Pouco depois do 25 de Abril de 74, no Pavilhão dos Desportos de Lisboa, o palco encheu-se com cantores da resistência ao fascismo. Muitos nomes eram nossos conhecidos. Muitos deles tinham sido ou silenciados pela censura, ou obrigados ao exílio.
Foi um momento único; assinalou a libertação da criatividade musical e poética. Foi um dos momentos mais altos do 25 de Abril. Não me lembro exactamente quais foram os cantores/autores que se apresentaram em palco nesse dia, mas foram muitos e diversos.
Tenho nostalgia de momentos como este, em que a juventude vibrou com a alegria vital destas canções, algumas por nós já conhecidas e que cantámos, num imenso coro.
Seria impossível neste curto artigo, dar a conhecer todos os cantores/as que participaram com a sua música e alma, na gesta - mal compreendida - da libertação de um povo.
A minha amostra é pequena, mas parece-me eloquente, tanto na qualidade musical, como no conteúdo das letras.
Queria ouvir criadores de novas melodias e textos, como os que vos deixo aqui: inspirados e populares.
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Amália Rodrigues, é a voz do fado e da poesia portuguesa ao longo dos séculos. Já era um ícone do fado, muito antes de 1974. Ela continou a sua carreira depois do 25 de Abril de 74, homenageada, apreciada por quase todos:
Adriano Correia de Oliveira foi um dos travadores que cantou, antes do 25 de Abril, as canções que todos conhecemos: «Cantar da Emigração», poema de Rosália de Castro Rosalía de Castro-José Niza/José Niza
(*) A letra de «Pedra Filosofal», poema de António Gedeão (Rómulo de Carvalho):
Eles não sabem que o sonho É uma constante da vida Tão concreta e definida Como outra coisa qualquer
Como esta pedra cinzenta Em que me sento e descanso Como este ribeiro manso Em serenos sobressaltos
Como estes pinheiros altos Que em verde e oiro se agitam Como estas aves que gritam Em bebedeiras de azul
Eles não sabem que sonho É vinho, é espuma, é fermento Bichinho alacre e sedento De focinho pontiagudo Em perpétuo movimento
Eles não sabem que o sonho É tela, é cor, é pincel Base, fuste ou capitel Arco em ogiva, vitral, Pináculo de catedral, Contraponto, sinfonia, Máscara grega, magia, Que é retorta de alquimista
Mapa do mundo distante Rosa dos ventos, infante Caravela quinhentista Que é cabo da boa-esperança
Ouro, canela, marfim Florete de espadachim Bastidor, passo de dança Columbina e arlequim
Passarola voadora Pára-raios, locomotiva Barco de proa festiva Alto-forno, geradora
Cisão do átomo, radar Ultra-som, televisão Desembarque em foguetão Na superfície lunar
Eles não sabem nem sonham Que o sonho comanda a vida E que sempre que um homem sonha O mundo pula e avança Como bola colorida Entre as mãos duma criança
Este - o dos anos 60- é o Bob Dylan que eu prefiro. Rebelde, mas com uma causa: A liberdade de se exprimir, de denunciar as injustiças e de apontar quem são os irmãos e irmãs e denunciando os opressores. Porém, não era um canto diretamente incitando a uma qualquer ação política ou a uma determinada mobilização cívica.Apesar de preservar as suas letras do imediatismo, Bob Dylan esteve engajado na luta pelos direitos cívicos, nos anos 60. Nunca tive dúvida, quando ouvia uma canção de Bob Dylan, de que estava escutando um grande poeta, uma pessoa de corpo inteiro, com a sua própria posição que não impunha mas que não escondia. Quanto a mim, isso é o mais subversivo que se possa imaginar: não se impõe um padrão de comportamento ou de opinião, deixa-se os outros se posicionarem, mas não se abdica de dizer o que nos vai na alma! Seja como for, parabéns Bob! os teus inúmeros auditores e leitores, não precisam de qualquer validação «nobélica» para apreciar a tua arte forte e verdadeira. Mas sabe bem termos «o nosso» Nobel...