No ano de 2026 começou uma experiência em larga escala, que se veio a revelar de transformação civilizacional.
Nas narrativas do passado longíquo, as bibliotecas eram locais preciosos, onde se guardava a sabedoria, os conhecimentos, as narrativas, as informações técnicas, geográficas, antropológicas e todas as outras áreas do saber. Elas definiam a civilização de uma nação e dum povo. Eram reverenciadas pelos cidadãos comuns e os mais poderosos prestavam-lhes homenagem. Certamente, também houve fogueiras de livros nas inquisições, nas encenações do regime hitleriano e em muitas outras circunstâncias. Mas as fogueiras não eliminavam a curiosidade e até davam mau nome àqueles que as ateavam e alimentavam.
Até que as tecnologias da Internet chegaram. A comunicação passou a ser instantânea ou quase, em termos práticos. A capacidade de armazenagem de documentos tornou-se quase infinita, mesmo para alguém com posses modestas, nesta sociedade: Não apenas os livros, mas vídeos, filmes, etc. cabiam num espaço virtual, a «nuvem», atingindo uma capacidade bem maior - na verdade - do que os leitores mais sistemáticos poderiam jamais ler ou ver.
Então, deu-se uma transformação paradoxal, inesperada, na quase totalidade dos indivíduos: Deixaram de ler obras de ficção ou de ensaio, deixaram de se informar realmente, de procurar o saber... tinham isso na ponta dos dedos, apenas bastando uns poucos clics para alcançar qualquer página, armazenada por eles, ou que os esperava na já citada «nuvem».
O fenómeno era como o de se perder o apetite, perante uma mesa cheia de iguarias, que individualmente faziam crescer a água na boca mas, todas elas assim dispostas, causavam uma espécie de indigestão virtual.
Foi então que certas empresas, associadas a certas agências estatais, decidiram levar a cabo a digitalização em massa de todos os livros mas, em especial, os raros.
Apropriando-se da totalidade dos poucos exemplares restantes, destruiram todos os vestígios materiais deles. Exactamente como Ray Bradbury tinha imaginado no seu romance de antecipação «Fahrenheit 451» ou de forma análoga, mais limpa e eficaz que os lança-chamas para destruição dos livros, no supra-citado romance.
Na verdade, as bibliotecas que eram susceptíveis de conservar o maior número das obras raras, não só não fizeram resistência, como foram as primeiras a oferecer sua colaboração aos funcionários destas empresas. Mediante um custo irrisório e com prévia autorização administrativa, as bibliotecas de instituições prestigiosas podiam finalmente ver o seu sonho realizado: A empresa fazia a digitalização de todas as obras, ficando a biblioteca e todos os utentes da mesma, com acesso ilimitado a essas mesmas obras.
Muitas bibliotecas tinham graves problemas de conservação. Tinham que combater pragas de insetos xilófagos, de fungos e bolores, que invadiam os vetustos in-fólios onde houvesse uma réstea de humidade... Enfim, era uma luta insana, muitas vezes, sem meios à altura.
Aquele esforço humano e financeiro tornava-se ridículo, sobretudo na era da digitalização a 100 %, em que praticamente ninguém vinha consultar as obras aí armazenadas. Antigamente, a biblioteca abrigava caloiros e graduados académicos, dos mais diversos âmbitos profissionais e geográficos. Mas, recentemente, a biblioteca tornara-se um antro deserto, fantasmagórico, vestígio de uma era passada.
A digitalização integral foi o programa de iniciativa governamental, decidido após consulta às instituições de maior relevância nacional: Das academias científicas, às associações profissionais de docentes; das bancadas parlamentares, às tribunas sindicais, fez-se uma consulta, um plebiscito virtual, com altíssima percentagem de respostas ao inquérito posto a circular na Internet pelo Ministério da Cultura.
O livro digital substituiu o velho livro em papel (ou pergaminho). Qualquer um podia consultar - no seu computador pessoal ou no telemóvel - tudo o que desejasse. As pessoas tinham apenas que se inscrever no site da Biblioteca Universal Digital, pagando uma soma simbólica para consulta das obras sujeitas a direitos autorais, sendo as outras inteiramente gratuitas.
Os autores não protestaram. Pelo contrário; os que antes vegetavam em quase total obscuridade, foram subitamente projetados para os écrans da fama digital. Os que já eram cérebres, não viram seus rendimentos decrescer, pois a cobrança dos direitos de autor também se tornou mais eficaz com a digitalização; além de que beneficiavam do efeito de divulgação no universo digital.
Numa segunda fase, as salas de aula das universidades e liceus ficaram desertas. Os estudantes não viam vantagem em ouvir ao vivo um/uma velho/velha falar do que já tinham visto num vídeo. A comunicação direta em sala de aula, tornou-se anacrónica, acabando por desaparecer. Os professores preferiam isso; davam aulas virtuais onde podiam ouvir e responder às dúvidas ou questões, que os alunos levantassem.
Mas, em todo este processo, havia uma perda de contacto, uma ausência da fricção inerente à comunicação humana. Esta interacção, por trivial que fosse, permitia a alunos e professores manter uma relação afetiva dentro das respectivas instituições. As sessões virtuais em grupo tornaram-se moda, durante algum tempo. Mas, como todas as panaceias, esta foi de curta duração; o efeito de habituação supera rápido, o «frisson» da novidade.
Alguns 'atrasados' não-digitais, ainda tinham consciência do vasto mundo, para além dos écrans. Não valorizavam a parafernália que permitia às pessoas comunicar a milhares de quilómetros de distância. Mas, o reverso era que os vizinhos, os conjuges ou os membros da mesma família, já não sabiam encetar uma conversa naturalmente, só para terem um pouco de 'calor humano' num sorriso, num aperto de mão, ou num beijo...
Mas, os referidos não-digitais estavam demasiado isolados e obrigados, pelo entorno, a comportarem-se dentro das novas normas digitais. A resistência, se é que ela existiu, foi de pouca duração.
Alguns mais teimosos, porém, migraram para sociedades longínquas, como a Papua-Nova Guiné ou, aqui ao lado,para pequenas aldeias onde ainda se fazia agricultura, pastoreio e artesanato... Onde se contavam histórias à lareira, ouviam cantares sacros ou profanos que acompanhavam a lavoura ou ritos da vida comunitária e espiritual. Nunca mais se ouviu falar dos acima mencionados teimosos ... O que não surpreende, pois eles se tinham despojado das maquinetas de contacto, para que sua imersão nas sociedades tradicionais fosse total.
Quanto às sociedades super-conectadas, estas produziram, a breve trecho, indivíduos completamente incapazes de viver num mundo natural. Os seus progenitores ainda tiveram alguma experiência, na infância e juventude, dum mundo sem ligação permanente às máquinas digitais. Porém, seus filhos já não sabiam interagir uns com os outros, diretamente. Tinham que fazer «chat» numa rede social, antes de decidir se iriam manter ou não, o contacto. Como o comércio, a alimentação, a educação e os transportes estavam totalmente digitalizados, estes jovens não podiam sair de dentro do raio da civilização digital, que era a sua.
A capacidade teórica de comunicar com outros mundos, outras civilizações, outras culturas, era apenas fantasia. Na realidade, eles nem estavam apetrechados para um convívio autêntico... nem mesmo nos «chat-rooms»! Vogavam num universo completamente fictício. Não admira que as interações amorosas fossem inexistentes ou, caso existissem, breves e superficiais.
As crianças nascidas destas uniões casuais eram tão poucas, que a própria infraestrutura para acolher os novos humanos - as maternidades, as creches, os jardins de infância, etc.- foi encolhendo severamente... Deu-se o efeito da «bola de neve ao contrário», a redução traz maior redução e esta ainda se acentua mais, e por aí adiante...
Só os mais recuados povos, em cantos remotos onde a civilização digital não chegara, tiveram possibilidade de continuar uma vida social habitual. Umas vezes, era na abundância e alegria, outras, na escassez e tristeza. Mas, era uma vida que se baseava no viver comunitário, no contacto direto, onde as paixões tinham oportunidade de se exprimir, onde as pessoas encontravam linguagem comum para exprimir assuntos graves ou triviais, falando uns aos outros.
As urbes digitalizadas, após um século, ficaram transformadas num imenso mar de ferro-velho. Aí, algumas pessoas esgravatavam, procurando a sua subsistência; alimentos, coisas úteis, ou que elas pudessem trocar por comida. As sociedades morriam aos poucos, por doença crónica interna. Não houve invasões ou guerras de conquista. Quem estaria interessado em suportar parasitas, incapazes de fazer algo com os braços, as pernas e, ainda menos, com as cabeças?
Se vier a existir algo parecido com isto é muito triste, para a espécie humana, em geral. Significa que nossa civilização tecnológica não soube colocar o ser humano no centro das suas preocupações.
Mas, embora se possa ter pena, o facto é que quase todos pareciam - em 2026 - obnubilados, hipnotizados, pela informática, a robótica e a «Inteligência Artificial». A tais pessoas hipnotizadas ou cheias de si próprias, era inútil - e até perigoso - tentar mostrar a realidade. Elas arranjavam maneira de nos acusar de todos os males, por termos outra visão das coisas.
Os poucos indivíduos saudáveis sentiam-se impotentes, mantinham uma postura de auto-defesa, mais preocupados em prevenir-se da loucura ambiente e manter-se sãos de espírito.
Sem comentários:
Enviar um comentário
Todos os comentários são bem vindos que vierem por bem