Estes dois bardos, que se tornaram célebres e foram uma luz de esperança para a juventude de seus países respectivos, tiveram tempos de vida muito diferentes:
Vladimir Vysotsky morreu em 1980, com apenas 42 anos. Mas sua memória eternizou-se. Há artistas, profissionais ou amadores, que continuam a cantar as suas canções, passados 45 anos da sua morte.
Culpa do homem, culpa do vento Como o homem que vê na agoniaQue jamais terá tempo jamaisUm dia mais e poderia cantarCulpa do destino, culpa da sorte
Culpa das cordas que se partiramO seu canto chama-se silêncio
Pode sempre entoá-loNinguém virá jamais dançarNem repetirá o refrãoEle nunca acabou nadaÀ parte esta ferida no coraçãoE esta vida.PorquêGostava de saber, porquê, porquêVem demasiado cedo, o fim do baileSão os pássaros, nunca as balasQue se atinge em pleno voo.
Como discussões iniciadas ao serãoCulpa da noite, culpa do álcoolE de que só apenas restarão
Algumas beatas pelo chãoEle teve tanta vontade de golpear, porémCulpa da faca, culpa do medoNão houve sequer combate sangrentoEle apenas verteu um pouco de suorEle, que desejou tudo saberNem pôde sequer tudo verEle, com o amor no corpo
Pela única que guardariaRetornou a sua barca ao portoSem a beijar, sem a tocar
Só pensando nela até morrer[Refrão]
Escrevia como nos escapamos dum logroCulpa do Sol, culpa dos tormentosMas como usava neve como papel para escrever
As suas ideias derretiam na primaveraPorém, a neve cobria a sua páginaCulpa das geadas, culpa do invernoEm vez de escrever tentava, coragemDe apanhar os flocos no arMas hoje, é demasiado tardeEle não pode decidir-se a partirE a sua recordação será apenasE só a canção de antes da lutaDo evadido que não conseguiuAlcançar o seu fim.Porquê,
Gostava de saber, porquê, porquêVem demasiado cedo o fim do baileSão os pássaros, nunca as balasQue se atinge em pleno voo
PS1: Versão do poema em russo e tradução francesa, por Maxime le Forestier + Um comentário do próprio Vysotsky, sobre o contexto dramático desta canção. A não perder:
O bardo Vysotsky, prematuramente desaparecido em 1980, com apenas 42 anos, era uma espécie de Jacques Brel soviético, cantor/autor e também actor, que foi muito conhecido e reconhecido para lá da sua morte, embora em vida também fosse muito amado e acompanhado pelo público russo e internacional. O seu estilo como cantor, aparentemente rude, é resultante de uma forma intermédia entre fala e canto. Ele possuía uma voz de baixo-barítono, que ele manipulava com destreza para simular todos os sentimentos. A sua voz e criatividade colocam-no numa posição única.
Mas, especialmente único, também é Charles Aznavour, desaparecido há bem pouco tempo, e cuja carreira tanto de cantor como como de autor, é completamente ímpar, tal como a de Vladimir Vysotsky. Não digo isto por ser uma das mais longas carreiras que jamais existiram, mas porque foram os seus contributos para a canção francesa de meados do século XX tão importantes, que se tornou referência incontornável de autores mais jovens e de interpretes, que têm retomado muitas das canções que deixou.
Ambos interpretam aqui uma canção cigana, «Duas Guitarras», que evocam as agruras do «filho pródigo» confrontado com o fracasso das suas ambições e se refugia na embriaguês. Uma temática bastante triste, mas quase alegre, devido ao seu final com andamento endiabrado...