sábado, 25 de novembro de 2017

[OBRAS DE MANUEL BANET] TRATADO DOS MISTÉRIOS*






o vazio

       infinito, infinitesimal
des – existência, potência
       paradoxos a-topológicos
intemporais
       circunscritos à medida
de todas as coisas
       que no universo vogam
entre espaços irreais
       o vazio está   ausente
a sua objectividade é
       uma perfeita negação
através dos percursos
       incontornáveis dos corpos
extensíveis ao infinito
       mas a física diz-te
que só o vazio proporciona
       à matéria transformar
       potência em acto
       libertando a energia que perdura
       no movimento
       dos corpos materiais
diz-te afinal que a trama
espacial-temporal está
tecida de matéria e de energia
que o próprio curso
do universo é expandir-se
ritmicamente no fluxar
através do vazio
transportando-se mais além
acima e abaixo
em todas as dimensões
e a todos os instantes
não! um corpo jamais
pode fazer o mínimo movimento
sem que o vazio
o permita   sua trajectória
é tão determinada
pela massa própria
pela massa dos restantes
corpos do universo
como pelo vazio
                circundante, envolvente
que define os corpos
sinta-se o braço
movendo-se na água
veja-se a fluidez
de uma interface
em que se interpenetram
as propriedades opostas
o duro e o mole
o veloz e o lento
o longo e o curto
o pequeno e o grande
tudo enfim que faça
parte do grupo
de conceitos bipolares
a absurda relatividade
do binómio matéria / energia
é tributária
da validação do vazio
este, verdadeiramente
une o positivo e
o negativo
o quente e o frio
sinal espiralar
das superfícies de Moebius
o facto de ser indizível
é uma barreira que pode
ser transposta no magno
mistério da abstracção.

como sonhos nos viriam
à memória se não
houvesse vazio
no intervalo dos neurónios
na rede das sinapses
dendrites e axónios
que penetram
a nossa substância
como se moveria
a ave no céu
e a nuvem caminharia
silenciosa
tranquila e sombria
ao sabor dos ventos
e do sol
e dentro de cada
nível quântico
entre duas configurações
energeticamente
distintas   a física
interdita todo o intermediário
e entre passado e futuro
a extensão passa para
limite   como presente
que o fluxo anula
para percorrer a via
do grande rio do tempo
        e a onda
associada á partícula
voga de ponto em ponto
por esse universo afora
até perfazer a circum-navegação
da sua curvatura

o vazio, portanto
enforma todos os corpos
dotados de substância
material de energia interna
de movimento e de vibração
a eles nos vamos
agora dirigir...

  



      a energia


é a condensação inicial
da energia do universo
num ponto encerrando
o todo e, para além
do qual, a extensão
se perde
quando a expansão
se deu a energia
foi decrescendo como
o quadrado da distância
até atingir o limite
do frio e do
congelar da luz
         irradia
em ondas infinitas
incansáveis caminhantes
dos espaços
à constante velocidade
da luz, mas cujo
comprimento de onda
é variável.
           
assim, da energia
em acto, emerge
o novo estádio
no processo de maturação
do universo
é no duplo sentido
potencial e actual
que te direi que
a energia se deve compreender
pois, nos diz a segunda lei
que um decréscimo
de energia livre
dispersa em entropia
uma parte de energia interna

se um movimento
se pode decompor
através das mudanças de estado
é porque existe uma diferença
de potencial
em termos formais
é o somatório dos vectores
energia potencial, trabalho
e entropia
e se o estado estacionário
se pode manter
num certo intervalo
de flutuação
é porque supera
o ruído de fundo

se em todo o universo
a energia total
fosse inconstante
de que servira apelar
para um equilíbrio estacionário
todos os valores
teriam a base modificada
constantemente
pela variação da matriz
espacial- temporal
a primeira lei diz-nos
que a energia total
num universo isolado
se mantém constante
embora se transforme
ou se converta
em diferentes formas
de energia
calorífica - cinética - potencial

mas essa energia
é conversível e poderá
ser convertida
em matéria
já que o quadrado
da velocidade da luz
é igual
à energia
e= MC²
porém o fotão é imaterial
eterno não será
porque em matéria
se pode converter
mas a onda associada
à partícula não se pode
delimitar e se irradia
constantemente.


       compreendemos que
a energia do fotão
seja igual ao produto da constante
de Planck pelo quociente
da velocidade fotónica
sobre o seu comprimento de onda




a matéria

mas a matéria consubstancia-se
em partículas
átomos
moléculas
em galáxias
e nebulosas
que vemos no céu límpido
de noite no hemisfério austral
a matéria está
associada á energia
que lhe permite
fazer uma ligação
entre duas partículas
dois átomos e
construir os níveis
molecular, macroscópico
e universal
pois a matéria
se associa e se dissocia
em todo o conjunto de corpos
que se queira
          e quando se anula
é para libertar
a energia que encerra
o fluir dos átomos
cria o espaço
e o tempo
e as suas trajectórias
são desviadas por forma
aleatória criando um
‘clinamen’, ou seja,
uma via divergente
o percurso acidentado
dos átomos permite-lhes
estabelecer encontros
e ligações entre si
que nós vemos
se complexificar
em proporção
do tempo decorrido
e os diferentes componentes
da matéria são construídos
em níveis sucessivos de complexidade
as coisas que se apresentam
aos olhos ou que se podem pesar
têm uma consistência material
segundo a nossa visão
mais comum
o átomo tem certos orbitais
disponíveis para estabelecer
e manter uma ligação
é por isso que podes
ver os objectos
com uma espessura
e com uma definida forma
essa organização
tem subjacente
a organização molecular
e atómica
as características
mais relevantes
na passagem
do microscópico
ao visível a olho nu
são
a densidade e a massa atómica
para que a matéria se possa
experimentar temos que
estabelecer uma forma
de avaliar as componentes
do sistema
o princípio da incerteza
dá-nos a desigualdade
fundamental
que nos proíbe
de aumentar a precisão
do momento de uma partícula
e determinar
com igual precisão
a sua energia potencial
nesse mesmo instante


 o espaço

no espaço se movem
os objectos e por estes
se delimita o espaço
não se pode medir
o espaço na ausência
de referente
a posição do observador
influi na sua visão do espaço
existe uma relatividade
que está associada aos
movimentos respectivos
dos objectos e do observador
se este se afasta
a velocidade próxima da
da luz dá-se uma contração
do espaço / tempo
os valores da medição de uma trajectória
no espaço
dependem
das coordenadas que se escolhe
para se avaliar
uma trajectória
é necessário definir
quais as dimensões do espaço
o espaço (euclidiano) a três dimensões
que usamos na nossa percepção
do mundo é apenas um dos espaços
possíveis
em que espaço se encontra
a anti-matéria?
   como conceber a forma
quadridimensional do continuum
espacial - temporal?
apenas em equações
podemos representar
adequadamente
um grande número de dimensões
pois se a reduzirmos
de uma dimensão
a descrição do movimento
perde precisão numa variável
uma dançarina
pode ser filmada
mas o filme projectado
não dá uma das dimensões senão
por ilusão de óptica
e não nos deixamos enganar
se pudermos observar
de lado, o écran
para nós é também evidente
que o sentido do fluxo
temporal é irreversível
pois um filme
passado o fim para o princípio
dá uma sequência
contraditória
com a nossa experiência
e não se pode
em física experimental
inverter impunemente
o sentido de uma qualquer
grandeza
e uma dessas grandezas
é o ...


          tempo


            ... é um conceito
de muito difícil compreensão
podemos falar do presente
mas este não é mais que um limite
entre o que já foi e
o que ainda não existe
...................................

o movimento

existe movimento
existe, porque há vazio
e porque há energia
a desprender-se
dos corpos
materiais




a vida


a vida está em todo o universo
o universo é um ser vivo e como tal
pode ser compreendido   não existe sentido
para a palavra vida se ela não for
entendida como uma grande lei do universo

as formas que convencionámos designar “vivas”
são fracções do grande organismo único

encerram as propriedades que as ligam
ao todo   e que são:  a ordem,
a eternidade, a transformação

a ordem    porque emergem como regularidades
e fluxos direcionais, gradientes e ritmos

a eternidade, porque derivam de formas
ancestrais que por sua vez derivam de
agregados moleculares eles próprios
tributários de arranjos específicos dos átomos
e assim sucessivamente

a transformação, porque não
 só contrariam
a tendência para a desorganização
refazendo constantemente as peças
com que são construídos, como
têm em si próprios a potencialidade
de aproveitar ocorrências ocasionais
para transformar suas estruturas

a sua continuidade só é mantida
pelas inovações que se vão introduzindo
adaptando-se às novas condições
do meio ambiente
corrigindo desequilíbrios
como funâmbulos que compensam
as oscilações da corda sobre a qual
se deslocam à custa de oscilações
compensadoras do seu corpo
e da vara
que seguram nas mãos

as formas mantêm o domínio
de si próprias
pelas leis internas que
resultam da sua complexidade
organizacional

o seu funcionamento permite-lhes
filtrar do exterior
aquilo que lhes traz
maior capacidade de resposta
conferindo-lhes autonomia

a autonomia consiste
em poder distinguir
o que lhes é próprio
do que lhes é estranho
tolerar variações ambientais
por vezes bruscas
graças a fronteiras
que estabelecem com o mundo
exterior
incorporar activamente
matéria, energia e informação
desse “não eu”
e transformar as zonas
que os circundam
por processos activos de trocas
de buscas
de construção paciente dos seus territórios
estabelecendo uma rede
densa de alianças
com outros seres
contribuindo para o equilíbrio
geral de todo o universo
em que estão inseridos

as leis gerais da Physis aplicam-se
aos seres vivos, sem exceção
no entanto, sobre essas leis
os viventes estabelecem
um controlo que lhes permite
superar os turbilhões
desintegradores das forças cegas
do espaço e do tempo
da matéria e da energia

o seu processo é análogo
ao de um homem que desce
o curso de um rio impetuoso
numa canoa, sujeito à força
avassaladora da corrente
mas guardando a direcção desejada
por pequenas remadelas
que compensam as turbulências

no final, acaba por deixar
virar o seu frágil esquife
quer porque está demasiado
cansado e perde os reflexos
salutares, quer porque
um redemoinho demasiado forte
se apodera inesperadamente
do barco e o engole 

[* escrito em 1985-86]