A genética das populações está vocacionada para avaliar a frequência dos genes numa população, não tendo vocação para o detalhe da transmissão de genes, de indivíduo a indivíduo. Também não investiga sobre as formas fenotípicas em si, decorrentes da expressão desses genes. A não ser que esta transmissão e estas formas fenotípicas sejam relevantes na distribuição ou frequência dos referidos genes na população.
No campo da paleoantropologia, a possibilidade duma «genética das populações» extintas há cerca de 30 mil anos, como os neandertais, era considerada "ficção científica", até há bem pouco tempo.
Com o desenvolvimento de técnicas de extracção e sequenciação de ADN de fósseis (ADN antigo), a situação alterou-se radicalmente: Agora, com os dados que se dispõe, é possível emitir hipóteses pertinentes e testá-las com as sequências genéticas de neandertais (e outras) que se vão acumulando.
Parece-me relevante (aliás, já o tinha apontado em artigo anterior) o seguinte: O fraccionamento dum grupo em pequenos bandos separados não vai originar, por endogamia mais intensa, uma descendência enfraquecida geneticamente, mas antes contribui para a diferenciação mais rápida de certas características.
Cada pequeno grupo isolado seria como um "laboratório de experiências genéticas".
Dentro de cada sub-população, a selecção darwiniana continua a exercer-se, só podendo viver e reproduzir-se aqueles indivíduos com boas condições para enfrentar as agruras do ambiente e excluindo os inadaptados. Neste contexto particular, a frequência de genes nocivos ou desfavoráveis seria muito baixa e apenas reflectiria a taxa intríseca das mutações produzindo os traços desfavoráveis.
Por outras palavras, as populações - em condições ambientais severas - estavam sujeitas a uma selecção tal, que os genes causando handicap, caso surgissem, teriam uma frequência muito baixa; a capacidade de sobrevivência do grupo, enquanto tal, não era posta em causa.
Mas, cabe aos especialistas na matéria exercer sua análise crítica sobre a hipótese apresentada no vídeo: Nos ambientes diferenciados, as populações fragmentadas sofrem uma deriva genética* e uma rápida diferenciação anatómica.
Mesmo que dados futuros revelem outros aspectos diferentes, vale a pena emitir hipóteses compatíveis com os dados já conhecidos e com o saber acumulado em genética das populações.
Será este o caminho para se encontrar a explicação do mistério do desaparecimento dos neandertais.
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* deriva genética: os genes são seleccionados ou perdidos devido ao acaso, pela composição dos indivíduos na pequena população.
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3 comentários:
Os neandertais, contrariamente à fábula, não eram uma espécie de «sub-humanos». Eram humanos de outra espécie, a qual teve a capacidade de enfrentar e subsistir durante períodos duríssimos de glaciação no contiente euroasiático. A sua inteligência era em tudo comparável à dos humanos sapiens, somente os neandertais estavam num contexto onde se jogava a sua sobrevivência. Os sapiens estavam no Norte de África e bacia do Mediterrâneo, em que as condições climáticas eram muito mais amenas.
https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2021/07/descoberta-escultura-com-51-mil-anos.html
Outro exemplo impressionante de arte neandertal, a gruta Bruniquel (França):
https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/2019/06/trabalhos-dos-neandertais-na-gruta-de.html
A descoberta de uma mandibula de neandertal, com a dentição quase completa, permitiu a extração de ADN que foi datado em cerca de 50 mil anos. Os dados apresentados neste documentário vêm reforcar um modelo de extinção por fragmentação das comunidades de neandertais.
https://youtu.be/CKkUqYS8t0s?is=U7_fmRUHztc3KEoL
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