domingo, 30 de abril de 2017

«PORTUGAL PAÍS NEOCOLONIAL?» [Caderno Luta Social*]

*Transcrevo um ensaio publicado no «Caderno Luta Social» Nº4, em maio de 2009. Não me pareceu necessário fazer qualquer actualização, pois o leitor compreenderá que certas passagens se referem ao momento político que se estava vivendo então, enquanto outras são reflexões que conservam a mesma validade hoje, como há 8 anos atrás.

Portugal, país neocolonial?
O regime de Portugal tem uma grave doença que precisa de ser diagnosticada.
Tenho reflectido sobre os rumos da democracia em Portugal; cheguei à conclusão de que o problema é que se trata de uma enfermidade não diagnosticada, ou um diagnóstico feito mas não reconhecido pelas gentes.
Portugal, desde há pelo menos 200 anos, passou de país colonizador a país colonizado, submetido por várias potências: primeiro a Grã-Bretanha, depois pelos países ricos da UE, com participação dos EUA.
Tudo se pode compreender melhor, incluindo a enorme quantidade de corrupção e falta de vergonha da classe política, se virmos este país como uma vulgar neo-colónia, como no continente sul -americano, ou africano. Nessas regiões, é habitual verem-se regimes que até podem ser formalmente democráticos, mas onde uma pequena oligarquia manda, usando políticos corruptos para fazer o jogo da representação e manter assim o povo quieto.
Existe um falhanço histórico da intelectualidade, das pessoas que têm maior responsabilidade, porque detêm saberes e meios de os divulgar. Ou seja: têm essa responsabilidade porque detêm meios (os instrumentos, as ferramentas intelectuais) que os podem apetrechar a fazer a análise (diagnosticar a doença) e - desde logo - a apontar caminhos para a «cura» ou a esclarecer quais as opções que se colocam.
Devemos perceber que estamos perante um fenómeno de ocultação não intencional, não deliberado. Não cabem aqui quaisquer «teorias da conspiração». O problema, tão simples na sua essência, é o seguinte: como se explica o atraso crónico e secular deste país, à beira-mar plantado?
Um país que poderia ser um «jardim», mas não é; mais parece um lugar de exílio («Pátria, lugar de exílio», para retomar o título dum dos mais belos livros de poesia portuguesa do séc. XX). Vamos continuar A ASSOBIAR PARA O LADO E IGNORAR ESTE FACTO FUNDAMENTAL ou teremos a coragem de olhar a realidade em frente? Reconhecemos que somos um antigo império, convertido numa NEO-COLÓNIA? Que, se Portugal tem sido colonizado económica e politicamente, o tem sido sobretudo porque um complexo mental, cultural se apoderou da intelectualidade e do povo, em geral?
Considero que esta visão da história portuguesa marcada pela sua transformação em neo-colónia é totalmente evidente, para quem conheça razoavelmente a história dos últimos 200 anos. A ocultação sistemática, intencional desta evidência, dos seus mais relevantes factos, tem sido obra de vários historiadores, das mais diversas simpatias ideológicas, provavelmente para sustentar as suas teses.
Muitas pessoas abordam criticamente a realidade portuguesa e dizem «o mal está nisto», «o mal está naquilo…». Mesmo que tenham razão em absoluto nos males que apontam, a sua crítica é superficial, na medida em que traz implícita que a cura, estaria na eliminação desses males, mas eles são sintomas e não a própria doença. Eu questiono a origem destes sintomas; a incultura é sintoma, a corrupção é sintoma, a falta de civismo é sintoma... sintomas de quê? Da existência de um complexo económico - político -cultural chamado neo-colonialismo. O facto de se reconhecer, não é a cura do referido mal, mas aponta o caminho para se estabelecerem as estratégias para sairmos deste processo degradativo, deste ciclo vicioso.
Com razão, várias pessoas têm notado que uma revolução, que não se dirija à raiz dos males sociais, apenas será uma sacudidela e depois tudo voltará a ser como dantes.
Se queremos que as coisas mudem verdadeiramente e em profundidade, temos de ir ao âmago da questão: Temos de nos pôr de acordo sobre a origem do complexo que atinge Portugal como se fosse uma maldição... de certeza que não se trata de um problema «endógeno» ou «genético» da nossa população. Estamos ou não perante uma situação neo-colonial?
Várias pessoas que se interessam por política, sobretudo na esquerda, consideram os problemas com um certo fatalismo, o que as leva inevitavelmente para uma atitude atentista, sebastianista, de esperar que se dê um câmbio mundial para que algo mude em Portugal. Ora, não tem que ser assim: muita coisa há que mudar e que pode ser mudada no imediato. Podemos e devemos agir, mas com um sentido de rumo.
O debate que proponho parece-me muito importante, porque as políticas destinadas a emancipar o indivíduo e o colectivo, hoje em dia, têm de ser equacionadas numa série de patamares paralelos e não apenas de forma unidimensional.
Podemos lutar contra o capitalismo sem lutar contra o estado e a sua organização, que é o principal sustentáculo do mesmo? Obviamente que não! Pelo menos não de forma coerente.
A nossa luta, mesmo sendo justa, pode estar focalizada apenas nos efeitos de uma deslocação do poder para centros distantes, como a Comissão Europeia, a NATO...
A nós, não deveria interessar-nos muito o «daqui a 100 anos». Deveríamos estar centrados no aqui e agora; deveríamos levar o debate a vários sítios simultaneamente, de preferência presencial e aberto a todos/as as/os que estivessem disponíveis para uma participação construtiva e responsável.
Afinal de contas, há uma esquerda que é parte do problema, porque teima em não ver, não ouvir, não falar: Ela teima em «pensar» com frases feitas, com slogans, em vez de ser crítica... o que significaria auto-crítica, pois ela teve poder, fatias não desprezíveis do poder e ainda tem: se não o vê, é porque não lhe convêm!
De novo, aqui encontramos uma expressão e reflexo da situação neo-colonial multi-secular. Este autoritarismo que se nega em palavras, enquanto se afirma por variadíssimos actos, configura um complexo de culpa; uma enorme má consciência que se varre «para debaixo do tapete», vezes e vezes sem conta.
No fundo, trata-se duma característica portuguesa muito especial que foi muito bem analisada por José Gil, a não – inscrição. Ou seja, artifícios para não agir.
O mais recente «acto de não-inscrição» prende-se com o episódio grotesco da atribuição do nome de Salazar à praça principal de Santa Comba Dão, por decisão da autarquia, governada por um eleito do PSD, partido com larga história de governo pós 25 de Abril e que se pode considerar um dos partidos constituintes (aprovou a constituição de 76). Estão a fazer uma campanha bem pensada, bem orquestrada, para fazer aceitar um novo regime de medo, de terror, que fecham os olhos perante homenagens destas e não tiram (ou recusam tirar em público) as consequências políticas de tais actos.
Parece fora de qualquer dúvida que esta provocação foi orquestrada e preparada, como parece ser impossível de outro modo. Um golpe de teatro destes não se improvisa… há uma conivência pelo silêncio, pela não-inscrição, das estruturas nacionais do partido. Creio que isto demonstra a falta de coerência da chamada «democracia» portuguesa.
Neste país, a incultura passa por virtude. O ataque à Escola Pública veio disfarçado como «reforma» para melhorar a escola: é visto com simpatia por muitas pessoas, nomeadamente, pelas de menor formação cultural, que se sentem «lesadas» por aquilo que consideram privilégios da «classe» docente.
Nomear uma «classe» profissional como bode expiatório, foi uma atitude logo tomada pelo poder PS, tanto mais que se tratava de quebrar o estatuto que conferia uma certa dignidade, porque oferecia certa garantia de estabilidade e de progressão na carreira dos docentes. Foi este estatuto da carreira docente não universitária destruído e transformado num instrumento que eu caracterizei como «estatuto de escravidão docente».
Nenhum sindicato de professores se atreveu a subscrever um documento tão ofensivo para os seus representados, após um simulacro de processo negocial.
Mas, na base, os professores, embalados num sonho (ideológico) de «escola democrática», de «escola do 25 de Abril», não viram logo o que lhes tinha presenteado o poder PS, senão quando se desenrolou perante os seus olhos horrorizados a kafkiana máquina da «Avaliação de Desempenho».
Os protestos atingiram uma amplitude inédita no nosso país. Os professores mais velhos compreenderam que estavam a retirar-lhes uns restos de dignidade que ainda conservavam, mau grado os ataques mediáticos e no terreno. A campanha orquestrada contra eles, apontados, pela voz da ministra da educação e seus acólitos, como responsáveis pelos fracassos do sistema educativo pós-25 de Abril, surtiu efeito; muitos optaram pela reforma antecipada, alguns com penalizações pesadas no montante da sua pensão.
Como tem sido costume e como eu tinha previsto, prepara-se (agora, no inicio de Maio) uma simulação de «luta», uma encenação para deixar «contentes» os militantes sindicais, embora a massa dos professores fique descontente. Os burocratas sindicais não se importam; no fundo, pensam que está correcto canalizar este descontentamento para as urnas. Com enorme desplante vêm dizer que não querem que «esta luta morra na praia», depois de a terem esvaziado, de terem desperdiçado, em sucessivas ocasiões, a onda de protestos!
É caso para nos questionarmos sobre a auto-infligida impotência de uma população maioritariamente de esquerda, com saber académico (quase todos com o grau de licenciatura, no mínimo), porém que não reconhece a realidade da manipulação política, não vê que o combate deve incluir a apropriação das estruturas sindicais, para serem realmente instrumento de luta de todos os trabalhadores. É uma população de «esquerda sentimental», mas não no sentido crítico, na análise crítica que possa fazer da realidade.
Assim, verifica-se a «castração» do professorado, reforçando o complexo de país neo-colonial. Isto agrada aos poderes, visto que o quotidiano das escolas é moldado, num grau muito elevado, pela mentalidade difusa que prevalece no seio dos professores.

Este país tem uma cultura provinciana, como se pode verificar pela vida cultural em geral, em particular da capital e das suas principais cidades. Nesta cultura demasiado estreita, avultam as modas; elas tomam conta da cena mediática, sendo assim como vagas sucessivas, que anulam quaisquer outras correntes estéticas e ideológicas. Dá-se portanto um fenómeno de monopolização do espaço público, com «figuras» do momento, cuja obra, por meritória que seja, é amplificada de maneira desmedida pela televisão. É o que se verifica na literatura, na filosofia, ou em quaisquer domínios das artes. Esta situação estimula a postura de subserviência em relação aos poderosos, aos que estão em posição de controlo da media.
O português «médio» é consumidor de filmes de Hollywood, conhece a vida das stars americanas, tem uma cultura de música «ligeira» (pop, rock, etc.) exclusivamente anglo-saxónica. Tem poucas leituras, quando lê. Escolhe, quase exclusivamente, «best-sellers» traduzidos para português.
Num país neo-colonial, a cultura é quase toda de importação, facto ocultado pelo Estado, que pretende fazer crer que existe cultura própria: assim, nas escolas, é obrigatório ler-se um certo número de autores portugueses. São esses livros de leitura obrigatória que permitem manter em vida o mercado editor e livreiro.
Num país neo-colonizado não existe cultura autóctone, mesmo nos estratos populacionais que não beneficiam dos privilégios de classe.
O «povo» contenta-se com música popular do nível mais medíocre que se possa imaginar e os programas de «humor popular» das televisões são de um nível confrangedor, em regra. Não existe cultura popular genuína, porque aquilo que é normalmente assinalado como cultura popular de qualidade é – de facto – música e poesia eruditas, feitas por artistas «usando elementos da cultura tradicional»: na realidade, transpuseram para a canção de autor, de intervenção, elementos da cultura rural totalmente desaparecida, tal como as comunidades rurais que estiveram na sua origem.
Quanto ao pensamento político em geral, as «modas», além de importadas da Europa e dos EUA, são uma apropriação serôdia pelos actores/actrizes da tragicomédia política que é a vida pública deste país.
Se tivéssemos de escolher o cenário para um Lilliput das ideias, das mentalidades, seria muito provável que a escolha recaísse sobre este rectângulo à beira-mar plantado. A «classe política», como ela própria se costuma designar, compõe-se dumas centenas, duns poucos milhares. A maior parte, apenas «célebre» na sua vila ou bairro; muito longe da popularidade das estrelas do futebol.
O futebol, o «espectáculo rei», destrona qualquer «paixão política». Basta simplesmente olhar para os infinitos comentários na TV, antes ou após um jogo importante. Nota-se, nestas ocasiões, uma diminuição significativa do trânsito nas estradas, à saída das cidades maiores, que se explica pela debandada mais cedo para casa, por causa do jogo.
Todos os «actores políticos» concordam que a «Europa» é um factor fundamental (de forma positiva ou negativa) para as políticas nacionais. As eleições europeias sucessivas são sempre as que têm menor participação (da ordem de 60% de abstenção). Este sistema político não tem nada a oferecer, senão umas cadeiras douradas para alguns «eleitos do regime», que têm assim a recompensa por terem andado anos a fio a enganar o Zé Povinho, a vender-lhe a «banha da cobra» do seu respectivo partido.
Num país neo-colonial, o povo não é mais «estúpido» ou «inteligente» que noutro qualquer país, não dominado. Apenas poderá ser menos informado, menos culto. Apesar de tudo, no caso português, não perdeu o seu bom senso e sentido prático, não confia nos actores políticos, que se desfazem em promessas e têm imenso desprezo pelo povo, dizendo que são seus fiéis servidores.
O povo de Portugal está habituado a «desenrascar-se» por si só; a confiar nas redes de amizade, de família alargada, etc. Estes são os fios que tecem a estrutura social profunda; nesta, as escolhas partidárias pouco peso têm.
O cidadão comum tem tendência a ser indulgente perante o político que «facilitou» a aprovação de tal ou tal obra. As pessoas assimilam essas trocas de favores ao mais alto nível do Estado e dos negócios, com as pequenas trocas de favores, o «conhecer» alguém nesta ou naquela repartição pública. Tais compadrios não são vistos como criminosos, nem como abusos, sequer.
Além disso, o político profissional é visto como alguém de «outra espécie», a quem a lei comum não se aplica, que vive numa esfera diferente do real, pois está sempre a aparecer no espaço hiper-mediatizado.
Os que estão encarregues de fazer marketing político com a imagem de José Sócrates e seu governo, cedo perceberam isso: orientaram seu desempenho para a mediatização e personificação extremas do personagem.
O discurso de Sócrates apela sempre aos sentimentos, a uma sinceridade falsa, mas que é bem encenada. Esta encenação inclui personagens auxiliares, tais como o inenarrável bufão, ministro Mário Lino ou a antipática ministra Mª de Lurdes Rodrigues. Só assim ele pode sobressair – por contraste - como «líder».
Ele - na realidade – é apenas joguete de interesses capitalistas poderosos, que preferem ficar na penumbra. A sua política tem sido uma sucessão de recuos sociais, obedecendo ao dogma neo-liberal, para além de qualquer expectativa que se pudesse ter dele e do seu partido, há 3 anos e meio.
Os políticos, em regimes neo-coloniais, não se sentem nada presos pela palavra dada ao eleitor; sabem que aquilo que os sustenta no poder é muito mais a sua fidelidade (vassalagem) aos negócios e à/s potência/s dominante/s. No caso português, não é necessário ir buscar muito longe, nem ser um «águia» em política, para se perceber que os patrões de Portugal são os países ricos da EU e os EUA.
No essencial, toda a política observável em Portugal deve ser entendida como epifenómeno, decorrente do papel geoestratégico que lhe está reservado, na nova ordem mundial, instaurada com a uma NATO triunfadora do Pacto de Varsóvia.
Para consolidar essa dominação mundial, os donos deste mundo unipolar precisam de demonizar outras culturas, outras civilizações, fabricando, tanto quanto for necessário, o cenário artificial dum choque entre civilizações (avançado pelo politólogo reaccionário Hungtington).
Veja-se o papel desempenhado pelo governo e presidência da república de Portugal na cimeira dos Açores, de preparação para a II guerra do Iraque; ou ainda, na guerra contra a Jugoslávia, na «pacificação» da Bósnia, do Kosovo ou, mais recentemente, do Afeganistão. Estes desempenhos não deixam dúvidas. É típico de países neo-coloniais, que as suas tropas sirvam como auxiliares para guerras da grande potência, sempre no quadro fictício de uma «aliança». Trata-se de ter em conta este facto político básico, fundamental.
Não nos devemos contentar com isto, porém; devemos questionar-nos porque motivo este discurso não tem eco, porque não suscita debate, porque há um «silêncio ensurdecedor» em torno deste tema. É um autêntico «tabu»! Trata-se de outro exemplo de não inscrição, de «arte» da omissão, pelos actores da política.
Quando ruiu o «socialismo real» (na verdade, apenas capitalismo de estado, totalitário) a esquerda ficou órfã, não de uma ideologia, mas sim de uma motivação prática. Ela não consegue ver-se senão como «gestora» de um Estado, onde estejam nacionalizados os principais meios produtivos. Tem tendência a associar-se à construção do super-estado europeu (EU), mesmo quando rejeita o tratado de Lisboa e critica o projecto, de cunho inegavelmente neo-liberal.
Esta esquerda, sem quaisquer ideias e baseada em estruturas nacionais, apenas fala dum «internacionalismo» do século XIX. Ideia totalmente esvaziada. Nesse século, era um poderoso factor de mudança, pois permitia juntar a auto-determinação dos povos submetidos ao jugo de potências imperiais, à luta pela emancipação do proletariado, quer dos países dominantes, quer dos dominados.
Na realidade, esta esquerda guarda uma visão nacionalista de esquerda, que se faz passar por «internacionalismo», mas que se resume a clamar por «soberania», como se as nações ou os povos fossem os principais ou mesmo exclusivos protagonistas da arena política internacional. Sobretudo, «esquecem» que essa tal soberania – afinal - é somente o reconhecimento pela burguesia internacional, do direito da burguesia de um determinado país em explorar - a seu bel-prazer - os «recursos humanos e naturais».
Hoje, trata-se antes de fazer viver um novo cosmopolitismo, uma visão não inter-nacional, mas sim trans – nacional.
São transnacionais os monstros que impedem a felicidade humana no século XXI, os grandes conglomerados, as grandes corporações: dominam não apenas os mercados, mas toda a economia; não apenas extraem lucros fabulosos, como condicionam os governos dos países (os mais poderosos incluídos) a governar de acordo com seus interesses.
Mas a crise presente veio demonstrar, para além de qualquer dúvida, que não há salvação para o género humano, dentro do capitalismo.
Face a este estado de coisas, veremos uma série de políticos profissionais a clamarem contra o capitalismo, como um bom estribilho eleitoral, como se vê já em França e noutros países europeus. Portugal, também, tem muito «anti-capitalista» sério, cordato, racional, dizendo - em resumo - que é preciso mudar este sistema, mas mudá-lo através do voto, para que não seja através da revolução, com seu cortejo de barbaridades, banho de sangue, etc.
Em suma, vemos já a entrada em cena dos reformistas eleitorais procurando iludir o povo trabalhador e sacrificado a cada crise, com a ilusão de que a mudança está nas suas mãos, mas através do voto. Estes mesmos gostam de «argumentar» com Obama, como se este tivesse mudado algo de fundamental na estrutura do poder dos EUA. «Mudar sim, de maneira ordeira e progressiva, pelo voto apenas e somente», dizem os lobos ao rebanho de cordeiros.
O truque consiste sempre em dar às campanhas o tom por que as pessoas anseiam, dando-lhes a entender que eles, políticos, captaram a sua onda, prometendo realizar os anseios da multidão. É um truque velho da «democracia» por delegação; nuns países, este jogo é mais descarado que noutros. Em Portugal, este jogo é tido como «legítimo», não penalizador da popularidade de políticos, que jogam a cartada do populismo para se fazerem eleger e rasgam as suas promessas na noite das eleições, caso obtenham «maioria absoluta».
Esta maioria dá-lhes um poder muito grande, o de parasitarem o Estado: eles sabem-no e fazem uso descarado dele. Foi assim com Cavaco Silva, quando primeiro-ministro, igualmente com José Sócrates. Numa democracia liberal mais madura, tal não ocorreria tão facilmente, não porque houvesse maior virtude dos seus protagonistas, mas porque haveria contra-pesos, impedindo uma tomada do aparelho de estado pelos militantes e protegidos do partido no poder. Mas Portugal é um país neo-colonial.
Em que tipo de país podemos ver um primeiro-ministro indiciado pela Scotland Yard, envolvido num escândalo de tráfico de influências e de corrupção, mas que continua, sem se demitir, sem sair do poder, apenas porque o detém e domina a máquina partidária e estatal com mão de ferro? Em que regimes se vê um partido clientelar, mantido sob a batuta absolutista do seu chefe, impedindo que surja uma qualquer alternativa do interior? Onde, senão em países neo-colonizados, o demagogo de ontem costuma transformar-se, paulatinamente, num ditador?
Além disso, os poderes neo-coloniais costumam ser extremamente severos com as vozes independentes na comunicação social, não toleram que belisquem os seu «bom nome» e «honra», ameaçando e reprimindo todos aqueles que ponham em dúvida a sua probidade.
Os grandes que controlam essas marionetes, das «repúblicas bananeiras», não se importam muito com o cortejo obsceno de corrupção e de má gestão, desde que as marionetes façam o seu trabalho, ou seja, reprimam o necessário para que o país neo-colonizado assim continue; no tempo dos imperadores romanos chamavam-se sátrapas aos reis vassalos. O objecto, a razão de ser profunda da dominação neo-colonial, do ponto de vista da potência dominante, é a hegemonia sobre os recursos económicos. Em todos os sectores os recursos mais valiosos estão a saque:
·         São as pescas e a zona económica exclusiva, completamente entregues às frotas dos países pesqueiros mais fortes da EU, nomeadamente de Espanha;
·         É o grande capital financeiro, com sede em vários países europeus sobretudo Espanha, Alemanha, Grã-Bretanha, França e Suíça, a tomar participação na banca e seguradoras;
·         Também se nota essa colonização no imobiliário, sobretudo escritórios e empreendimentos de luxo.
Tudo o que possui elevada margem de lucro é logo abocanhado por consórcios internacionais, em geral, com um «testa de ferro» português.
Com a agricultura passou-se algo diferente. Quando ambas as nações ibéricas aderiram à CEE, a Espanha invadiu o mercado português com produtos agrícolas bem mais baratos, mesmo quando de qualidade inferior. Os produtos portugueses não puderam competir. As falências ocorreram em série, em grande parte porque o poder político, querendo mostrar-se «bom aluno», antecipou a introdução da «PAC» (política agrícola comum), precipitando assim a ruína deste sector, fulcral para a sobrevivência de Portugal como entidade independente.
Não é necessário ser-se um génio da economia, para se prever onde isto tudo iria desembocar: passados vinte e cinco anos, estamos na cauda da EU, em inúmeros aspectos. Houve uma regressão da qualidade de vida para, pelo menos, dois terços da população.
Os portugueses recomeçaram a fazer o caminho da emigração, repetindo assim o dos seus pais e avós, que nos anos sessenta tiveram de ir trabalhar para os países ricos da Europa.
Mas agora, muitos dos emigrantes são jovens com elevada competência científica e técnica, que não encontram aqui um reconhecimento mínimo: a fuga dos cérebros está a acontecer em ritmo acelerado. São mais de 50 mil, estima-se, os jovens com grau de licenciatura ou mais elevado (num país com poucos licenciados) vivendo e trabalhando no estrangeiro: são emigrantes definitivos, encontraram nesses países as condições e reconhecimento, que não tiveram aqui. Cresceram e formaram-se com pesado investimento de suas famílias e do Estado, mas irão enriquecer as economias dos países mais fortes.
Que hipóteses restarão a este país? Terá um «futuro», sem dúvida, se assim se pode chamar: servirá de estância de férias para as classes trabalhadoras dos países mais ricos. À primeira vista o turismo é uma coisa boa, pois traz divisas, traz emprego, é riqueza para a nossa economia depauperada. Porém, não é assim tão simples:
·           Tal actividade ainda é a mais geradora de desequilíbrios demográficos, a população toda concentrada no litoral, as aldeias e vilas do interior a morrerem lentamente;
·         Causa impactos ambientais muito negativos, basta ver as estufas e rega intensiva no Algarve, as construções em locais frágeis, como a Costa Alentejana;
·            Quem não conhece os campos golfe, que se multiplicam como  cogumelos? São um atentado ecológico, desde os herbicidas e pesticidas usados em grandes quantidades, até à sua implantação em zonas desanexadas da Reserva Agrícola Nacional, para não falar das quantidades absurdas de água de rega desviada para esses consumos de luxo!
O interior, humanamente desertificado, sem explorações agrícolas, vai sendo ocupado pelo «deserto verde», o eucaliptal que tudo invade, não havendo sequer possibilidade de salvar o ecossistema do montado de sobro, um dos mais produtivos e variados ecossistemas mediterrânicos, um ecossistema que seria a base natural da nossa agricultura e indústria, em bases sustentáveis.
O país depauperado é também explorado no labor das suas gentes. Com o rebentar da crise internacional, descobrimos que o tecido industrial é largamente composto (80% aproximadamente!) por empresas sucursais ou subordinadas de empresas com sede noutros países. Estas empresas chamam-se «maquiladoras», no México e noutros países da América Central; apenas produzem para o mercado dos EUA. Cada unidade fabrica apenas alguns componentes, algumas peças, que são depois concluídas, reunidas nos EUA. Aproveitam assim o baixíssimo custo da mão-de-obra e a ausência de controlo em relação a regulamentação ambiental. Em Portugal passa-se o mesmo.
Estas maquiladoras fecham logo que o seu produto deixa de ser necessário à indústria automóvel ou de semi-condutores ou outra, no país sede. Ou logo que encontram condições de exploração mais impiedosas da classe operária noutros países. Isto acontece tipicamente com as maiores empresas da nossa indústria, quer em volume de facturação, quer em termos de postos de trabalho directos ou indirectos (ex: Qimonda, Ford Volkswagen).
O desenvolvimento, nos últimos 25 anos, resumiu-se a vender mão-de-obra barata aos patrões das transnacionais. Estes realizaram um óptimo retorno dos seus investimentos, com uma liberdade ilimitada de exportação dos seus lucros.
O governo nunca se deu os meios, nem esteve interessado em obrigá-los, quando decidiram deslocalizar (veja-se o caso da Opel e de muitas outras), a restituir as ajudas à implantação, permanência, ao emprego, etc. Desde isenções de impostos industriais ou das contribuições patronais para a segurança social, até ao fechar de olhos perante esquemas de facturação fraudulenta para escapar ao fisco, as grandes empresas transnacionais obtiveram tudo o que quiseram, aqui.
Portugal é - de facto - mais um país neo-colonial, um paraíso para o grande capital internacional. Pode ser uma antiga nação europeia, pode já ter sido uma potência colonial, isso pouco importa. O capitalismo não se importa com tradições históricas, ou com outra coisa, excepto com o lucro.
Oxalá, se comece a compreender este aparente mistério, de como um país, apesar de tão boas condições naturais, estar neste estado lastimoso.
A análise destes factos, o reconhecimento de que esta situação é típica duma neo-colónia, permitiria situar o discurso e acção no terreno da realidade.

Seria condição indispensável para se encetar um caminho de emancipação e desenvolvimento sustentável.