Solista: Contra-tenor Andreas Scholl A letra é parte do Salmo 127, em latim. Cum dederit dilectis suis somnum: ecce haereditas Domini, filii:
merces, fructus ventris.
Abaixo, a tradução, em português, do salmo completo.
1Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam; se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela.
2 Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão de dores, poisassim dá ele aos seus amados o sono.
3 Eis que os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão.
4 Como flechas na mão de um homem poderoso, assim são os filhos da mocidade.
5 Bem-aventurado o homem que enche deles a sua aljava; não serão confundidos, mas falarão com os seus inimigos à porta.
O motete RV 626, uma das muito ignoradas obras sacras de Vivaldi, permite-nos apreciar a genialidade deste grande mestre do barroco.
Sandrine Piau traduz o devido pathos desta peça. Note-se como este estilo vocal está próximo da ópera: a música sacra, em Vivaldi e em muitos outros desta época, só se diferenciava ao nível da temática e do uso do latim.
[Há quem chame erudita à música de Vivaldi. Perdoem-me o atrevimento, porém eu considero que ele está muito mais próximo de uma sensibilidade popular, que atravessa séculos e modas. O título de «ROCK STAR DO BARROCO» assenta-lhe muito bem! Tanto as obras instrumentais, como as vocais, são exemplo disso...]
[solista: Philippe Jaroussky] Vedrò con mio diletto
l'alma dell'alma mia
Il core del mio cor pien di contento.
E se dal caro oggetto
lungi convien che sia
Sospirerò penando ogni momento...
*
I will see with joy,
the soul of my soul
heart of my heart full of content.
And if from my dear object
I be far away
I will sigh, suffering every moment...
Se lento ancora il fulmine
l'oltraggio mio non vendica
cadra quell'empio, vittima
del giusto mio furor.
Ma sposa ancor ti sono
ritorna e ti perdono;
occhi versate in lacrime
tutto l'affanno d'un tradito amor.
*
If the lightning is still slow
To avenge the outrage I have suffered,
Soon that wicked man will fall victim
To my just anger.
But I am still your wife:
Come back, and I will forgive you.
My eyes, pour forth in your tears
All the affliction of love betrayed.
O libreto, baseado num poema de Ariosto, poeta do Renascimento, tem todos os ingredientes para exprimir as paixões humanas. Nomeadamente, a tensão emocional que acompanha o desenrolar do drama em música. As paixões foram sempre matéria-prima da ópera: aqui, a paixão amorosa insatisfeita leva Orlando à loucura.
Aqui, nesta encenação, são exprimidas as emoções humanas, com talento e criatividade, motivo pelo qual prefiro esta versão a muitas outras. A qualidade musical dos interpretes serve perfeitamente a excelente partitura.
Esta ópera «Orlando Furioso» é uma das mais célebres de Vivaldi. Na nossa época, foi representada em palco e gravada em disco, com bastante frequência. Creio ser uma das óperas barrocas que mais facilmente se podem acomodar ao gosto do público contemporâneo.
Algumas das suas árias tornaram-se célebres e são regularmente incluídas em recitais, por vários intérpretes.
Concerto for Cello, Strings and B.C. in E minor RV 409:
I. Adagio - Allegro molto
II. Allegro - Adagio
III. Allegro
Francesco Galligioni [cello]
Federico Guglielmo [direction]
L'Arte dell'Arco Seria justo que este concerto tivesse uma popularidade bem maior. Quanto à excelente interpretação deste conjunto de músicos, ela serve muito bem a exuberância da escrita barroca de Vivaldi.
A alegria que se liberta dos acordes do primeiro movimento, a nostalgia do segundo movimento (largo) e a enérgica afirmação nos diálogos entre os dois instrumentos solistas no movimento final... fazem desta peça uma das minhas preferidas, de Vivaldi.
Em momentos de júbilo, de angústia, de fastio, de concentração... oiço Vivaldi.
Espero que gostem desta coletânea «La Stravanganza», os 12 concertos para violino e orquestra de arcos.
Vivaldi faz respirar - como se tivesse vida - a melodia do violino solista e extrai o máximo efeito possível da orquestra.
Estes concertos para violino (e outras coletâneas) foram realmente célebres no seu tempo, a julgar pelas variadas cópias e pelas transcrições para cravo solo.
A sua fama, junto do grande público, resume-se apenas às «Quatro Estações» que, de tanto interpretadas e gravadas, perderam todo o impacto no auditor; um efeito de saturação.
Pelo contrário, a sua música sacra, assim como um grande número de árias de ópera, são de uma beleza inultrapassável mas, lamentavelmente, até há poucos anos, raramente ouvidas em concertos ou gravadas em disco*.
O «Dixit Dominus» é um salmo tradicionalmente usado no ofício de Vésperas, mas também na cerimónia de ordenação de um sacerdote (tu es sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedech**), na Igreja Católica.
Esta versão, com a sua longa introdução «Cantat in Prato» é muito bela. Tem a pompa toda associada ao rito católico.
--------------------------------- * Esta gravação, dirigida por Angelo Ephrikian, é estreia mundial, datada de 1967.
**Thou art a priest for ever after the order of Melchizedek
O Magnificat é também conhecido como o Cântico de Maria. É um dos hinos cristãos mais antigos e talvez o mais antigo hino mariano.
O seu nome deriva da palavra de abertura no texto da Vulgata (Lk 1: 46:55): Magnificat anima mea, Dominum (Minha alma magnifica o Senhor). Estas são as palavras cantadas por Nossa Senhora no momento da sua visita à sua prima Santa Isabel.
O hino é parte do culto de vésperas na liturgia católica. Também as liturgias luterana e ortodoxa incluem este hino. O Magnificat de J. S. Bach talvez seja a versão musical mais célebre deste hino.
Vivaldi escreveu vários Magnificats. O mais frequentemente executado e gravado é o RV 610.
Porém, RV 611, não lhe fica atrás em qualidade musical.
As partes solísticas na obra abaixo reproduzida são mais extensas, enquanto as partes de coro são substancialmente idênticas ao Magnificat RV 610.
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Magnificat - Latin & English
Magníficat ánima mea Dóminum.
Et exultávit spíritus meus: in Deo salutári meo.
Quia respéxit humilitátem ancíllae suae:
Ecce enim ex hoc beátam me dicent omnes generatiónes.
Quia fécit mihi mágna qui pótens est: et sánctum nómen eius.
Et misericórdia eius in progénies et progénies timéntibus eum.
Fécit poténtiam in bráchio suo: dispérsit supérbos mente cordis sui.
Depósuit poténtes de sede: et exaltávit húmiles.
Esuriéntes implévit bonis: et dívites dimísit inánes.
Sempre fui adepto de Vivaldi, desde que me conheço. A sua música é penetrante pela melodia endiabrada ou de pathos contido; suas orquestrações deixam-nos sempre agradavelemente surpreendidos. A sua criatividade é imensa, como imensa é a sua obra. Nunca me deixa indiferente. Tenho de confessar que a sua música foi, é, e será sempre o meu grande amor. Mesmo que não seja exclusivo, é uma espécie de âncora para nós podermos mergulhar no universo do barroco. Todos os grandes compositores tinham as suas fórmulas de sucesso. Tinham alguns processos de composição que gostavam de usar sistematicamente. O caso de Vivaldi não difere, neste aspecto, do de Haendel ou Bach. Porém, a capacidade do público erudito apreciar Vivaldi dependeu - em primeiro lugar - do renovo de interpretação da música barroca. Sem este renovo, a música de Vivaldi não soa com todo o seu brilhantismo, como uma joia que fosse encaixada em moldura de baixo valor. Só com a maturidade desse movimento de renovo do Barroco, foi possível finalmente, que o grande público honrasse Vivaldi e a sua imensa produção ao mesmo nível dos maiores génios do barroco, Haendel e Bach. A «boutade» de Stravinsky, de que Vivaldi seria «um compositor que reescreveu 555 vezes o mesmo concerto» , embora tenha piada não é apenas maldosa, é completamente injusta. Para prova da injustiça desse juízo, basta escutar a enorme diversidade estilística e temática, presente no álbum de Enrico Baiano. Este consiste em reduções para cravo de vários concertos para violino e orquestra de arcos, concertos que se tornaram muito célebres em toda a Europa. O livro manuscrito que contém estes concertos transcritos não revela, de facto, a quem se devem as transcrições. Muito célebres transcrições, tanto para cravo, como para órgão, fez Bach de vários concertos aqui apresentados, pelo que o especialista poderá comparar com proveito as versões alternativas e estas com as partituras para orquestra de cordas.
A prática da transcrição para instrumentos de tecla era comum na época barroca e foi usada por Bach como forma de assimilar o melhor da música italiana, não apenas Vivaldi, como Benedetto Marcello, Albinoni e outros mestres.
A criação barroca não estava estrictamente ligada a um determinado conjunto de instrumentos: a orquestração era deixada ao sabor dos interpretes. A maioria das composições era interpretada por pequenas capelas musicais, dependentes de um príncipe, ou de um rico mecenas, mas com uma composição nada fixa. Os compositores estavam naturalmente conscientes dessas limitações e sabiam que as composições poderiam ter várias leituras, várias instrumentações, sem considerar isso uma «traição» ao espírito da obra. Assim, os baixos contínuos eram sempre improvisados, os ornamentos, das linhas solísticas, muitas vezes deixados ao gosto do intérprete, que deveria doseá-los de acordo com a música e também com o instrumento solista empregue. Na ópera, o canto pressupunha, da parte dos célebres solistas, uma ornamentação elaborada da linha melódica.
A forma concerto que foi utilizada durante mais de dois séculos, teve origem na escola italiana e em particular veneziana, dos músicos compositores/interpretes para violino. O concerto com instrumentos solistas, tornou-se depressa a forma predominante. No concerto «grosso», em que a orquestra é responsável pela peça na sua totalidade, há lugar para um «concertino», ou seja, um grupo restrito de músicos, enquanto o «tutti» tem como função formar o substrato harmónico e expor os temas principais da peça.
Não me canso de ouvir estes autores barrocos, em especial Vivaldi. Todo o período é servido por gravações com diversos interpretes, muitos em instrumentos originais ou em cópias de instrumentos da época. Como não existe uma norma universal para interpretar Vivaldi ou Bach ou outros barrocos, podemos encontrar exemplos de gravações bastantes diferentes no pormenor, mas com igual qualidade quer estilística, quer técnica.
Poderia escrever muitas coisas em relação ao génio de Vivaldi, à excelente interpretação de Jaroussky e Jean-Christophe Spinosi, mas hoje, dia em que acordámos com a terrível notícia do terramoto no centro de Itália, com dezenas de mortos confirmados e centenas de desaparecidos, apenas farei uma prece:
- Que exista solidariedade verdadeira de entre todos os povos, em especial os europeus, para acudir e ajudar quem precisa de mais tratamento e conforto, ajudando depois a reconstruir as vidas das vilas e aldeias fustigadas pelo trágico terramoto.
Só assim temos o direito de falar de uma Europa à Itália que nos deu Vivaldi e tantos outros mestres.
Desejo transmitir aqui, modestamente, o meu pensamento de profundo sentir e de solidariedade com o povo italiano.