segunda-feira, 13 de julho de 2026

OPUS VOL. IV [OBRAS DE MANUEL BANET]


Simplesmente humano



Quantos sonhos despedaçados

No olhar de crianças, olhar mudo

Esperançado, como ponte humana

Para os outros, no meio da barbárie?


Quantas lágrimas de mães vertidas

Soluços de pais perante a tragédia

Tudo filmado, nada é perdido

Só se perdeu a humanidade


A insistência da propaganda

É o veículo mais perverso

Normaliza a catástrofe

Banaliza o horror


E sorvemos o veneno

Até que alguns de nós

Reproduzem a violência

No inimigo, no irmão


Alegres vão pró matadouro

Como há séculos e séculos!

A Humanidade ainda existe?

Talvez; mas não aprendeu nada!


VOLTO-ME PARA O PASSADO... 



Volto-me para o passado, não por aí encontrar sabedoria,

Não tenho ilusões sobre seus valores e as morais que pregavam

Volto-me para o passado para descobrir, teimosa procura,

Da marcha da sociedade, o que -a certa altura- descarrilou

Sem dúvida que a humanidade, no seu conjunto, não melhorou

Nem uma onça mais de sabedoria, bondade ou prudência

Isso podes constatar, cotejando o presente com o passado

Será em vão, esta procura. Aceito que ela não traz soluções

O único bem que posso extrair, é o convencimento

De que não há nada que justifique demorar-me por aqui.






Sobriedade 


Tudo aquilo que é dado ser a um homem

Seu saber, sua estrela, seu caminho

De muito pouco lhe vale, se não frutifica

Se não semeia ao vento a canção da vida




Poeta sejas como te der mais na gana

Em palavras, gestos, imagens, tu sabes

Nada se perde, tudo se transforma, dizem

Sejam teus suspiros por alma ou pão




Quem diz que a arte é vã, nada cria

Pois criar é arrancar do nada um ser

É uma melodia, uma ideia que brotam

À superfície da mente, à luz do dia




Não pretendo dar lições a ninguém

Mas dois conselhos dou a quem me lê

Faz o que deves, mas por convicção

Sê impiedoso crítico de ti próprio



HOJE, VOU ESCREVER UMA CARTA 



Sim, uma  carta em papel; com envelope

Ainda não decidi se escreverei com caneta

De tinta permanente, esferográfica, ou feltro

Mas tem de ser realmente desenhada pela

Minha mão, cada letra exprimindo um instante

O instante das minhas emoções 

Em relação ao conteúdo, também

Irei inovar - no que me toca - no estilo

Serei sincero, sem ser grotesco,

Sem artifício, abrirei o coração

Não preciso de fazer teatro

Com sinceridade, basta escrever

Ao correr da pena, é como estar

contigo, um gesto, um murmúrio,

Leve ruído do aparo ao contacto

Com o papel.


Podia pensar mais solene

Enfático ou espirituoso

Não! Minha razão de escrever

É natural e não fabricada

É o pensamento quando falo

É um sopro ao teu ouvido


Quanto ao conteúdo,

Tenho andado a refletir

No que a ele diz respeito

Ao entregar-te a carta

Entrego-te meu pensar

E sentir, sem floreados


Ainda tenho de a começar

Pois uma carta assim

Não se escreve por capricho


Uma carta assim é leve

E pesada, pelo que diz

E pelo que cala; pelo que 

sai do aparo e pelo que fica

no tinteiro. 


Até breve, pois...



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