sexta-feira, 17 de julho de 2026

POR DENTRO ... (Obras de Manuel Banet)

 

Quando digo, eu - não sou eu

Quando digo nós- também  não somos

Se sou ou não sou, serei ou não, 

Pouco importa: 

Já a noite cai sobre o terreiro

Menos distingo, mais me afundo

Neste mar de absinto, neste mar que me mata

Das coisas belas existe a conjura

 de me moerem o  juízo 

Eu sei; e que posso fazer, senão 

Gritar à  minha maneira?

Como um estranho que acorda

Num mundo incompreensível

Dentro de uma peça teatral 

Para onde não foi chamado

 e no entanto...

Se vê  compelido a representar um papel

- Diga-me, meu caro senhor, que sabe fazer?

- Sou contador de histórias, com certificado 

da associação nacional do mesmo nome.

- Muito bem, diz a voz;

 Faz favor de se dirigir à direita, ao fundo do palco...

Mas como nada acontece e como sempre me vejo

Na situação absurda acima descrita,

O primeiro impulso é  pegar no chapéu 

E sair de cena, como quem muito bem percebe

Estar no lugar errado, no momento errado, 

Sem que possa ajuizar do significado

Do que aconteceu; 

Não vamos fazer uma teoria disso,

Como se o acaso tivesse uma lei; 

Ou como se a minha pessoa fosse

Escrava do destino.

 Afinal, tanto faz.

Porque, apesar do que congeminei

Caí na armadilha a mim próprio tecida

No enredo que eu sozinho fabriquei

Não de forma pensada, mas de modo

Deliberado, como a lagarta se envolve 

No casulo...

Simples facto de entomologia 

Espectral e obsessiva.

...

Uma voz de galináceo:

" Não tens qualquer outro, 

Que não seja o teu ADN , a comandar!

E tão bem, que tens a impressão 

De ser livre, de fazer porque queres

Mas quem manda é o teu ADN, 

Nem teu cérebro, nem outro conjunto

de neurónios tem autonomia em  face 

Do codificado no genoma."

...

Outro galináceo:

"A espécie humana é formada por sub-espécies 

Não se pode fazer rigorosa classificação 

 Apenas  pela anatomia ou fisionomia

Ou por qualquer outro parâmetro físico. 

Só observando o comportamento do espécime 

Se pode arriscar uma tentativa de classificação"

 ....


 Este discurso, dito de " ciência "

É a enésima regurgitação de galináceos 

Poisados nos galinheiros-poltronas, 

Conspurcando as cabeças jovens. 

Perante o discurso galináceo, só restam 

Duas opções:  Ou dizes que sim 

e continuas a falar com os teus botões;

Ou dizes que não 

e expulsas a verborreia exatamente

 como quando vais 

Ao wc e descarregas o autoclismo. 

 Saibam, galináceos: O vosso cacarejar terá

O destino que lhe dá o autoclismo.

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Não irei adiantar mais, por hoje.

Acima, transcrevi o acontecido na cabeça, 

 Não pretendo que seja mais do que isso.



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