segunda-feira, 12 de março de 2018

[Obras de MANUEL BANET] SE, ALGUM DIA, LHE ESCREVESSE UM POEMA DE AMOR

Se, algum dia, lhe escrevesse um poema de amor
Ah, ela nunca saberia, nunca por nunca lho diria
Dentro de mim o guardaria, sem jamais lho mostrar!

Bem melhor que ela nem suspeite estes devaneios
De palavras. São falsos brilhantes. Não merece seu peito
Tal dúbio enfeite; ou, por vezes, num punhal embainhado

Seu resplandecente olhar jamais cairá sobre versos
De Romeu de opereta, falsos como todos os 
Que dizem o que não se diz, o que não se pode...

Morram as palavras nas masmorras cranianas!
Sem qualquer piedade eu as imolo todas
As queimo diante do severo ou divertido juízo 

Este sem-sentido da vontade inebriada
Estonteada que me compele a escrever
Em segredo a dor antiga no peito calada

Nunca deixarei que sonoros bramidos fendam 
O ar em seu redor, violentando a natural harmonia
- No silêncio vivem seus nobres pensamentos

Com sinceridade e por querer jamais darei
Nome ou sinal: ela corre invisível pelas ruas; 
Em meus braços carinhosos se vem acolher 

Não, este tosco escrevinhar apenas confessa
A impossibilidade de dizê-lo, o amor
A futilidade das palavras e a nossa vaidade