segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

FRANÇOIS COUPERIN «L' Art de Toucher le Clavecin» (Segundas-f. musicais nº48)

 

                                                          Acima, frontispicio da edição de 1716 

Nós já mencionámos aqui, nas «Segundas-feiras musicais», a importância de François Couperin na música em geral e no barroco francês, em particular. Também dedicámos um artigo aos 2 livros de órgão, por ele escritos. 

Embora François Couperin tenha escrito obras estrictamente litúrgicas, não é propriamente nessa qualidade que ele é recordado, mas na de músico da corte de Luís XIV, o «Rei Sol». As suas composições para vários instrumentos, nomeadamente a série de concertos intitulada «Les Nations», dão continuidade à música concertante francesa, distinta, na sua estrutura e conteúdos, do concerto italiano.  Este, como toda a espécie de música italiana (ópera, oratória, concerto com solistas, etc.), apoderou-se das cortes e dos palcos, durante mais de um século.    

François Couperin atingiu celebridade comparável à de muitos outros grandes vultos da era barroca. Porém, só muito tarde (anos 1960 e posteriores) começaram suas peças a ser estudadas e apreciadas por um público mais amplo, graças ao movimento de fazer reviver a música das eras passadas com instrumentos de origem, ou suas cópias fiéis. Não apenas isso, como a séria investigação em musicologia e análise musical, que permitiram restituir a maneira graciosa e subtil da «arte de tanger as teclas» e a adaptação da ornamentação às regras implícitas ou explícitas em cada escola, em cada época.

No estudo e formação de jovens cravistas, o breve tratado que apresentamos aqui, composto e editado pelo próprio François Couperin, desempenha um papel central. Os oito prelúdios (e a Allemande que abre a obra) acompanham-se de conselhos sobre como dedilhar as peças e a utilização dos ornamentos. Enquanto a edição inicial (de 1716) apenas refere exercícios de técnica e notas sobre como dedilhar a obra «Pièces de Clavecin», além de um ensaio sobre ornamentação, a edição de 1717 inclui um novo prefácio e um suplemento descrevendo o modo de dedilhar o segundo volume das «Pièces de Clavecin». O autor propõe também que os possuidores da primeira edição a troquem gratuitamente pela edição de 1717, com o novo prefácio e os suplementos acima descritos. Por esta razão, os exemplares da primeira edição, são hoje muito raros.

Uma característica notável destes prelúdios, é a sua musicalidade, a sua variedade também, ao ponto de serem tangidos por si mesmos, não como uma introdução de Suite (ou Ordre) no mesmo tom, como era costume fazer-se. 

Os prelúdios têm personalidade própria; são muito usados como peças pedagógicas para os principantes no estudo do cravo; mas também, em disco ou em concerto, por cravistas de renome. 

Abaixo, pode escutar a integral das partes musicais da «Art de Toucher Le Clavecin» com as respectivas partituras, numa edição moderna. Os textos em francês são os originais de François Couperin, com traduções (pelo editor contemporâneo) em alemão e inglês.

 

Para estudiosos e melómanos com interesse em comparar os estilos interpretativos na música para cravo, existem hoje várias obras eruditas de musicólogos, pelo que um cravista pode adequar a sua execução das peças ao que se sabe seguramente sobre os estilos intepretativos dos finais do século XVII e princípios do século XVIII, tanto em França, como na Alemanha, nos Países Baixos, na Península Ibérica ou em Itália. Respeitando os canons interpretativos da região e da época, ele é livre de escolher a interpretação que lhe é própria, dentro de uma vasta gama de hipóteses sem - com isso - trair a autenticidade das peças. 

A fluidez da música barroca e especialmente da música para cravo solo, deve-se ao papel importante que desempenhava a improvisação: Esta, podia ser livre, embora geralmente a partir de um tema. Podia corresponder a uma série de variações improvisadas sobre uma canção ou trecho. Podia existir dentro de cada peça, ao nível das ornamentações, das mudanças de teclado, dos registos, do andamento... Nestas circunstâncias, os grandes interpretes do tempo de Couperin - e os de hoje - podiam ser fiéis ao espírito de uma peça, apesar de divergirem  nos aspectos acima mencionados.

1 comentário:

Manuel Baptista disse...

Os números anteriores da série «Segundas-f. musicais» podem ser consultados aqui:
https://manuelbaneteleproprio.blogspot.com/p/segundas-f-musicais.html