quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

[NO PAÍS DOS SONHOS] SCHUBERT «ARPEGGIONE SONATA»


Uma rapsódia de melodias, umas inquietas outras serenas, trotando na sua cabeça. 
Não se podia levantar da marquise onde estava deitado, o corpo hirto, os braços ao longo do tronco, todo coberto por um pano de linho branco. 
Ouvia vozes que conferenciavam, a poucos metros, mas não distinguia as palavras, nem sabia identificar seus autores.
As palavras não tinham sentido, quaisquer que fossem; não fazia sentido, senão a melodia sublime que emanava do âmago. 
Como que chamando a sua alma para o alto, declinando todo o carinho que pode possuir uma voz de mãe, de abraço terno e caloroso, mas sem nostalgia... desse "eu", que deixava para trás; ele seria em breve cinza; já nada restaria da entidade corpórea senão a concha, vazia do espírito que a habitara.
Não havia regresso à vida, nem havia morte; a alma estava a ser transportada para uma nova dimensão. 
A serenidade que ressentia, não era penosa ou pesada. 
A analogia musical surgia como a única possível. Cada nota musical era como que uma descoberta eterna,  revelação, desvelar de antigo segredo. 
Vibração, onda, frequência... todo o Universo, afinal, se abria e acolhia este Ser, o verdadeiro Ser transcendente.