muros leprosos
Batidos pelo sol e os ventos…
Repovoei a mesa de carvões,
De sementes, de tampas de canetas,
De espátulas misteriosas, de conchas,
De cachimbos, de caixas sonoras,
E fui mordiscar uma maçã
Frente às gelosias, com poeira d’oiro
Nas pestanas…
Embati de novo contra a lâmpada
Vermelha das noites estonteadas
Pelo zumbido dos insectos…
Decifrei - a custo – uma inscrição
Gótica nos veios da madeira
Da cómoda, mas sem saber ao certo,
Se a deva tomar como um testemunho
Da progressão do caruncho,
Ou se apenas, como mais uma maliciosa
Partida do meu punhal malaio…
Finquei os dedos no dossel
Do cadeirão, apertando-o
Até ele sussurrar o nome
De São Cristóvão
Isto a propósito do debate
Metafísico
Entre os ramos das árvores
E os pardais, evidentemente…
Sorvi uns decilitros de chá verde
Com a convicção própria de quem
Mergulha num poço onde
Se reflecte o luar…

E deixei-me cair no divã
Exausto por mais esta galopada
Imóvel pelos descampados
Das alcatifas,
Por estes telhados loucos
Como teclados de órgãos
Tangidos por algum frade
Possesso do demónio…






segunda-feira, 22 de maio de 2017

EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS - 1



[* Poema extraído do volume publicado em 1985 pelas Edições MIC (Estoril)]

A Sabedoria da Aranha*



Os que se movem sobre arames tensos
Em praças inundadas de povo
Ao rufar dos tambores locazes;
Os que praticam o ritual´
Do fogo nas crateras dos vulcões;
Os que sabem extrair profecias
Das pirâmides de algarismos;
Os que cruzam os mares
Boreais em veleiros de madre-pérola;
Os que se vestem de vento e de espuma
Nas dunas incertas da memória;
Os que se despedem todas as manhãs
Da claridade diurna, mergulhando
Nos labirintos de quartzo e feldspato;
Os que escutam imóveis as harmonias
Das esferas;
Os que recobrem suas faces com
As máscaras articuladas dos espíritos
Da selva;
Os que se transmutam dentro dos cadinhos
De porcelana dos corpos virginais;
Os que imitam o piar das aves nocturnas
Para desorientar os caçadores;
Os que devolvem as sementes à terra
Com gestos de sacerdotes;
Os que domesticam a sua própria
Sombra nas paredes anémicas dos asilos;
Os que tocam sempre o mesmo realejo
Debaixo das mesmas árvores, das mesmas
Ruas, dos mesmos bairros, das mesmas
Cidades;
Os que inventam festins e palácios e
Jardins e bailes sumptuosos sentados à mesa
De uma taberna sombria;
Os que lavam a roupa na água
Turbulenta dos riachos da serra;
Os que sopram as candeias depois
De todos se terem recolhido a seus quartos;
Os que moem o trigo;
Os que amassam o pão;
Os que o cozem em fornos de lenha;
Os que o movem sem um prévio ritual
De gestos rápidos, olhares furtivos e lábios mecânicos;
Os que desenham um sorriso
Quando se cruzam com namorados
Num jardim;
Os que não contabilizam as boas acções
Numa agenda ensebada;
Os que assobiam canções enquanto esperam
pelo eléctrico;
Os que tomam «actínia» pelo nome
De uma flor exótica;
Os que sonham de olhos abertos;
Os que roubam frutos nos pomares;
Os que riem com os olhos;
Esses,
Esses compreendem que quero dizer
Quando afirmo
Que…
«A poesia deve ser feita por todos.
Não por um» (Lautréamont)