quarta-feira, 22 de março de 2017

DOZE EPIGRAMAS -1977

EPIGRAMAS*

1.

Agrilhoado aos tendões do desespero
Canto raivoso o cativeiro
Do corpo cansado prisioneiro
Impaciente a morte espero



2.

Meço o Mundo pelos passos
Que marcam o tempo gasto
Anos-luz de sonhos que arrasto
Na quarta dimensão dos espaços



3.

Sem falar diz-me tudo nos lábios
Como a bruma beija no mar
O pescador de olhos sábios
Que sabe no céu a rota tomar



4.

Com o olhar revela segredos
Como a fonte vertendo na noite
Suaves lágrimas de rochedos



5.

Semeias pelas janelas da cidade
Cantos leves como o vento



6.

Segredos à flor dos lábios
Olhos cerrados no azul
Abismo em campo aberto



7.

Tudo se diz no silêncio
É impossível fechar os ouvidos ao silêncio
É impossível calar o silêncio



8.

Palavras para quê?
Não ouves o grilo cantando a sua serenata?
O fogo a crepitar na lareira?
As estrelas difundem uma harmonia límpida;
São lágrimas?



9.

Sinto o sangue a latejar na cabeça
Abre-se-me o corpo em flor
Descubro uma chaga no lugar do coração



10.

Em ti redescobri o objecto há muito tempo perdido
Há tanto tempo...
Sabor a sal, a algas marinhas, a moluscos
Dentro de conchas nac’radas...



11.

Há em mim
“Um-não-sei-quê”
Que se esvai
Um cisne preto
Deslizando sobre o lago
Numa manhã outonal





12.

Da fé pela minha estrela
Mui cedo me desenganei
Agora só me desvela
A saudade de quem amei




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(*) Esta recolha de Epigramas pertence ao livro de poemas inédito, «Anónimo Eu». Neste, recolhem-se alguns poemas escritos em 1977 e nos dois anos anteriores.  
Estes epigramas não têm relação entre si, como se pode ver imediatamente pela pluralidade temática. Porém, liga-os a inspiração estética comum quer à poesia haiku, quer à quadra popular.