A tese da emergência da espécie humana «moderna», pelo cruzamento de precursores de várias origens (africana, asiática, europeia) não está de todo arredada. A apresentadora descreve uma imagem simplista da tese «policêntrica», que teve algum sucesso no século XIX, mas foi descartada, pois foi utilizada como suposto fundamento para as «raças» humanas e teorias de superioridade (e inferioridade) «racial».
Mas, aquilo que se está a pôr em causa, hoje em dia, não respeita à(s) saída(s) de África, isso são factos. O que está em causa é que os humanos «modernos» tenham saído de África e tenham colonizado o Médio Oriente e a Europa, de uma vez.
Há evidências de que houve um certo grau de hibridação com os neandertais, nas supostamente «falhadas» colonizações pelos H. sapiens: existem sequências de Homo sapiens, no ADN de Neandertais datados de antes da chegada definitiva do H. sapiens.
É notável a capacidade ubíqua de adaptação a vários habitats, mostrada não apenas pelo H. sapiens antigo, como também outros membros do género Homo, como os Neandertais ou os Denisovanos.
Aquilo que o breve documentário deixa de fora é o papel que tiveram as introgressões, ou seja, inserção de ADN de uma espécie, no ADN de outra. Este papel foi (e ainda é) importante, pois trouxe maior capacidade de enfrentar desafios ambientais, desde o frio e resistência a patogénicos (genes Neandertais), até à sobrevivência em locais de muito elevada altitude como nos Himalaias (genes Denisovanos) além dos caracteres morfológicos (aliás, estes também podem ter carácter adaptativo...). A espécie humana de hoje, não resulta de um «apuramento da raça» humana, «superior» às restantes, com as quais competiu: Este era o estereótipo do século XIX e muito do séc. XX. As provas físicas mostram que a espécie humana «moderna» foi sendo construída com participação doutras espécies, com as quais havia certo grau de compatibilidade genética. Processo que também ocorreu em cruzamentos com algumas espécies africanas e de que só temos conhecimento através de sequências de ADN presentes no genoma de africanos contemporâneos.
Em definitivo, houve várias «saídas de África» e parece-me muito arriscado presumir que os humanos, Homo sapiens, encontrados em certos pontos da Europa, com mais de 210 mil anos, possam representar necessariamente «uma tentativa falhada». Esta interpretação parece-me tanto mais surpreendente que não se pode ignorar o facto de ADN de Neandertais ser portador de sequência de Homo sapiens «moderno». Estes Neandertais antecedem de centenas de milhares de anos os H. sapiens, na ocupação da Eurásia. Tendo havido cruzamento e fixação de genes, num período indeterminado, mas provavelmente anterior a 210 mil anos, podemos dizer que os primeiros colonizadores humanos «modernos» participaram no conjunto genético dos Neandertais. Não se pode dizer que a colonização falhou, pois deixaram uma marca genética, além dos fósseis de ossos e os artefactos.
Creio que a ideia de que a África paleolítica era semelhante do ponto de vista climático com a de hoje, é insustentável. No deserto do Sahara tem-se encontrado restos fósseis de fauna e flora, cuja presença denota, em certos estratos, um clima muito mais húmido, mais diversificado, com rios, lagos, etc. Neste espaço imenso, os homens «modernos», desenvolveram culturas e atravessaram o Mediterrâneo, em sítios que estavam a seco devido a um nível dos mares muito mais baixo, devido a acumulação de água em glaciares, em consequência do arrefecimento cíclico do planeta (eras glaciares).
Só uma integração de várias disciplinas, pode fornecer uma narração credível das várias migrações da espécie humana e das suas antecessoras.
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