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segunda-feira, 22 de junho de 2026

HÁ SEMPRE UM MOZART DESCONHECIDO [SEGUNDAS-F. MUSICAIS Nº63]


(Acima) Retrato a óleo de Mozart, ao piano, aos 14 anos



- Traduzi parte do comentário apenso ao vídeo acima:


«O QUINTETO EM MI BEMOL MAIOR PARA PIANO E INSTRUMENTOS DE SOPRO, K. 452, foi completado por Mozart em 1784 e estreado dois dias depois, no Teatro Imperial em Viena. Pouco tempo depois da estreia, escreveu ao seu pai que "Eu próprio considero que é a melhor coisa que escrevi em toda a minha vida". A distribuição das partes é a seguinte: piano, oboé, clarinete, trompa e fagote. 
Compõe-se de três andamentos:
1. Largo - Allegro moderato
2. Larghetto
3. Allegretto

A sua estrutura assemelha-se à da sonata típica. No primeiro andamento (Largo-Allegro), o Allegro está escrito na forma sonata, com os temas a serem passados dum instrumento para o outro, sendo o piano o introdutor dum tema e assumindo depois o papel de acompanhador, quando o oboé, a clarineta e o fagote realizam as suas respectivas variações sobre esse tema. O Larghetto é um andamento típico, análogo dos 2º andamentos doutras peças de Mozart, suave e gentil, que atrai a atenção. O Allegretto assume a forma de "sonata-rondó" do mesmo estilo que Mozart utilizou como andamento final em muitos dos concertos para piano que escreveu nesse período e contém uma cadenza - escrita por Mozart - próximo do fim.
Esta peça foi inspiração para o Quinteto em Mi bemol para Piano e Sopros, Op. 16 de Ludwig van Beethoven que escreveu a sua peça enquanto homenagem, em 1796. A composição de Beethoven utiliza os mesmos instrumentos que a de Mozart.»

Comentário de Manuel Banet:

A beleza divina desta peça, excelente exemplo de escrita musical do Classicismo, brilha em cada uma das suas partes. Mas, o excecional está na integração perfeita de cada instrumento no conjunto. Porém, esta formação instrumental é pouco usual na música dessa época. O diálogo do piano com os vários instrumentos de sopro surge com perfeita naturalidade.
Consigo imaginar Mozart ao piano, introduzindo os temas e dialogando com os instrumentos de sopro.
Uma peça bem humorada, interpretada com perfeição e equilíbrio pelos elementos do quinteto.

PS: Um manuscrito desconhecido, contendo autógrafos de Mozart,  foi descoberto recentemente na Bibliothèque Nationale de Paris. Um pequeno livro com partituras manuscritas.  O conteúdo estaria relacionado com as lições que Mozart deu, durante sua estadia em Paris, a uma jovem «estúpida e preguiçosa». Veja AQUI.



MAIS INFORMAÇÃO SOBRE MOZART











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terça-feira, 1 de novembro de 2016

O QUE DIZ A ARTE SOBRE NÓS PRÓPRIOS?


As proporções do corpo humano devem ter interessado a humanidade desde tempos imemoriais. 
No entanto, a partir das primeiras civilizações, Suméria, Babilónica, Egípcia e Grega… formam-se cânones, os quais correspondem a uma forma estilizada e ideal do corpo.
Nomeadamente, o tamanho da cabeça em relação ao corpo costuma seguir uma proporção de 1:8 no homem adulto

                    

Porém, no bebé recém-nascido, essa proporção corresponde a 1:4.
A representação do recém-nascido ou do bebé de poucos meses, na pintura medieval, não obedece à proporção «natural». Porém, custa-me a acreditar que se trate de ingenuidade, de falta de rigor (na observação e no desenho) ou mesmo de indiferença da parte dos artistas dessa época.

Penso que se trata antes de uma escolha deliberada, na medida em que estão representando o sagrado, o Deus feito homem, no corpo de Jesus Cristo.                                      
Segundo a sua simbólica, os personagens mais importantes deviam ser representados com dimensão maior, independentemente das leis da perspetiva (que não ignoravam, mas que eles, simplesmente, não aplicavam na representação do sagrado).
Dentro da mesma lógica, o Deus-menino tinha de ter as proporções perfeitas, porque o seu corpo era o corpo de Deus feito humano.
                                 
«A Virgem com o Menino», da Basílica de Santa Sofia de Istambul (século IX) apresenta-se sentada num trono, com um «menino» que é uma imagem de adulto em ponto pequeno.
Os estudos de anatomia de Dürer e de Leonardo da Vinci, para apenas citar dois grandes mestres, eram de excecional qualidade e suas observações continuam a ser estudadas, no que toca à representação do corpo humano, por estudantes de artes plásticas.
          

Por muito originais que fossem, eles não eram os únicos que se dedicavam a estudar as proporções do corpo humano. Eram típicos da época (finais do Séc. xv, início de Séc. xvi), em que houve um grande movimento de interesse pela realidade e pelo rigor na representação do corpo humano.
O realismo surge na pintura ocidental, inicialmente pela emulação em reproduzir as obras clássicas - gregas e romanas - o cânon correspondente. Mas depois, emancipa-se dessa  filiação clássica….
O francês Georges de La Tour é cerca de um século posterior a Dürer e Da Vinci - ele tem uma preocupação muito grande de representar a verdade dos corpos, de forma anatomicamente correta.

Não só o bebé tem - de facto- as características anatómicas dum recém-nascido (enfaixado, como era hábito na sua época), como a mãe que o segura, pode ser  simplesmente uma camponesa, mesmo que façamos a leitura da Virgem Maria com o Menino Jesus.


Mas o maneirismo e o início do barroco, sobretudo na península Ibérica, elegem a deformação ou alteração das proporções como forma de exacerbar um efeito.    
                        
 Este alongamento é mais patente em El Greco (em finais de séc. XVI e no início do Séc. XVII). Porém, é também muito frequente na mesma época, nos  grandes espaços de palácios e igrejas: estes espaços possuem grandes frescos, visíveis duma determinada perspetiva, em geral de baixo para cima, como é o caso dos tetos e paredes altas. Nestes casos, a forma tem em conta o efeito de perspetiva, mas também o acentua por vezes, para dar um efeito em «trompe l’oeuil». 
O maneirismo e o barroco (final do séc. XVI e primeira metade do século XVII) foram exatamente os períodos em que se procurou uma expressividade nos corpos, não apenas nas suas posturas, como também na alteração das suas proporções. Estas representações eram vistas como verdade mística, moral e subjetiva, acima das proporções puras ou clássicas da anatomia.
Pela segunda metade do século XVIII, este modo de representação exacerbado vai corresponder ao estilo rococó.
O classismo, que se lhe seguiu, corresponde a uma reação de retorno ao cânon clássico, no último quarto do século XVIII, o qual se prolonga até ao século XIX, com o gosto napoleónico pelos modelos do Império Romano.
                   

Só no início do século XX, com o cubismo, o expressionismo, o modernismo e várias estéticas em concorrência, nas diversas vanguardas que se sucedem, tomam os artistas grandes liberdades em relação às proporções do corpo humano e em relação às leis da perspetiva. 
                                                                 







Essa mudança radical na representação é muito influenciada pela «descoberta» e admiração da arte dita primitiva (arte dos povos de África, América e Oceânia, principalmente).