quarta-feira, 14 de setembro de 2016

REPRESENTAÇÃO DO CORPO HUMANO NA ARTE


As proporções do corpo humano devem ter interessado a humanidade desde tempos imemoriais. 
No entanto, a partir das primeiras civilizações, Suméria, Babilónica, Egípcia e Grega… formam-se cânones, os quais correspondem a uma forma estilizada e ideal do corpo.
Nomeadamente, o tamanho da cabeça em relação ao corpo costuma seguir uma proporção de 1:8 no homem adulto

                    

Porém, no bebé recém-nascido, essa proporção corresponde a 1:4.
A representação do recém-nascido ou do bebé de poucos meses, na pintura medieval, não obedece à proporção «natural». Porém, custa-me a acreditar que se trate de ingenuidade, de falta de rigor (na observação e no desenho) ou mesmo de indiferença da parte dos artistas dessa época.

Penso que se trata antes de uma escolha deliberada, na medida em que estão representando o sagrado, o Deus feito homem, no corpo de Jesus Cristo.                                      
Segundo a sua simbólica, os personagens mais importantes deviam ser representados com dimensão maior, independentemente das leis da perspetiva (que não ignoravam, mas que eles, simplesmente, não aplicavam na representação do sagrado).
Dentro da mesma lógica, o Deus-menino tinha de ter as proporções perfeitas, porque o seu corpo era o corpo de Deus feito humano.
                                 
«A Virgem com o Menino», da Basílica de Santa Sofia de Istambul (século IX) apresenta-se sentada num trono, com um «menino» que é uma imagem de adulto em ponto pequeno.
Os estudos de anatomia de Dürer e de Leonardo da Vinci, para apenas citar dois grandes mestres, eram de excecional qualidade e suas observações continuam a ser estudadas, no que toca à representação do corpo humano, por estudantes de artes plásticas.
          

Por muito originais que fossem, eles não eram os únicos que se dedicavam a estudar as proporções do corpo humano. Eram típicos da época (finais do Séc. xv, início de Séc. xvi), em que houve um grande movimento de interesse pela realidade e pelo rigor na representação do corpo humano.
O realismo surge na pintura ocidental, inicialmente pela emulação em reproduzir as obras clássicas - gregas e romanas - o cânon correspondente. Mas depois, emancipa-se dessa  filiação clássica….
O francês Georges de La Tour é cerca de um século posterior a Dürer e Da Vinci - ele tem uma preocupação muito grande de representar a verdade dos corpos, de forma anatomicamente correta.

Não só o bebé tem - de facto- as características anatómicas dum recém-nascido (enfaixado, como era hábito na sua época), como a mãe que o segura, pode ser  simplesmente uma camponesa, mesmo que façamos a leitura da Virgem Maria com o Menino Jesus.


Mas o maneirismo e o início do barroco, sobretudo na península Ibérica, elegem a deformação ou alteração das proporções como forma de exacerbar um efeito.    
                        
 Este alongamento é mais patente em El Greco (em finais de séc. XVI e no início do Séc. XVII). Porém, é também muito frequente na mesma época, nos  grandes espaços de palácios e igrejas: estes espaços possuem grandes frescos, visíveis duma determinada perspetiva, em geral de baixo para cima, como é o caso dos tetos e paredes altas. Nestes casos, a forma tem em conta o efeito de perspetiva, mas também o acentua por vezes, para dar um efeito em «trompe l’oeuil». 
O maneirismo e o barroco (final do séc. XVI e primeira metade do século XVII) foram exatamente os períodos em que se procurou uma expressividade nos corpos, não apenas nas suas posturas, como também na alteração das suas proporções. Estas representações eram vistas como verdade mística, moral e subjetiva, acima das proporções puras ou clássicas da anatomia.
Pela segunda metade do século XVIII, este modo de representação exacerbado vai corresponder ao estilo rococó.
O classismo, que se lhe seguiu, corresponde a uma reação de retorno ao cânon clássico, no último quarto do século XVIII, o qual se prolonga até ao século XIX, com o gosto napoleónico pelos modelos do Império Romano.
                   

Só no início do século XX, com o cubismo, o expressionismo, o modernismo e várias estéticas em concorrência, nas diversas vanguardas que se sucedem, tomam os artistas grandes liberdades em relação às proporções do corpo humano e em relação às leis da perspetiva. 
                                                                 






Essa mudança radical na representação é muito influenciada pela «descoberta» e admiração da arte dita primitiva (arte dos povos de África, América e Oceânia, principalmente).