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sábado, 2 de maio de 2026

A CONQUISTA DE ORMUZ POR ALBUQUERQUE NO SEC. XVI

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COMENTÁRIO

 Já  no século  XVI era perfeitamente claro que Ormuz correspondia a deter a chave das rotas comerciais do Oriente.

Porém, com todo o seu poderio, a sua armada, os soldados e os canhões, o Império Português do Oriente, não durou sequer um século (cerca de 1515 - 1580). Logo, este império marítimo se desmoronou, tanto pela incapacidade da coroa portuguesa fornecer adequada guarnição e munição às numerosas fortalezas que marcavam as etapas das conquistas dos pontos-chave, como pela desastrosa derrota de Alcácer-Quibir em Marrocos, em que o exército português foi esmagado pelo exército muçulmano. Nesta batalha, D. Sebastião rei de Portugal desapareceu; presume-se que terá morrido durante a mesma; seu corpo nunca foi identificado e resgatado. Um breve reinado do Cardeal D. Henrique, tio de D. Sebastião, não havendo herdeiro designado, foi sucedido por Felipe I de Espanha. Este argumentou da sua legitimidade ao trono de Portugal. As cortes portuguesas aceitaram esta solução em detrimento de D. António Prior do Crato. Em pouco tempo, Portugal - embora mantendo o estatuto de reino independente de Espanha - foi reduzido a reino subordinado. Assim, numerosos navios de guerra portugueses foram enviados com a «Invencível Armada», para as costas de Inglaterra, onde foi desbaratada por uma terrível tempestade, além dos canhões da armada de Inglaterra. 
As praças-fortes costeiras, que Portugal tinha conquistado para manter o seu Império e controlar as rotas marítimas, foram sendo tomadas,  por ingleses (caso de Ormuz), franceses ou holandeses (várias zonas do Brasil).
A primeira metade do século XVII, foi a época da perda de grande parte do poderio, na base do seu Império marítimo. Este proporcionou a exploração das riquezas do Oriente: Ouro, prata, sedas, especiarias, marfim, porcelanas... Esta abundância foi, em grande parte, esbanjada pelos reis portugueses e pela nobreza, que se limitavam a reencaminhar as mercadorias recebidas no porto de Lisboa, para o Norte da Europa. Assim, os Estados da Flandres (hoje Bélgica), os Países Baixos, Hamburgo e outras Cidades-Estado do Báltico, receberam os frutos das conquistas e pilhagens portuguesas. Nestes, se desenvolveu a primeira fase de capitalismo industrial, graças àquele excedente. Os reinados portugueses da época áurea, pouco fizeram para consolidar suas conquistas. Muitas praças-fortes estavam mal guarnecidas de soldados e as fortificações careciam de reparações. Estes factos foram relatados por cronistas portugueses da época. 
O Império português foi refúgio para uma parte da comunidade judaica: O cumprimento das leis contra os judeus e hereges era muito menos estricto, devido à distância e à necessidade de fazer funcionar as instituições em Goa, capital do Vice-Reino da Índia Portuguesa. 
Os ingleses não teriam tanta facilidade em construir o seu próprio império marítimo, se não tivessem podido tomar muitas das praças-fortes portuguesas. Assim, puderam continuar relações comerciais que os Vice-Reis da Índia portuguesa tinham estabelecido com monarcas dos vários reinos da Índia.
A influência portuguesa no Oriente não se apagou completamente, havendo traços culturais (línguísticos, artefactos, culinária...) que sobreviveram, muito para além efetiva colonização portuguesa desses lugares. Por outro lado, Portugal viu o seu património artístico e artesanal enriquecido com adaptações/inovações de países orientais, em vários domínios: o mobiliário, a escultura, os tecidos, a doçaria, as porcelanas...
 

quinta-feira, 21 de junho de 2018

DESCOBRINDO A MÁ CONSCIÊNCIA DO PASSADO


                        


A forma como o regime de Salazar transformou a expansão marítima e a colonização em epopeia dos «descobrimentos», é realmente um panegírico político para justificar o imperialismo português, que existiu entre finais do século XV e Alcácer Quibir (1578), pois assim podia «unir» em torno da ditadura os colonialistas de «esquerda» (republicanos) e de «direita» (monárquicos) da época. 

Mas será isso um bom pretexto para se rejeitar o conhecimento deste período da história de Portugal? Será razão para não se ver, objectivamente, que os princípios e valores que norteavam as pessoas de há cinco ou seis séculos atrás, nada têm a ver com a mentalidade actual e com o modo como concebemos a democracia, os direitos humanos, a igualdade, o anti-racismo? 

As viagens portuguesas tinham como objectivo claro e explícito, não apenas o comércio, mas a conquista, o ganhar terras para o rei de Portugal. 
Os homens que capitaneavam as expedições possuíam motivos tudo menos nobres, na verdade: ambição política, ganância, redourar o seu brasão ... Porém, nada disto é justificativo da forma absurda como se coloca a questão, ao nível verbal, ao nível de terminologia... É absurdo termos má consciência colectiva por aquilo que fizeram os homens que iam nas caravelas ou, aliás, por todos os que pertencem à nossa História. 

É triste que pessoas supostamente bem informadas sobre as viagens dos portugueses e sobre a sua importância para o Renascimento e para o advento da era moderna, se ponham a fazer - simetricamente aos salazaristas e aos arautos políticos do passado - um «debate» que é apenas centrado nos horrores, violências, a escravatura, etc. que acompanharam ou seguiram de perto os «descobrimentos». 

Também é irrelevante que se fale de viagens, em vez de descobrimentos: toda a gente sabe que quase todas essas terras eram povoadas, que muitas tinham civilizações, em muitos aspectos superiores às dos «descobridores». É que o termo foi usado na perspectiva do homem europeu... terras por descobrir pela civilização cristã, europeia, ocidental. Igualmente, quando se falava de «dar a conhecer ao mundo», era dar a conhecer ao SEU mundo.  

Podia-se fazer, sem nacionalismo, sem paternalismos pós-coloniais e sem estúpidas culpabilizações colectivas, uma abordagem do fenómeno da expansão ultramarina de Portugal. 
É realmente uma porta adequada para se perceber o ascenso do primeiro globalismo,  do capitalismo mercantil, das primeiras empresas monopolistas, do envolvimento ou proteccionismo do Estado nesses empreendimentos. 
Mas, igualmente, constitui uma mudança radical na filosofia, pela mudança na forma de abordar o outro. 
Ou enquanto primeiro e óbvio triunfo da ciência e da tecnologia ocidentais: os exemplares de plantas, animais e minerais trazidos eram analisados e descritos em termos racionais; as próprias ciências da navegação e ciências associadas (geografia, astronomia, etc.) foram decisivas para as viagens.

Creio que a redução das questões relacionadas com a expansão portuguesa a meras guerras de capelinhas políticas e confrontos verbais estéreis mostra como a «elite» que escreve colunas de opinião nos jornais e fala nas tvs está completamente caduca. Dêem oportunidade a pessoas com cultura verdadeira, para que elas tenham acesso à palavra.
Não existe democracia, qualquer que seja o significado dado a esta expressão, num país onde um pequeno grupo (sempre o mesmo) tem acesso ilimitado aos meios de difusão contemporâneos do pensamento (os media), podendo constantemente despejar sobre o público todas as inanidades, todas as cretinices; no mesmo momento, quem tenha realmente conhecimento sobre os assuntos e com algo de interessante a dizer, fica irremediavelmente afastado.