sexta-feira, 28 de outubro de 2016

COLONIALISMO CULTURAL / CRIAÇÃO AUTÓCTONE

Uma forma particularmente odiosa de colonialismo - pelo facto de ser insidiosa, não-detetável pelas pessoas pouco atentas, revestindo-se dos ouropéis do humanismo - é o chamado «colonialismo cultural». 
A sua forma acabada corresponde à importação pelo colonizado dos valores que pertencem ao imaginário, à cultura do colonizador. Aqui, a colonização mental chegou ao seu apogeu e será muito difícil, embora não impossível, que o colonizado acorde dos seus devaneios de «pertencer ao mesmo mundo» que o dominador. 
A maior fábrica de colonização cultural no momento presente são os media e sobretudo a chamada «indústria do entretenimento», que introduz uma forma específica de cultura de massas, com Holywood, com a música popular, os videojogos, as modas... 
Essas «modas» variam a uma grande velocidade, funcionando como identificativo de cada «geração» de adolescentes/jovens adultos.  
A utilização frequente e escusada de termos em inglês, nas línguas latinas é um sinal claro dessa colonização, ao nível mental mais profundo. As pessoas já não conseguem falar naturalmente sem introduzir anglicismos no seu discurso. Os termos na língua de origem que designam ou designavam os mesmos objectos ou conceitos, são agora descartados. A sua utilização, paradoxalmente, dá uma impressão de pedantismo, de elitismo.
A necessidade inconsciente de identificação com a cultura dominante, os «vencedores», suscita essa imitação, à primeira vista inócua. Porém, ela produz a aceitação e assimilação acrítica dos valores, modos, cultos, ideias... do opressor pelo oprimido.

Não tenho uma solução para o problema, além de verificar que é possível e desejável preservarmos as culturas de origem, de não cairmos na adoração imbecil do que vem da cultura dominante. 
Não defendo, porém, que se caia  na armadilha oposta do nacionalismo estreito, da xenofobia, da recusa do Outro. 
Penso que a cultura de um povo deve evoluir a partir de dentro. Todas as culturas podem assimilar sem macaquear, adaptando o que vem de outras culturas à suas características próprias. 
O papel genuíno dos intelectuais, dos educadores, das pessoas com maior relevo e influência dentro de uma comunidade, foi e será sempre a criação autóctone de objetos culturais - sejam eles objetos propriamente ditos, sejam eles bens imateriais. 
Podíamos imaginar um «culturómetro», ou seja uma medida de quantos objetos culturais são produzidos por uma determinada estrutura, desde uma associação de bairro, até uma academia, ou um país inteiro. Poderíamos ponderar qual a difusão relativa dos produtos culturais próprios, em relação aos estrangeiros:
- Quantas horas de música de autores portugueses em comparação com as horas totais de emissão das diversas rádios. 
- Quantos filmes portugueses projetados (quantos dias eles são visíveis e em quantas salas).
- Quantas exposições de arte apresentando um ou vários artistas portugueses e qual a sua frequência em termos de público, por confronto com a totalidade das exposições de arte, anualmente.
-Quantos livros portugueses editados e o volume das edições, comparados com livros estrangeiros, traduzidos ou não, editados em Portugal.
Se pudermos ter as estatísticas sobre um conjunto de indicadores, talvez até outros diferentes dos apontados acima, podemos acompanhar a evolução dos fenómenos. 
Parece-me o primeiro passo: dar uma imagem da vitalidade das artes e cultura autóctones, face a uma cultura cosmopolita.