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segunda-feira, 10 de junho de 2024

FERNANDO LOPES GRAÇA: A REDESCODERTA DAS RAÍZES (Segundas-f. musicais nº4)

 
                                  https://www.youtube.com/watch?v=MyBhmkiPxVc&t=1204s

A obra de Fernando Lopes Graça é impar. Mas, é-o por direito próprio. Não por ter tomado posições corajosas contra o regime de Salazar. Na verdade, ele foi severa e injustamente castigado por não se ter conformado à mediocridade e hipocrisia nacionais, durante cerca de meio século. Eu louvo isso!

                                      https://www.youtube.com/watch?v=38VvC1AzdkE
«Ronda», com letra de João José Cochofel, do primeiro álbum de canções heroicas editado pouco depois do 25 de Abril

As «Canções Heroicas», foram compostas em colaboração com grandes nomes da poesia portuguesa e utilizando textos com claras conotações antifascistas, na maior parte. Mas, elas têm uma rara qualidade em si mesmas, enquanto textos poéticos e composições musicais. Digam o que disserem, é um marco impossível de menosprezar na nossa herança cultural.

Lamentavelmente, eu não sou a pessoa adequada para fazer a análise aprofundada das suas composições para conjuntos instrumentais. Sei que ele foi um ímpar executante do violoncelo e que produziu abundante obra para orquestra, ou conjuntos de câmara.

Mas, o que posso realçar aqui, é o seu contributo, juntamente com outros (nomeadamente, de Michel Giacometti), para a recolha, o registo em fita magnética e a harmonização de cantares do povo, do Norte a Sul, de Leste a Oeste.

                                      https://www.youtube.com/watch?v=GOAwRd41fGE

Lopes Graça e Giacometti fizeram-no num período - principalmente, nas décadas de 40 a 60 do século passado - em que as tradições musicais rurais ainda estavam vivas, faziam parte do quotidiano dos trabalhos agrícolas, mas também de momentos especiais da vida comunitária (O Natal, as Janeiras, o Carnaval, a Semana Santa e a Páscoa, etc): Eram tais momentos da vida comunitária acompanhados por cânticos de transmissão oral. Inspirando-se diretamente nas formas corais populares, Lopes Graça compôs peças de agreste beleza. É o caso do Esconjuro * interpretado pelo Coro de Câmara de Lisboa:

                                            https://www.youtube.com/watch?v=CNpu87dau94

As harmonias recorrem a métodos arcaicos de polifonia, como o fabordão, a sucessão de quintas paralelas, ou duas vozes que evoluem em intervalos de terças ou de quartas. As melodias apresentam frequentemente formas melismáticas, originárias da tradição árabe ou judaica, por via dos marranos.

O folclore de raiz, em Portugal, sofreu muito com a difusão da rádio nos meios rurais: muitas melodias supostamente «populares», resultavam afinal da cópia ou transposição de canções de «revistas»: Os espetáculos do Parque Mayer, onde se apresentavam comédias musicais. A estas, os camponeses certamente não tinham oportunidade de assistir. Mas, eram transmitidos excertos pela rádio, com as passagens de maior sucesso.

Também a tradição do canto religioso diminuiu de qualidade com a incultura dos membros do clero, que deixaram de ter, em muitos casos, formação em canto litúrgico digna desse nome.

Desde o 25 de Abril de 74, alguns grupos, formados por jovens urbanos, mas com interesse em revisitar as raízes rurais, têm feito reviver este rico património. Oxalá que exista um renovo de interesse pela música folclórica genuína. 
Lembro igualmente os cantores/autores impulsionadores da redescoberta desse riquíssimo património: José Afonso, Vitorino, Adriano Correia de Oliveira e outros. São exemplos notáveis de apropriação construtiva dos tesouros da música tradicional portuguesa.

No fim de contas, a herança deixada pelo Mestre Fernando Lopes Graça perdura e estende-se muito para além da música erudita: Boa parte da música popular portuguesa inspirou-se no seu trabalho etnográfico e de divulgação do folclore autêntico de Portugal.
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* Letras dos três esconjuros, postos em música por Lopes Graça. 

3 esconjuros

contra os maus encontros

vamos embora à alvinha do dia
a deus me encomendo e à virgem maria
e à santa bela cruz
que me guarde de cão danado
e por danar

de homem vivo, inimigo
de homem morto, mau encontro
de águas correntes, fogos ardentes

nosso senhor nos livre das bocas de má gente



contra os maridos transviados

deus te guarde sol divino
que corres o mundo inteiro
viste lá o meu marido?
se tu viste não mo negues!
não mo negues! não negues não!

que esses raios que vais deitando
ao seu nascimento
sejam dores e facadas
que atravessem o seu coração

que ele por mim endoideça
não possa comer
nem beber
nem andar
nem com outra mulher falar
nem em casa particular
que todas as mulheres
que ele veja
lhe pareçam cabras velhas
e bichas feias!

só eu lhe pareça bem no meio delas



contra as trovoadas

santa bárbara de alevantou
se vestiu e se calçou
suas santas mãos lavou
e o caminho do céu andou

lá no meio do caminho
a jesus cristo encontrou
-para onde vais? bárbara vais?
eu não vou nem quero ir,
mas ao céu quero subir
- vou arramar aquela trovoada
que lá anda, lá anda armada

arrama-a bem arramada
lá prós lados do marão
no alto cerro maninho
onde não há vinho nem pão
nem bafo de menino
nem berrar de cordeirinho

só há uma serpente
com 25 filhas
que lhes dá água de trovão
e leite de maldição




quarta-feira, 19 de julho de 2023

REPÚBLICA DOS POETAS nº2 . José Gomes Ferreira

 José Gomes Ferreira, poeta militante, num misto de poesia lírica e heroica, adota o tom perfeito para nos falar ao ouvido, como o faria nosso avô... 


Sim, tudo isto e muito mais, se poderia dizer e disse, porventura, nas homenagens ao poeta... depois de morto. Pela minha parte, lembro-me, adolescente, do maravilhamento ao ouvir discos vinil da Philips, com as gravações de poesias ditas pelo próprio poeta. 

Sem dúvida, houve compositores célebres e talentosos que musicaram alguns dos seus poemas, por exemplo, Manuel Freire ou Fernando Lopes Graça. Eles puseram o seu talento ao serviço de uma palavra que nos soava como profética, aos adolescentes dos anos 60. Num certo sentido, a profecia realizou-se e ... foi traída, como todas as utopias (que literalmente querem dizer «sem lugar onde»).

 Ele, José Gomes Ferreira e a sua obra, serão sempre membros ilustres da República dos Poetas. A propósito, descobri - há muitos anos - que o melhor método para as «autoridades» se verem livres de autores, artistas, ou outros personagens incómodos é erigirem-lhe estátuas, darem-lhes nomes de ruas, etc. , mas claro, depois de mortos e sem divulgação da sua obra junto da juventude.

Felizmente, para mim e pra outros gatos vadios, a poesia verdadeira não se vende, não se promove com reuniões de socialites, não entra em círculos snobs ou em feiras de mau gosto televisivo... 

A poesia dá-se.

Querem a prova do que acabo de dizer?  

 BALADA DUMA HEROÍNA QUE EU INVENTEI - poema de José Gomes  Ferreira

Vais morrer com a saia rota,

sem flores nos cabelos...

— Mas isso que importa

se depois de morta

ate as mãos da terra

hão-de florescê-los?

 

Vais morrer de blusa no fio,

sem laços nas tranças...

— Mas isso que importa

se depois de morta

até as mãos do Frio

penteiam as crianças?

 

Vais morrer espantada na rua,

sem fitas nos caracóis...

— Mas isso que importa

se depois de morta

até as mãos da lua

enfeitam os heróis?

 

Vais morrer a cantar numa esquina,

de sapatos velhos...

— Mas isso que importa

se depois de morta

continuarás a ser a menina

que nunca teve espelhos?

 

Vais morrer com olhos de águia presa

e meias de algodão...

— Mas isso que importa

se depois de morta

a tua beleza

não caberá num caixão.

E há-de rasgar a terra

e romper o chão

como uma primavera

de lágrimas acesa

que os homens atiram, em vão,

para a natureza?


(in Poeta Militante, 1º. Volume, Moraes Editora)


                                                https://www.youtube.com/watch?v=asx4B3hueK4


Dulcineia, Dulcineia,
volte ao que era:
uma plebeia
sem primavera

Volte aos redis,
coberta de chagas
— sem espuma em gomis
nem brilho de adagas.

Volte ao que foi,
pois ainda conserva
um cheirinho a boi,
um cheirinho a erva…

Volte a apanhar pinhas
e bosta para os fornos.
E a tanger cabrinhas
com flores nos cornos.

Volte a andar de gatas
como os outros bichos…
E esqueça as serenatas
aos seus caprichos.

Esqueça o castelo
onde os donzéis
se batiam em duelo
à século XVI…

E volte à aldeia
da sua labuta.

Dulcineia, Dulcineia,
deixe de ser Ideia
e torne-se a carne e a alma
da nova luta.

(de A Morte de D. Quixote, in Poeta Militante / Viagem do Século Vinte em Mim – 1º volume, Moraes editores, 1977 – Círculo de Poesia)

https://www.youtube.com/watch?v=gtp0kdmdRAE



Acordai, homens que dormis

a embalar a dor nos silêncios vis!

Vinde no clamor das almas viris,

arrancar a flor que dorme na raiz!

 

Acordai, raios e tufões

que dormis no ar e nas multidões!

Vinde incendiar de astros e canções

as pedras e o mar, o mundo e os corações…

 

acendei, as almas e de sois

este mar sem cais, nem luz de faróis!

E acordai, depois das lutas finais,

os nossos heróis que dormem nos covais.

 






sexta-feira, 7 de abril de 2017

ABRIL. ACORDAI !!!

Extraordinário poema de José Gomes Ferreira, musicado por Fernando Lopes Graça, foi um dos grandes trechos de apelo da resistência ao fascismo que durou 48 anos neste Portugal. 

Mas o cântico coral em geral, é um dos maiores exercícios de cidadania, de autodisciplina, de solidariedade, de altruísmo. 





Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

Música: Fernando Lopes Graça
Poema: José Gomes Ferreira
Interpretação: Coro de Câmara Lisboa Cantat.