segunda-feira, 17 de abril de 2017

O QUE OCULTA O TEATRO ELEITORAL?


O sistema eleitoral instituído nas chamadas democracias, implica não apenas um voto universal, ou seja, qualquer cidadão/cidadã pode ser eleitor, como também que os candidatos uma vez eleitos tenham apenas de prestar contas aos seus verdadeiros «empregadores». E quem são eles? 
Basicamente são os financiadores das campanhas, entidades que têm obviamente algo a ganhar com a eleição de tal ou tal candidato, não admitindo portanto que este se desvie do verdadeiro programa – aquelas garantias com base nas quais recebeu montões de dinheiro para pagar a sua campanha eleitoral, como monstruosa campanha publicitária. 
É assim que as eleições se transformam em meros despiques para ver que candidato tem a melhor equipa de publicitários por detrás, em geral a mais bem paga… 

As pessoas que votam têm, em geral, uma visão completamente diferente deste cenário. Pensam que são participantes do processo de tomada de decisão no seu país, contribuindo com o seu voto para a escolha dos políticos que irão representá-los. 
Esta ideia totalmente ingénua é matraqueada – vezes sem conta – a todos os níveis, mas ainda assim, as pessoas precisam de algo mais, isto não chega. Então, para as «incentivar» é preciso o medo. 
O medo é que faz votar. Porque as pessoas votam sobretudo «contra». O medo do candidato do outro partido, odiado e temido, esse é o factor decisivo pelo qual uma fracção muito importante do eleitorado se mobiliza para ir votar.

Depois, evidentemente, a realidade impõe-se, após o carnaval eleitoral, seja nos países ricos e poderosos, seja nas «repúblicas bananeiras», não importa. 
Em ambos os casos, a oligarquia ao comando assegura-se que os recém-eleitos vão fazer aquilo para que realmente foram pagos. 
Não o seu programa eleitoral, evidentemente, mas somente o programa de manutenção do «status quo», polvilhado - aqui e acolá - de uma pequena medida inócua, de uma pequena variante sem importância, mas que a media – a prostituta de serviço – irá hipertrofiar, como sendo um sinal de que o governo realmente mudou, de que as coisas agora são diferentes!

Este sistema funciona de maneira mais ou menos eficaz, repetindo-se o ciclo ao longo dos anos, em várias «democracias». 
Mas este sistema deveria ser rejeitado, na medida em que quase todos os eleitores ficam frustrados, mesmo aqueles que votaram nos candidatos maioritários e que vêm o «seu» partido ou candidato subir ao poder, pois - aos poucos - vão percebendo que as suas esperanças eram infundadas e que os novos rostos apenas trouxeram mais do mesmo.

Então, como é que ele subsiste e, mesmo, prospera? 
Trata-se de um paradoxo, tanto mais que as pessoas comuns têm uma visão já não tão ingénua do sistema, todas sabem que há uma enorme dose de representação (teatral) no palco da política?

Aqui entram dois factores de psicologia das massas que interessa analisar.

1-    O factor desresponsabilização: a maneira como o eleitor anonimamente coloca o voto na urna, faz com que esteja completamente «impune», seja qual for o resultado, sejam quais forem as consequências do seu acto. A impunidade significa que poucas pessoas proclamam aos quatro ventos em quem votaram (e, mesmo neste número, até pode acontecer que algumas não sejam sinceras). Portanto, a grande maioria das pessoas sente-se psicologicamente «irresponsável», sempre que participou activamente na subida ao poder de um dado candidato, de uma dada facção, de um dado partido e esta escolha se revela como desastrosa.  Muitas pessoas «consolam-se» prometendo a si próprias votar noutro candidato, noutro partido, aquando das eleições seguintes.

O mecanismo de retirada da responsabilidade é completamente previsto e acarinhado pelo sistema em vigor. Não é um acaso, não é uma «falha» do sistema. É condição essencial. Logicamente as pessoas – ao votarem dentro deste contexto – nunca são praticamente tornadas responsáveis ou coniventes pelos crimes, grandes ou pequenos, daqueles que eles ajudaram a colocar no poder. Quando nos dizem que as nossas «democracias» são promotoras da responsabilidade e do sentido cívico dos cidadãos, não podiam dizer mentira mais descarada!

2-    O constrangimento do grupo. Dentro de um determinado grupo, é muito difícil de se ter uma visão diferente, uma forma diferente de se estar, de se comportar e de se ser aceite. A maior parte dos grupos humanos, sejam eles «naturais», como a família, sejam eles colegas de profissão, amigos, etc… não aceitam muito bem alguém que contradiz aspectos essenciais da sua coesão. A ideologia é um deles, não dos menos fortes. Por isso, os que não se conformam com a norma imperante dentro de determinado grupo serão relegados para as margens, tolerados no limite. Para muitas pessoas, o medo de serem expulsas e serem consideradas traidoras, de serem ostracizadas… causa um medo maior do que a aceitação de toda a irracionalidade inerente às escolhas do grupo.

Então, muitas pessoas, apenas manifestarão da forma mais ténue os seus pensamentos de dissidência, ou mesmo não irão sequer exprimir essa divergência com a norma dominante dentro do seu grupo.
Por outro lado, as pessoas sentem-se «fortes» quando estão no seio de uma multidão que clama pelo mesmo que elas, seja num comício partidário, seja num jogo desportivo… ou, como antigamente, nas batalhas - precedidas por cânticos e gritos guerreiros ritualizados.

São, portanto, estes dois factores que têm a ver com a manutenção das pessoas num estado de infantilismo, por um lado, e de medo de exclusão, pelo outro, os factores decisivos na manutenção do mito de serem os presentes sistemas de governo considerados como democracias.
Portanto, as pessoas teriam de ser capazes de individual e colectivamente perderem o medo: o medo de serem apontadas a dedo, o medo de serem excluídos da «tribo». Assim, haveria hipótese de se comportarem como adultas e responsáveis, pelos seus actos, incluindo a escolha de seus mandatários ou representantes.

Penso, contrariamente às teorias pessimistas e antidemocráticas, que há lugar para uma verdadeira pedagogia cívica. Um grande objectivo de tal pedagogia seria as pessoas assumirem os seus actos, não terem medo. Deve-se aceitar que somos todos falíveis, que - muitas vezes - cometemos erros com as melhores das intenções, além de que por vezes, somos impulsionados por forças psicológicas nada reluzentes, como a inveja, a vingança, o desejo de poder…

Mas uma pedagogia partindo do princípio da realidade «tal como ela é», não se conforma com esta, não se «adapta» a ela, mas está apostada em transformá-la.

Como? Através da modificação das condições em que as pessoas evoluem, desde os anos mais precoces, passando pela escolaridade, pela actividade profissional, etc. Se as condições forem favoráveis, as pessoas tomam uma postura mais aberta e mais amadurecida, pois elas ficarão mais felizes (alguns dirão que produzirão mais «hormonas do prazer») se estimadas por aquilo que são e pela sua contribuição livre e voluntária à comunidade, com toda a reciprocidade e estímulo que isso implicará.

A democracia directa é possível e já é realizada em pequena escala, de forma mais ou menos formalizada, em pequenos ou médios agrupamentos humanos. A transformação dessa forma de democracia à escala de conjuntos maiores, de muitos milhares de cidadãos ou mesmo de um país inteiro, será possível, não será uma utopia pois o engenho das pessoas, da espécie humana, permitiu muitas formas diferentes de organização social e política no passado e, no presente, existem muitas diferenças entre os povos, no que toca aos seus regimes políticos. Portanto, o argumento de que, intrinsecamente, pela natureza da espécie humana, seria impossível uma democracia directa, participada, em larga escala, é falho de lógica, de fundamento e parece-me ser um argumento para encobrir uma atitude conformista.

Afinal, o teatro eleitoral, esse sim, impede a democracia verdadeira de se manifestar, pois oculta e confunde os cidadãos sobre o que seria uma verdadeira democracia ou seja, a tomada colectiva de decisões, a deliberação livre depois de discussão livre e bem informada sobre quaisquer assuntos que digam respeito às mesmas pessoas que deliberam.