domingo, 8 de maio de 2016

O FLUIR DA MENTE

                                                  
                                                                                    

Quando tudo já passou, quando já não se está perante o autor em carne e osso, como se pode apreciar o seu íntimo pensamento, o seu «bafo», a sua palpitação? É apenas um eco, eco esse que ressoa no teu/meu coração e mente, como sempre ressoam as coisas profundamente humanas. 
A poesia é música, a boa literatura em geral, também o é: mas, em vez de apenas se contemplar a nossa imagem ao espelho - a nossa produção - tenhamos o bom-senso e coragem de a expor ao critério de pessoas anónimas; dar uma obra a público não é vaidade. Vaidade é a incapacidade de aceitarmos as críticas e as reações - positivas ou negativas - aos nossos escritos. 


A maturidade mede-se mais pelo nosso sentir do mundo,  do que aquilo que escrevemos ou deixamos de escrever. A reação de alguém imaturo traduz-se, em geral, por uma falta de abertura e de humildade verdadeira. 
A maturidade, por contraste, permite-nos ter consciência perfeita do quão longe do ideal está a nossa produção. 
O artista maduro apenas vê, em qualquer obra - de sua própria autoria ou de outrem -  um pálido reflexo da Divindade Cósmica: Como que um frémito de onda à superfície do pântano, um reflexo de luz estelar num espelho de água. Nosso Eu consciente é apenas o pouco que nos é dado ver. Então, dentro do oceano do nosso ser encontra-se todo o «ecossistema» que permite que aqui e acolá floresça algo.


O oceano é minha inspiração primeira e o meu refúgio. Estas ondas que eu deixo me invadam os olhos do espírito, estão para mim, realmente, tal como o vento está para o pinheiro. Para onde leva o vento as flores do pinho? Quem sabe, mas que importa, afinal? Estarão os ventos oceânicos apostados em fazer naufragar o barquito, que se deixou envolver na borrasca? Quem sabe? Assim como o mar, também o vento, seu aliado de sempre, joga com os outros elementos: Faz acontecer todas as transformações que se possa imaginar.


Basta olhar o céu, teremos o perfeito modelo da alma. A sua mutável aparência não impressiona pouco. Mas se observamos atentamente aquilo que está a acontecer, ficaremos menos impressionados? Não o creio! Vede o Sol, com os seus raios mais ou menos oblíquos, as nuvens, resultado duma acumulação de vapor de água, um ar mais puro ou então carregado de fumos ou de cheiros. O cheiro da terra, que se afirma tão forte em certos sítios, é a interação do solo e das plantas com a atmosfera...O que sinto quando olho e respiro este ar?
Uma experiência semelhante do leitor permite-lhe apreender o sentido do que estou escrevendo; não obstante, essa experiência é pessoal e intransmissível!