sexta-feira, 20 de maio de 2016

SONHO 12: Fantasia em Fá menor Op.49, Chopin






Num subterrâneo mundo, onde as águas são iluminadas por debaixo, vogam algumas canoas com misteriosos movimentos ondulantes, muito suaves. Tudo o que se pode entrever do local é adivinhado aquando de brevíssimos clarões azulados, que mostram instantâneos de cenas petrificadas. 
Homens nus reclinados, com a cabeça rapada, deixam-se transportar nas canoas. Estas movem-se sem nenhum gesto de seu passageiro. Cada canoa acosta, sucessivamente, a um pequeno cais. Aí, mulheres muito belas, nuas, vistas de costas, entram sucessivamente, uma em cada canoa. Afastam-se e perdem-se as suas silhuetas no fundo da gruta, que é afinal um rio subterrâneo, que serpenteia por debaixo da terra, silencioso. 

Agora estou numa dessas barcas. Ela dirige-se a uma abertura ao longe, enquadrada pela vermelhidão de archotes. O rio subterrâneo desemboca numa enseada. Observo a paisagem calma da noite com estrelas e sem luar. Oiço claramente o ruído suave da onda a lamber a areia da praia. O vai e vem da maré deixa um rasto fosforescente, desenhando um contorno sempre em mudança a cada ondulação levemente esboçada no limiar das águas. 

Os vultos que caminham desde umas rochas a uns duzentos metros, vão-se aproximando do ponto onde me encontro. Todo o grupo está silencioso, apenas se ouve o ruído do chapinhar da água ao nível de seus calcanhares, pernas, coxas e por fim, mergulham, num deslizar calmo. Nadam longamente, mas a uma distância curta do ponto onde estou. 

Emergem por fim e aproximam-se da praia, fosforescentes, corpos esplêndidos, bem proporcionados, apenas se distinguindo o seu contorno. Tudo é magnífico e nada assustador. Estes corpos espectrais passam perto de mim, mas sem notar-me.

O sonho deixa-me uma sensação de alegria serena; estou envolto num halo de luz e contemplo o céu estrelado, com profunda gratidão.