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sábado, 29 de setembro de 2018

EUROPA UNE-SE À RÚSSIA E À CHINA PARA CONTRARIAR AS SANÇÕES DOS EUA CONTRA O IRÃO



                            



A União Europeia, a Rússia, a China e o Irão anunciaram,  na ocasião da Assembleia Geral das Nações Unidas, que vão criar um Veículo de Propósito Especial, um canal soberano financeiramente independente, para contornar as sanções americanas contra Teerão e permitir que o acordo «JCPOA» (Joint Comprehensive Plan Of Action) possa sustentar-se.
Isto é um marco histórico, na medida em que a aliança dos EUA com a Europa está directamente a ser posta em causa. 
Além disso, pode significar que - noutros aspectos também - a UE estará pronta para (r)estabelecer acordos com o bloco Rússia-China, autonomizando a sua posição, quer no que toca ao comércio, quer no que toca a uma política de sanções, largamente ineficaz e contra-produtiva. 
Há demasiados pontos de divergência objectiva entre os membros da NATO, relativamente a um número crescente de assuntos. Apenas alguns exemplos, do que recentemente tem acontecido:
- A Turquia, estrategicamente importante, firmou acordos com a Rússia, inclusive no plano de fornecimento de armamentos. 
- A China não tem qualquer problema comercial com a UE e seus estados-membros pelo que, nas sanções e guerra comercial  contra a China, os EUA estão à partida isolados; também estão isolados na sabotagem dos acordos firmados no seio da OMC. 
- Quanto à Rússia e as sanções causadas pelo conflito ucraniano e a Crimeia, cada vez mais existem vozes governamentais (Hungria, Itália...) a propor o levantamento das sanções. Igualmente a Alemanha, que precisa do gás natural russo e não cedeu à tentativa de intimidação americana de interromper o gasoduto pelo Báltico, projecto Russo-Alemão de grande significado. 

No entanto, nem tudo são rosas para o regime de Teerão. 
O rial já perdeu dois terços do seu valor desde Maio, quando as primeiras sanções dos EUA foram accionadas. 
Várias grandes empresas ocidentais [Total, Peugeot, Allianz, Renault, Siemens, Daimler, Volvo...], apesar de terem negócios chorudos no Irão, foram obrigadas - pela pressão das sanções americanas - a retirar-se. Ficariam proibidas de actuar no mercado dos EUA se continuassem neste país.  
No fundo, trata-se de uma corrida de velocidade, para as autoridades iranianas: quanto mais depressa cortarem os laços de dependência em relação ao Ocidente, mais as sanções dos EUA e eventuais outros países serão ineficientes.
Nestes últimos anos temos visto o Irão aproximar-se da Organização de Cooperação de Xangai (uma espécie de embrião de «NATO euro-asiática»), tem participado na formação da zona de comércio livre euro-asiática e promovido a utilização das moedas respectivas dos países, nas trocas comerciais bilaterais (por exemplo, entre o Irão e a Índia). 

sábado, 7 de julho de 2018

AFINAL DE CONTAS... A ENERGIA É QUE CONTA!

No calor do Verão, espero que encontrem prazer em ler 2 excelentes artigos: 
- e o outro «As tarifas são ponto de partida para cinquenta anos de guerra comercial com a China», ambos publicados no Asian Times, de autoria de Pepe Escobar.


Ambos os artigos têm muita informação significativa, recorrem a fontes sérias, mas sobretudo, dão-nos uma perspectiva de como realmente, independentemente da retórica e da propaganda, se vão desenhando novas alianças e desfazendo antigas, dadas como certas... 
É o caso da Rússia e Arábia Saudita no primeiro caso  e no segundo, a dissolução da «solidariedade entre aliados», europeus e não só, nada felizes com as sanções contra o Irão, tendo já mostrado que não estão pelos ajustes.
Antes, a Alemanha também tinha manifestado que não estava disposta a aceitar que o Nord-Stream, o fornecimento de gás russo ao norte a Alemanha, por um gasoduto subaquático no Báltico,  fosse  boicotado, com a tentativa pelos EUA em fazer gorar este investimento fundamental para a indústria germânica.       
Muito significativo é o «não» turco em aderir às sanções contra o Irão; este fornece 50% do petróleo consumido na Turquia. 
Basta ter em conta esta situação, para se perceber muitos factos diplomáticos, económicos e militares ocorridos nos últimos tempos, na região.  
O caso da Coreia do Sul e do Japão, em relação às sanções contra o Irão, também é significativo. Vão pedir a suspensão das sanções para o seu comércio alegando a necessidade estratégica do abastecimento do petróleo iraniano aos seus países.
 Não esqueçamos que os EUA ameaçaram impedir quaisquer actividades no território dos EUA, às firmas que participassem em negócios com o Irão.  

Finalmente, percebemos que o «fracking» é um enorme fiasco, tecnológico e económico, além de obviamente um crime ambiental. 

               OECD, Russian oil graphic

Quanto às tarifas comerciais; o presidente dos EUA parece pouco preocupado com uma capacidade produtiva interna muito pouco sólida. 

No mundo de hoje, o lema «América First»     só pode fazer sentido em paralelo com uma abertura e capacidade diplomática de encontrar parcerias e não fazer mais inimigos e «torcer o braço» a súbditos. 
A Rússia de Putin e a China de Xi-Jin-Pin sabem fazer isso: estes dirigentes põem claramente em primeiro lugar o interesse dos seus respectivos países... A arrogância imperial americana é que ainda não o compreendeu, verdadeiramente.
Ou pelo menos, se ao nível do «entourage» mais próximo do Presidente, alguns terão esse entendimento, parece que não será o caso dos que ainda dominam as duas facções democrata-republicana do partido «único» no Senado e Congresso, assim como o «Estado Profundo», ou seja, as entidades cinzentas, mas com poder dentro da CIA, o Dep. de Estado, o Pentágono e outros locais de poder do Estado. 
                          
As guerras físicas começam, muitas vezes, com guerras económicas. O arsenal económico - as sanções, os bloqueios, os boycotts - pode ser tão ou mais letal, que balas e bombas. 
No caso da guerra comercial dos EUA contra a China, creio que se trata de um enorme erro, de um erro derivado da hubris, a auto-confiança excessiva que se apodera dos vencedores e os faz cometer erros fatais. 
Quem depende de quem? Os EUA não têm possibilidade de ir comprar noutros mercados muitos dos produtos manufacturados na China. Não têm possibilidade técnica, nem económica, de suprir as suas necessidades em produtos manufacturados, senão num prazo de anos pois houve uma grande desindustrialização nos EUA  nos últimos 30 anos, sendo impossível restabelecer esta base senão em anos...4, 5 ou até 10 anos, no mínimo! 
Mesmo a «menina dos olhos» dos globalistas, a indústria do armamento, precisa de importar da China «terras raras» para ligas metálicas especiais, para aviões de combate, mísseis, etc. 
Ora a China é um dos poucos fornecedores mundiais de «terras raras» (esses elementos necessários em quantidades muito pequenas, mas insubstituíveis), tal como a Rússia e a Coreia do Norte...

Esta guerra das tarifas, não irá -de certeza- traduzir-se num dobrar da cerviz da China; portanto estamos a assistir, neste Verão, à  viragem para um novo ciclo geoestratégico, que poderá durar muitos anos. As coisas podem apresentar-se de múltiplas maneiras, mas para o poderio dos EUA, o desfecho é inelutável. Esse desfecho é a perda de seu papel hegemónico, a perda de influência no Mundo. 
Os governos - até agora - aliados dos EUA estão inquietos e querem dissociar-se do rumo que as coisas estão a tomar.

                           

sexta-feira, 25 de maio de 2018

PRESIDENTE DOS EMPRESÁRIOS FRANCESES: SANÇÕES DOS EUA CONTRA RÚSSIA SÃO «DELIRANTES»


O patrão dos patrões franceses não «brinca em serviço». A mensagem é clara. A França toda, em peso (não apenas os empresários!) está contra a imposição de sanções à Rússia.  Aliás, o mesmo se passa com a outra grande potência, a Alemanha. 

A partir deste momento, o  Oeste do continente europeu não tomará outra atitude face às sanções dos EUA, senão o distanciamento. Ou isto é um princípio de «rebelião» dos interesses empresariais contra a hegemonia americana, ou não sei como interpretá-lo!  

domingo, 25 de março de 2018

DO MOVIMENTO «#ME TOO» À RUSSO-FOBIA INSTITUCIONAL

Creio que ninguém que me conhece suspeita sequer que sinto a mínima simpatia por predadores sexuais. No entanto, a campanha que foi - há uns meses - erguida por feministas radicais do outro lado do Atlântico, a partir do desmascarar de Harvey Weinstein e outros empresários de Hollywood, transbordou muito rapidamente as marcas, tornando-se uma nova versão de «caça às bruxas/os». 
Porventura, muitas mulheres foram efectivamente vítimas de abusos sexuais diversos. Mas igualmente o arrastar na lama de muitos homens, sem outra evidência para serem considerados uns «predadores sexuais» que as alegações (verdadeiras ou falsas, mas não provadas) das supostas vítimas... fez muito mais mal, quer à justiça em geral, visto que muitos homens inocentes viram as suas vidas destroçadas, quer à causa do verdadeiro feminismo: portador dos valores da igualdade de direitos e de dignidade entre géneros, não dum histerismo em considerar a priori qualquer homem heterossexual como um potencial suspeito de crime hediondo!
A responsabilidade cabe também à  imprensa «tablóide» e a toda ela afinal, pois já não conseguimos distinguir qualquer ética e exigência de rigor nos títulos que tinham reputação de sérios. 
A média foi amplificando este movimento, seguindo o seu princípio de que «quanto mais escandaloso, melhor». Quanto aos acusados dos tais actos sexuais, por vezes de há vinte ou trinta anos, eles que «se defendam». 
O que significou que o chamado «ónus da prova» foi deslocado do acusador para o acusado. O acusado, ao ter de se defender de um alegado crime na praça pública, acaba por adensar as suspeitas em relação à sua inocência. Os que sofrem estas difamações são irreversivelmente destruídos, em termos de imagem pública, de relacionamento familiar, de carreira profissional. As acusadoras têm praticamente garantida a impunidade, não sendo possível, na prática, demonstrar que as suas acusações foram apenas uma perversa mentira, destinada a  atingir alguém que se odeia.
A inversão do dever de prova está agora perigosamente a ocorrer entre Estados, nomeadamente com o governo britânico a exigir à Rússia que esta faça «prova» de que nada tem a ver com uma tentativa de assassinato de dois cidadãos russos, em solo britânico, para logo decretar que o governo russo é culpado, agitando uma série de sanções, diplomáticas e económicas, exigindo que os aliados da Grã-Bretanha se guiem pela mesma bitola.
Aqui também, a ampliação mediática da histeria governamental tem um efeito de ampliação e reforço da convicção no público: para pessoas assustadas, desinformadas e sujeitas a propaganda, os russos são «evidentemente» os responsáveis, não havendo argumentação sensata e equilibrada, que queiram ouvir. 
O público, tal como no caso das denúncias contra alegados «predadores sexuais», aceita tudo como «verdade inquestionável», apenas por as autoridades governamentais afirmarem a sua «convicção» sem provas, seguida no imediato de sanções.

Tristemente, tenho de dar plena razão a Voltaire («difamem, difamem, ficará sempre qualquer coisa»),  mas não significa que esteja conformado com a ditadura de tipo orwelliano que se vem instalando nas chamadas «democracias ocidentais». 
Significa que tenho de assumir que muitas pessoas são tão manipuladas, alienadas, que já nem têm consciência disso. Não sou inteiramente pessimista, porque sei que existem pessoas que conservam o seu espírito crítico no meio destes ventos de histeria colectiva. 
Uma notícia, ao ser veiculada por algum órgão de comunicação ou opinião com o qual temos simpatia, não nos deve impedir de exigir que esse mesmo órgão seja rigoroso e dê provas do que afirma, mormente se são acusações graves, com consequências muito para além dos factos em si mesmo.

domingo, 22 de outubro de 2017

«INFOPROP» E SANÇÕES, ARMAS DE DOMÍNIO DO IMPÉRIO

Muitas pessoas pensam que «imperialismo» implica uma colonização, uma ocupação após guerra de conquista, etc. Isso foi assim no passado: os imperialismos de Espanha e Portugal, por exemplo, invadiram, conquistaram e escravizaram os povos, tanto do continente Americano, como de África e da Ásia, onde se instalaram.

Porém, hoje em dia, o imperialismo Anglo-Americano é sobretudo baseado em redes de conivências no chamado mundo ocidental e faz uso da ameaça da força mais do que da força bruta directa. 
Por vezes, não hesita em usar esta mesma força de coerção, em caso de não haver outro meio. 
O seu comportamento é o de um constante assédio («bullying») aos países que tentam sair da sua órbita. 

Isto tudo vem a propósito das sanções económicas, levadas a cabo pelo Império, contra todos os regimes que fazem obstáculo às suas ambições hegemónicas.
Porém, as sanções económicas, pretendendo castigar um regime, apenas castigam os que já sofrem bastante com esse regime. As vítimas das sanções são as populações, tanto os elementos que apoiam activamente o tal regime sancionado, como os que não apoiam de todo o regime em causa. 
Caso a situação se mantenha, é sinal de que os regimes foram talvez isolados mas, em simultâneo, foram consolidados, pois as suas populações identificaram essas sanções como um ataque directo aos seus direitos e muitas delas se alinharam com o referido regime em consequência disso, ou pelo menos, não se rebelaram contra ele.   
Aquilo que a propaganda dos falcões promove, é afinal a utilização de sanções económicas como arma de subjugação de inimigos e aliados em simultâneo e como forma de afirmar de que são eles os «donos do mundo».

Não existem nunca motivos legítimos para as sanções económicas, pois são tipicamente sanções colectivas, que têm efeitos devastadores na sociedade civil dos países sancionados. São populações indefesas, as principais vítimas, trata-se de uma punição colectiva, indiscriminada. 

Trata-se de um crime de guerra, de uma forma odiosa de impor a sua vontade, destruindo as condições - quantas vezes já precárias - de sobrevivência das populações. 
Não há portanto justificação nenhuma para impor sanções económicas, sejam elas traduzidas no concreto por embargo de alimentos, medicamentos, ou tecnologias. 

Uma forma de anular o potencial de resistência dos povos, incluindo os povos dos países ditos desenvolvidos do Império (EUA, Grã Bretanha, Austrália, Canadá e os países da União Europeia) é sonegar informação relevante, mesmo aquela que é originada pelas instituições dos mesmos países. 
Coisas irrelevantes são abundantemente noticiadas, mas a notícia abaixo* por exemplo, não é veiculada, ou seja, aquilo que é sujeito a «black out» informativo não «existe», no universo dos media. 
É a ditadura  nos media um meio objectivo de manter a ditadura mais geral do Império anglo-americano. 
Se tivermos atenção, vemos que há muitas notícias relevantes que são ocultadas deste modo ao público. Entretanto, as chamadas notícias são - cada vez mais- outra forma de «entretenimento» para as massas, onde as intrigas e escândalos com estrelas do cinema, da canção ou do desporto enchem os noticiários de abertura dos jornais tele-visionados e do resto. 
A guerra, hoje em dia, é de natureza económica, mas também de «infoprop» (neologismo derivado da contracção de informação+propaganda). Note-se que outra característica peculiar é que ambos estes meios bélicos - sanções económicas e infoprop - se dirigem tanto a potências inimigas como amigas. 
A guerra suja contra a Rússia, pelos EUA, é também uma guerra suja contra os seus concorrentes da UE, formalmente seus aliados (em 3 anos, a UE perdeu 30 biliões de €, por causa das sanções à Rússia!*). 
Note-se que a infoprop tem sido servida em quantidades ilimitadas nos próprios países que a fabricam, pelo simples motivo de que as suas populações têm de ser convencidas de que os seus governos trabalham para o «bem» e que os outros são os «maus». 
Nesta era de comunicações globais e de grandes desafios verdadeiros à humanidade no seu todo, os meios desprezíveis ou criminosos dos imperialistas causam cada vez maior repúdio, não apenas nas populações que são vítimas das agressões, como às próprias pessoas dos países que executam estes actos de agressão. 

Esperemos que estas formas insidiosas e cobardes de fazer a guerra sejam cada vez mais desmascaradas e que tal seja reconhecido pelas pessoas decentes e racionais, a imensa maioria em todos os países, mesmo nos que são esteio das  políticas imperialistas. 

*A new research by the Austrian Institute of Economic Research (WIFO) suggests the EU’s economic sanctions against Russia introduced three years ago have cost European countries billions of euros. The survey, which was conducted at the request of the European Parliament, and published on October 6, showed that the EU has lost €30bn due to sanctions.
Citação de: https://www.strategic-culture.org/news/2017/10/22/us-gets-increasingly-isolated-internationally.html

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

SANÇÕES UNILATERAIS SÃO ACTOS DE GUERRA E CRIMES SEGUNDO LEI INTERNACIONAL

                            Foto de Manuel Baptista.
       A política de sanções que a aristocracia americana (e o Estado profundo) está a impor a um presidente fraco e manietado pela sua própria hesitação, está a chegar ao ponto de ruptura com os aliados tradicionais dos EUA. 
Igualmente, a atitude dos chamados «inimigos», russos e chineses, não pode mais continuar a ser de complacência, nem de crer que os líderes do império globalista desejam negociar. 

Com efeito, as sanções são actos de guerra, segundo a definição da ONU. Também segundo o estabelecido pela ONU, é ilegal um país impor sanções a outros, de forma unilateral. É, pois, a lei internacional que está sendo constantemente espezinhada por aqueles em cujo território está a sede da ONU! 

Além da ilegalidade, há outros aspectos substanciais que importa destacar: 
- as populações e não as elites governantes é que são as vítimas de embargos, sanções, etc. 
- estas medidas hostis têm como natural consequência o entrincheirar dos regimes visados; a sua popularidade geralmente cresce; proporciona uma união nacional, ou reforça-se esta, em torno dos líderes. Nunca as sanções resolveram problemas internos de quaisquer regimes.
- finalmente, para os arautos do «comércio livre», uma nação pretender ditar às restantes as regras de quem, como e o quê se pode comerciar é o máximo do cinismo. Embora já soubéssemos que o «liberalismo» deles se resumia a impor os interesses da superpotência dominante aos restantes actores, vemos que deixaram cair a máscara.

Constatação inquietante: o único vector constante na política externa dos EUA é a imposição pela força da sua vontade, não hesitando até fazer a guerra, sempre que exista uma grande assimetria de armamento com os regimes que eles antagonizam. 

Tão depressa colocam meio mundo sob sanções, como pretendem liderar o concerto das nações; tão depressa cometem e apoiam crimes de guerra sem fim, como se perfilam enquanto paladinos dos direitos humanos; tão depressa apoiam os regimes mais despóticos e contrários ao direito, como pretendem ser a «nação excepcional». 

                           

Talvez agora a UE mostre que não é assim tão servil, talvez saiba dizer «NÃO!» a sanções, que - parece - lhes são antes destinadas: a eles, aos aliados dos EUA, aos parceiros da NATO. 

 Mas eu não acredito que tal possa acontecer, enquanto a população europeia não acordar da letargia em que se encontra. 

Para manter o adormecimento, a media corporativa joga um papel de relevo. Que tem sido assim, mostram-nos as informações e análises sobre o papel da CIA, especialmente nos media da Europa, recentemente vindas a público graças a «whistleblowers» e ex-operacionais das agências secretas. 
Mas, na maioria dos casos, estas informações são ocultadas, ignoradas, pela media ao serviço dos poderosos.

Podemos estar no momento de passagem da «Guerra Fria 2.0» à «Guerra Quente». 

                                       

quinta-feira, 20 de julho de 2017

CAMINHOS DE PAZ NA PENÍNSULA COREANA

         

Pode-se ter uma opinião muito negativa sobre a dinastia vermelha que reina em Pyongyang. A media ocidental gosta de retratar o líder da Coreia do Norte com roupagens de extravagante e cruel déspota. Tudo o que fazem é reforçar preconceitos, como o de que o «comunismo» necessariamente conduz a monstruosidades como esta, ou ainda que a «raça amarela» é fanática e tem uma obediência cega ao líder carismático. 

Mas, interessará discutir numa base moral ou racial os regimes e as suas políticas? Não seria mais produtivo e inteligente fazer-se uma avaliação pragmática das políticas internas e externas dos diversos países? 

Com efeito, a estratégia da Coreia do Norte, no que toca à sua defesa, é tudo menos estúpida
É uma estratégia destinada a meter medo aos EUA, o país que nos anos da guerra da Coreia, ameaçou o Norte com o lançamento de uma bomba nuclear, que efectuou sistemático «carpet bombing» contra áreas industriais e aldeias na Coreia do Norte, crime de guerra na escala do genocídio. 
Evidentemente, isso não é ensinado nas escolas ou difundido na media de nenhum país ocidental, nem tãopouco nas escolas e media da Coreia do Sul. 
Os seus episódios dramáticos estão presentes na memória do povo da Coreia do Norte. 

Nós sabemos que o Iraque não tinha «armas de destruíção maciça» e o Pentágono e a CIA também sabiam o mesmo; porém houve uma campanha de provocações, culminando com uma cena teatral de Colin Powell na ONU, agitando um frasquinho como «prova» de que os iraquianos tinham armas de destruíção maciça e que se tinha de derrubar o ditador. 
O mesmo se passou em 2014, quando fizeram crer que um ataque usando armas químicas contra civis, da autoria dos terroristas islamitas que combatiam Assad, tinha sido obra do regime sírio. O que evitou uma invasão pelo «virtuoso» polícia mundial e seus vassalos, foi - por um lado - a Câmara dos Comuns britânica ter negado ao primeiro ministro Cameron o apoio à guerra na Síria, com o «Grande Irmão» americano, e - por outro lado - a proposta russa de desactivar e retirar todas as armas químicas na posse do regime sírio, proposta essa que foi aprovada e implementada pela ONU. 
Podemos ver pelos exemplos acima que os EUA atacam, bombardeiam, invadem, quando têm a certeza que o outro país está incapaz de se defender, de realizar um contra-ataque devastador. 

Como dissuasor de tais ataques, o programa  norte-coreano de desenvolvimento de mísseis balísticos intercontinentais e de bombas nucleares faz todo o sentido. 
O regime da Coreia do Norte não poderia aguentar-se face às ameaças permanentes da maior potência militar que jamais existiu no Planeta, sem uma forma ou outra de retaliação, suficiente para deter o ímpeto dos neocons, com suas delirantes doutrinas de hegemonia planetária. Estes têm dominado a política externa de Washington, desde de Bill Clinton, até hoje.  

Outro dado do problema, a política de mais de seis décadas (!) na região manteve sempre o status quo entre as duas Coreias, por uma simples razão: durante o período da guerra fria, de 1954-91, e depois, mantiveram-se e consolidaram-se dois regimes totalmente opostos, em termos de valores, de política, de economia, de alianças, de modos de vida e de cultura, na península da Coreia
A unificação da Coreia parece apenas um objectivo longínquo, que os dirigentes costumam introduzir nos seus discursos, para ir ao encontro dos sentimentos das massas, as quais têm parentes ou amigos de um e outro lado da linha de demarcação que faz as vezes de fronteira entre as duas Coreias. Mas, do ponto de vista das potências externas esta situação de «nem paz, nem guerra» permitiu que elas se imiscuíssem nos assuntos da península coreana. 
Nomeadamente, os EUA mantiveram - desde o tempo da guerra da Coreia até hoje - um exército de 35 mil homens, pelo menos, além de um número elevado de civis que dão apoio a bases militares americanas na Coreia do Sul. 
Esta situação não poderia continuar se os dois regimes se entendessem, se baixarem as ameaças de parte a parte, se houvesse um tratado de paz, passados 63 anos sobre o fim da guerra da Coreia. Este tem sido repetidas vezes proposto por parte da Coreia do Norte e persistentemente negado do lado americano, sob os mais diversos pretextos.  
Os mísseis THAAD, supostamente defensivos, são - na verdade - ofensivos. Com efeito, a decisão de serem disparados como retaliação contra o inimigo do Norte, ou em «prevenção» contra uma (suposta) ameaça, está inteiramente nas mãos dos americanos. 
O novo presidente da Coreia, Moon Jae-in, teve um primeiro amargo de boca diplomático e militar, pouco depois de ter assumido a presidência, ao verificar que o número e localização desses sistemas de mísseis lhe tinham sido ocultados e que se preparavam para instalar ainda mais sistemas sem o seu conhecimento, sem a prévia autorização do chefe de Estado da Coreia do Sul.
Neste contexto, o duo Rússia-China tem feito esforços para apaziguar, para levar os lados a sentarem-se à mesa de negociações. 

Contrariando a rígida política de «guerra fria», a Presidente destituída Park Geun-hye, apesar do seu conservadorismo, continuou e aprofundou as boas relações com a China. 
As relações económicas e comerciais desenvolveram-se: muitos produtos industriais coreanos são hoje fabricados na China e há um constante afluxo de turistas chineses à Coreia do Sul. 

A política sul-coreana em relação ao regime do norte foi, em momentos recentes da História, pautada por realismo e por um desejo de aproximação passo a passo: isso traduziu-se pela abertura de centros de manufatura industrial sul coreanos, em território da Coreia do Norte. 
Kim Dae-jung, o presidente que protagonizou essa política, recebeu o prémio Nobel da paz, mas o seu partido não conseguiu manter-se no poder e entretanto, com a «guerra contra o terror» decretada por George W. Bush, houve um re-alinhamento mais estricto da política externa coreana com as posições americanas.

Durante os dois mandatos de Obama, tanto em relação ao Irão como à Coreia do Norte,  a política de sanções e a ameaça do uso da força têm levado ao fechamento (previsível) e à consolidação (previsível) destes regimes em face da ameaça externa. 
A guerra económica é uma forma de guerra e não menos cruel do que as guerras «quentes»; lembremos que Madeleine Albright (secretária de Estado de Bill Clinton) declarou que as sanções contra o Iraque «tinham valido a pena», apesar da entrevistadora lhe ter lembrado as cerca de 500 000 mortes de crianças iraquianas provocadas pelas mesmas. 

Analogamente, as fomes de que se fala em relação à Coreia do Norte, não terão a ver, tanto com a incompetência ou insensibilidade dum regime ditatorial em relação à sua própria população, mas antes com as severas sanções económicas que o «Ocidente», sob a batuta dos EUA, impõe a este país. 

Agora - apesar duma adminstração Trump incapaz de se libertar da chantagem e sabotagem dos «neocons», que continuam a dominar o «Estado profundo» - surgiu uma  nova possibilidade de abertura, com o novo presidente Sul-coreano propondo conversações directas  Norte - Sul, ao nível de chefias militares e da Cruz Vermelha. 
Isto seria uma boa base para diminuir as tensões e riscos de uma guerra se desencadear devido a um simples erro humano, como tem hipóteses de acontecer nos cenários onde existem armas sofisticadas, programadas para automaticamente detetar e reagir a quaisquer invasões inimigas do espaço aéreo.

               Foto de Ann Wright.

Na guerra fria Nº1 houve várias circunstâncias em que se esteve próximo de se desencadear uma guerra EUA- URSS por engano. Lembro-me do exemplo de um bando de gansos selvagens ter sido captado nos radares de um dos lados e tomado por uma esquadrilha de aviões invasora ...

Igualmente prometedora é a linha de comboio trans-coreana, que permitirá o transporte de produtos da Coreia do Sul por via terrestre, via Sibéria, para a Europa: esta será um importante troço do gigantesco projecto One Belt One Road, levado a cabo pela China, Rússia e pelos países seus aliados.
Os interesses económicos partilhados, a estratégia «win-win», são o meio mais seguro de garantir que se preserva a paz. 



Uma potência mundial em ascenção, a China, tem esta postura. Outra, em decadência acelerada, os EUA, agarra-se à política do «pau e da cenoura». 
- Como evoluirão a curto-médio prazo? 
Não sei, mas vendo os conflitos e guerras presentes e o potencial de destruição das grandes potências, parece-me que nunca foi tão necessário evitar a guerra, consolidar a paz.