Quando decidi escrever algumas palavras introdutórias da aula do prof. Jiang Xueqin, deparei-me com a impossibilidade de abarcar o fenómeno da meritocracia sem ir ao fundo das questões envolvendo as sociedades capitalistas.
Note-se que o fenómeno tem existido mais ou menos desde a segunda metade do século XVIII, na Europa e América do Norte até hoje, em sociedades que funcionavam segundo o paradigma do capitalismo. Embora existissem alguns grupos marginais, dentro ou fora dessas sociedades, que mantiveram o modo de produção das sociedades agrárias e feudais.
Mas, para situar a questão, vamos começar por analisar um caso particular, o da Prússia e de outras potências, no início do século XIX. Este reino foi acometido pela guerra provocada por Napoleão, triunfante de Austerlitz (1805). Na sequência da derrota Austro-Russa, decide entrar em guerra com a Prússia, para a submeter ao novo Império.
Não estamos perante o confronto da burguesia triunfante (Império Napoleónico) a lutar contra o reaccionarismo da Prússia, congelada no tempo (feudalismo tardio): Mas estamos na presença de dois modos de organizar os exércitos, moldados pela mentalidade prevalecente na sociedade e nos círculos do poder.
O poder absoluto de Napoleão Bonaparte era devido a muitos fatores, entre os quais, a esperança de uns jovens da burguesia, que no antigo regime (pré-revolução), não podiam aspirar ascender aos quadros médios e superiores do exército; estes lugares estavam reservados aos membros da aristocracia.
No seguimento do período conturbado da França revolucionária e da contra-revolução do Directório, Napoleão abre, definitivamente a hierarquia militar aos que tivessem mérito próprio. «Promoção pelo mérito» não excluía a presença de aristocratas, mas exigia que eles fossem os mais adequados à função.
Num regime de centralismo extremo, o Chefe máximo podia vetar alguém, independentemente do seu mérito demonstrado, caso não fosse suficientemente devotado à sua pessoa - Napoleão - e ao Império.
Desde o tempo do Império Romano, que a organização militar tinha um papel estruturante na sociedade civil. Na realidade, se um camponês não escravo queria ascender na sociedade romana, tinha um único caminho, na prática: O de servir como soldado numa legião romana. Passadas dezenas de anos, recebia um pedaço de terra de cultivo, normalmente obtido pela espoliação de inimigos de Roma. A posse de terra, nesse tempo e durante muito tempo ainda, foi a condição sine qua non para se ascender à classe de «elite», à aristocracia.
Ora, no Reino da Prússia, a organização e treino meticulosos dos diversos corpos do exército, vinda do tempo de Frederico II da Prússia, serviu para a Prússia derrotar militarente o Império Austríaco. No século XIX continuava a ser uma excelente organização, mas moldada no século XVIII: Concebida, treinada e caldeada para as guerras do século XVIII. Entretanto, tinha havido a Revolução Francesa e o exército prussiano, como os de outras potências europeias, viu-se completamente ultrapassado pelos novos modos de organização e táctica dos exércitos revolucionários franceses. Estes, conseguiram notáveis vitórias em várias frentes que impediram o avanço das hostes que se coligaram para invadir a república nascente.
Pode-se atribuir uma quota-parte de entusiasmo revolucionário e de desespero, para estes exércitos de «sans-culotte», que Bonaparte conhecia bem. Porém, o facto fundamental é que a própria situação obrigou a recorrer a métodos completamente novos e contraditórios com (todos) os manuais de instrução para oficiais do Século XVIII.
O exército prussiano, depois da derrota fulgurante, aprendeu (da maneira dura) a adequar sua estrutura e métodos aos tempos presentes. O mesmo aconteceu com as tropas do Império Russo, que sofreram as derrotas de Auterlitz (como aliado dos austríacos) em aliança com os prussianos em Eylau e Heilsberg (na Prússia oriental).
A visão estratégica tornou-se predominante, a lógica de combate em fileiras compactas desapareceu, foi aumentado o papel de caçadores-atiradores e regimentos de cavalaria de caçadores, especializados no reconhecimento: Seu papel mais relevante era antes da batalha principal, como «sensores» das posições do inimigo.
Sobretudo, a hierarquia dos exércitos, a partir daí, não foi ocupada principalmente por indivíduos das fileiras da aristocracia. Isto pode parecer de menor importância, hoje. Porém, tanto nas fileiras napoleónicas, como nas dos seus inimigos, a recompensa por serviços prestados, especialmente em situação de combate, era a promoção de posto. Este sistema operava bem, pois estimulava os jovens filhos de burgueses a alistarem-se, sabendo que se tivessem ocasião de mostrar qualidades militares e morais, teriam assegurada a subida na hierarquia.
A origem da «meritocracia», vem a meu ver, da forma, instaurada pela revolução francesa, de preencher os quadros militares. Além das qualidades de coragem, presença de espírito e capacidades de liderança, os oficiais tinham de possuir um conhecimento técnico-científico em vários domínios. As Escolas de Guerra e as Escolas Politécnicas, formavam cadetes para o exército em geral e para especialidades como artilharia, engenharia militar, etc.
A generalização da «promoção por mérito» resultou da convicção dos capitalistas, após Iª Guerra Mundial e das revoltas anti-capitalistas protagonizadas em vários países, não apenas na Rússia, de que tinham de dar a ilusão duma sociedade não baseada na exploração e no domínio dos possuídores dos meios de produção, mas duma sociedade onde ser-se talentoso, dedicado e inteligente, permitia ascender a lugares de chefia. Muitos desses lugares continuavam a ser preenchidos por familiares e protegidos dos grandes capitalistas, mas conseguiram fazer passar a ilusão a certo número de pessoas da pequena e média burguesia, que aquilo que era determinante era o seu mérito.
Se analisarmos um pouco abaixo da superfície desse «mérito», depressa vemos que não se trata dum mérito absoluto, mas relativo. A capacidade dos candidatos preencherem os escalões superiores das empresas, não era só técnica, mas implicava também a mais devotada fidelidade aos patrões e ao sistema capitalista, em geral.
São numerosos os casos de pessoas com grandes qualidades intelectuais, que foram preteridas; elas não ofereciam «a garantia» de que seriam «colaboradores» subservientes e obedientes.
As hierarquias de acesso e depois, dentro das universidades, assim como das universidades entre si, veio dar um semblante de «justiça», para a selecção de candidatos a postos subordinados, mas de responsabilidade e exigindo saber técnico especializado.
Não é portanto de espantar o que nos conta o Prof. Jiang, no vídeo abaixo
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