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segunda-feira, 27 de abril de 2026

A CANÇÃO DE ABRIL DE 74 [Segundas-f. Musicais nº57]



«Maré Alta» (Letra/Música: Sérgio Godinho)

                                          https://www.youtube.com/watch?v=vTJQmkcoCdA
 

                                   Grândola, Vila Morena (canção alentejana - Zeca Afonso)


                                 Porque (Poema: Sophia Mello Breyner, música: Francisco Fanhais)


Todo o mundo é composto de mudança (José Mário Branco; adaptação de Camões)
 
                                          https://www.youtube.com/watch?v=0hZ8ygJoCPM

Tango dos pequenos burgueses (Letra/Música de José Joerge Letria)

                                          https://www.youtube.com/watch?v=02VWuSxKrJU


Pedra Filosofal (Manuel Freire música, poema António Gedeão)*






Pouco depois do 25 de Abril de 74, no Pavilhão dos Desportos de Lisboa, o palco encheu-se com cantores da resistência ao fascismo. Muitos nomes eram nossos conhecidos. Muitos deles tinham sido ou silenciados pela censura, ou obrigados ao exílio.
Foi um momento único; assinalou a libertação da criatividade musical e poética. Foi um dos momentos mais altos do 25 de Abril. Não me lembro exactamente quais foram os cantores/autores que se apresentaram em palco nesse dia, mas foram muitos e diversos.
Tenho nostalgia de momentos como este, em que a juventude vibrou com a alegria vital destas canções, algumas por nós já conhecidas e que cantámos, num imenso coro.
Seria impossível neste curto artigo, dar a conhecer todos os cantores/as que participaram com a sua música e alma, na gesta - mal compreendida - da libertação de um povo.
A minha amostra é pequena, mas parece-me eloquente, tanto na qualidade musical, como no conteúdo das letras.
Queria ouvir criadores de novas melodias e textos, como os que vos deixo aqui: inspirados e populares.

RELACIONADO:

Amália Rodrigues, é a voz do fado e da poesia portuguesa ao longo dos séculos. Já era um ícone do fado, muito antes de 1974. Ela continou a sua carreira depois do 25 de Abril de 74, homenageada, apreciada por quase todos: 


(*) A letra de «Pedra Filosofal», poema de António Gedeão (Rómulo de Carvalho):


Eles não sabem que o sonho
É uma constante da vida
Tão concreta e definida
Como outra coisa qualquer

Como esta pedra cinzenta
Em que me sento e descanso
Como este ribeiro manso
Em serenos sobressaltos

Como estes pinheiros altos
Que em verde e oiro se agitam
Como estas aves que gritam
Em bebedeiras de azul

Eles não sabem que sonho
É vinho, é espuma, é fermento
Bichinho alacre e sedento
De focinho pontiagudo
Em perpétuo movimento

Eles não sabem que o sonho
É tela, é cor, é pincel
Base, fuste ou capitel
Arco em ogiva, vitral,
Pináculo de catedral,
Contraponto, sinfonia,
Máscara grega, magia,
Que é retorta de alquimista

Mapa do mundo distante
Rosa dos ventos, infante
Caravela quinhentista
Que é cabo da boa-esperança

Ouro, canela, marfim
Florete de espadachim
Bastidor, passo de dança
Columbina e arlequim

Passarola voadora
Pára-raios, locomotiva
Barco de proa festiva
Alto-forno, geradora

Cisão do átomo, radar
Ultra-som, televisão
Desembarque em foguetão
Na superfície lunar

Eles não sabem nem sonham
Que o sonho comanda a vida
E que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como bola colorida
Entre as mãos duma criança




quarta-feira, 19 de julho de 2023

REPÚBLICA DOS POETAS nº2 . José Gomes Ferreira

 José Gomes Ferreira, poeta militante, num misto de poesia lírica e heroica, adota o tom perfeito para nos falar ao ouvido, como o faria nosso avô... 


Sim, tudo isto e muito mais, se poderia dizer e disse, porventura, nas homenagens ao poeta... depois de morto. Pela minha parte, lembro-me, adolescente, do maravilhamento ao ouvir discos vinil da Philips, com as gravações de poesias ditas pelo próprio poeta. 

Sem dúvida, houve compositores célebres e talentosos que musicaram alguns dos seus poemas, por exemplo, Manuel Freire ou Fernando Lopes Graça. Eles puseram o seu talento ao serviço de uma palavra que nos soava como profética, aos adolescentes dos anos 60. Num certo sentido, a profecia realizou-se e ... foi traída, como todas as utopias (que literalmente querem dizer «sem lugar onde»).

 Ele, José Gomes Ferreira e a sua obra, serão sempre membros ilustres da República dos Poetas. A propósito, descobri - há muitos anos - que o melhor método para as «autoridades» se verem livres de autores, artistas, ou outros personagens incómodos é erigirem-lhe estátuas, darem-lhes nomes de ruas, etc. , mas claro, depois de mortos e sem divulgação da sua obra junto da juventude.

Felizmente, para mim e pra outros gatos vadios, a poesia verdadeira não se vende, não se promove com reuniões de socialites, não entra em círculos snobs ou em feiras de mau gosto televisivo... 

A poesia dá-se.

Querem a prova do que acabo de dizer?  

 BALADA DUMA HEROÍNA QUE EU INVENTEI - poema de José Gomes  Ferreira

Vais morrer com a saia rota,

sem flores nos cabelos...

— Mas isso que importa

se depois de morta

ate as mãos da terra

hão-de florescê-los?

 

Vais morrer de blusa no fio,

sem laços nas tranças...

— Mas isso que importa

se depois de morta

até as mãos do Frio

penteiam as crianças?

 

Vais morrer espantada na rua,

sem fitas nos caracóis...

— Mas isso que importa

se depois de morta

até as mãos da lua

enfeitam os heróis?

 

Vais morrer a cantar numa esquina,

de sapatos velhos...

— Mas isso que importa

se depois de morta

continuarás a ser a menina

que nunca teve espelhos?

 

Vais morrer com olhos de águia presa

e meias de algodão...

— Mas isso que importa

se depois de morta

a tua beleza

não caberá num caixão.

E há-de rasgar a terra

e romper o chão

como uma primavera

de lágrimas acesa

que os homens atiram, em vão,

para a natureza?


(in Poeta Militante, 1º. Volume, Moraes Editora)


                                                https://www.youtube.com/watch?v=asx4B3hueK4


Dulcineia, Dulcineia,
volte ao que era:
uma plebeia
sem primavera

Volte aos redis,
coberta de chagas
— sem espuma em gomis
nem brilho de adagas.

Volte ao que foi,
pois ainda conserva
um cheirinho a boi,
um cheirinho a erva…

Volte a apanhar pinhas
e bosta para os fornos.
E a tanger cabrinhas
com flores nos cornos.

Volte a andar de gatas
como os outros bichos…
E esqueça as serenatas
aos seus caprichos.

Esqueça o castelo
onde os donzéis
se batiam em duelo
à século XVI…

E volte à aldeia
da sua labuta.

Dulcineia, Dulcineia,
deixe de ser Ideia
e torne-se a carne e a alma
da nova luta.

(de A Morte de D. Quixote, in Poeta Militante / Viagem do Século Vinte em Mim – 1º volume, Moraes editores, 1977 – Círculo de Poesia)

https://www.youtube.com/watch?v=gtp0kdmdRAE



Acordai, homens que dormis

a embalar a dor nos silêncios vis!

Vinde no clamor das almas viris,

arrancar a flor que dorme na raiz!

 

Acordai, raios e tufões

que dormis no ar e nas multidões!

Vinde incendiar de astros e canções

as pedras e o mar, o mundo e os corações…

 

acendei, as almas e de sois

este mar sem cais, nem luz de faróis!

E acordai, depois das lutas finais,

os nossos heróis que dormem nos covais.